As gírias e o Papa

Cláudio Jorge

Os heróis deste episódio são… Chico Batera e João Paulo II.

Não só da criação musical vive o músico brasileiro,  principalmente o carioca, que por natureza é um criador no sentido mais completo da palavra. Se tem uma coisa em que o músico é mestre é na criação e divulgação de gírias, e algumas delas chegam a romper até as fronteiras da classe e acabam assimiladas por todo mundo. É o caso do “bicho”. Eu me lembro quando surgiu essa expressão no nosso meio, e logo depois foi popularizada pelo Roberto e pelo Erasmo Carlos. Tinha gente que se ofendia ao ser chamado assim mas era um hábito do qual não conseguimos nos livrar até hoje. O sentido é afetivo, como o “neguinha” dos baianos. Uma outra, “asfro”,  também sempre foi muito usada para representar um erro. “Fulano asfrou naquela harmona” (harmonia). “Jogar nota fora”  significa improvisar ou pode ser empregado também como falar bobagem ou errar no improviso. “Bateu na trave” é quando o cara mandou uma nota errada, e por aí vai.

Existe uma tendência natural de criar palavras que sintetizem sentimentos ou comportamentos. Para o meu gosto pessoal a palavra que mais revela o espírito do músico é “atacar”, no sentido de início, começo da função, lugar onde trabalha. É comum se perguntar “Você está atacando com quem agora?”, querendo saber com que artista o colega está trabalhando, etc… Essa introdução toda é só pra lembrar mais um episódio vivido pelo Paulinho Albuquerque.

Ele  me contou que nos anos 80 estava dirigindo um show do Djavan na mesma semana em que o Papa João Paulo II veio ao Rio de Janeiro. O fato é que Paulinho estava precisando de equipamentos para o show do Djavan e o cara que tinha o melhor sistema de som na época era o baterista e percussionista Chico Batera.

Paulinho foi até ele e teve uma surpresa:

– Não vai dar, Paulinho. Meu equipamento está todo no Aterro, pro pronunciamento do Papa.

– Mas rapaz, a estréia é amanhã, você não pode me deixar na mão.

– Não sei não, compadre, deixa eu ver uma coisa aqui.

Virando-se para o auxiliar, o Chico desferiu, na maior tranqüilidade:

– Ô fulano, a que horas que o Papa ataca?

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