Explicações necessárias

Destacado

Palbuca era um endereço de e-mail que virou apelido. Comendador Albuquerque era o seu alter-ego na secretária eletrônica (ouçam a mensagem do mordomo Antunes) e Paulinho Albuquerque era o produtor, diretor, iluminador, agitador, enfim, um cara que esteve por trás de muita coisa boa na música brasileira : shows e discos com Djavan, Ivan Lins, João Bosco, Aldir Blanc, Guinga, Nei Lopes, Leny Andrade, Leila Pinheiro, Rosa Passos, Hamilton de Holanda, o Free Jazz Festival e até o Casseta & Planeta… (é muita gente, vejam a lista completa no menu, em “shows” e “discos”). Paulinho Albuquerque morreu em 26 de junho de 2006, nove dias depois do Bussunda.

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O bom ouvido do Comendador

pokon pokon_2019-10-25_ web (1)Todo mundo sabe que um bom músico tem que ter bom ouvido. E um bom produtor musical também. Estou falando isso porque me lembrei agora de mais uma história do Paulinho Albuquerque…Ele me contou, orgulhoso, que já tinha ajudado vários turistas perdidos no Rio de Janeiro.  Numa das vezes, viu um grupo de americanos tentando se comunicar com populares no meio da rua, pedindo informações. Os caras não falavam português e os populares não falavam inglês. Paulinho se aproximou e tentou entender o que os viajantes queriam saber. Os caras repetiam várias vezes a expressão “Prêica Paio Ex”, “Prêica Paio Ex”…Depois de um tempinho, o Comendador decifrou a charada: os turistas queriam ir para a Praça Pio X !

Num outro dia, Paulinho estava num ônibus e uns turistas japoneses tentavam se comunicar com o trocador, perguntando se o ônibus passava num lugar chamado “Pokón”. Mais uma vez, Paulinho se meteu na conversa para tentar ajudar, mas os japoneses também não falavam inglês, e só se comunicavam por mímica, fazendo gestos de quem está comendo, e repetindo: “Pokón, pokón…”. Mais uma vez, o Comendador rapidamente desvendou o mistério: os nipônicos queriam ir para o Porcão, a famosa churrascaria carioca…

E assim, a história desses turistas perdidos terminou com um final feliz, graças ao bom ouvido de um bom produtor musical.

 

As lições de Mestre Marsalis

João Máximo

Marsalis-Wynton_720x415A vinda de Wynton Marsalis para dar aulas de jazz em São Paulo é daquelas que fazem os moradores de outras cidades morrerem de inveja. Concertos comentados, ensaios abertos, palestras, workshops, aos cuidados de uma orquestra liderada por ele, músico que consegue ser, ao mesmo tempo, extraordinário trompetista e excelente professor.

A visita de Marsalis, para tocar e ensinar, nos remete a uma noite vivida por caravana musical brasileira em Havana, em maio de 2001. Em volta de uma mesa redonda, Paulinho Albuquerque, Nei Lopes, Cláudio Jorge, Mauro Dias e nós conversávamos sobre música, quando alguém mencionou “Jazz”, a admirável série produzida por Ken Burns que o GNT estava exibindo nas noites de segunda-feira.

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Zuza Homem de Mello, Cláudio Jorge, Paulinho Albuquerque e João Máximo, em Cuba, tramando altos planos…

 

Por que não se fazer no Brasil série igual sobre o samba? –– sugeriu alguém como se a provocar o espírito realizador de Paulinho Albuquerque. Deu certo: depois de alguma conversa, aprovou-se a ideia da série e a escolha do próprio Paulinho para levá-la adiante.

Foi então que sugerimos que o mestre de cerimônias de “Samba” fosse justamente o Nei Lopes. “Ele é o nosso Wynton Marsalis”, dissemos comparando-o ao trompetista que cumpria brilhantemente a missão na série de Burns.

O assunto não parou por ali. Com aquela energia que o levava a fazer coisas importantes na música (inclusive a produção des nossos melhores festivais de jazz), Paulinho Albuquerque seguiu em frente. Organizou várias reuniões, uma delas na casa de Nei em Seropédica. Chegou-se a pôr o projeto no papel e a gravar som e imagem com alguns entrevistados. Mas, infelizmente, o sonho de Paulinho morreu com ele cinco anos depois daquela noite em Havana.

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Em Cuba: o percussionista Ovídio Brito, o Comendador Albuquerque e Nei Lopes, o nosso Wynton.

A sugestão de Nei Lopes para ser o nosso Wynton Marsalis não se devia às respectivas bagagens musicais, Nei sambista de primeira, Marsalis virtuoso do jazz. Simplesmente, acreditava que a mesma contribuição que o americano dava ao estudo do jazz, mantendo-o intimamente ligado à história política e social dos negros na América, só alguém com a cultura de Nei sobre os negros do Brasil poderia dar ao samba.

É claro que era um posição no mínimo discutível. Por que questionar a cor da pele dos muitos críticos e historiadores que haviam estudado o samba e outras bossas de nossa música? Que diferença havia entre uns e outros? No caso do Brasil, pouca ou nenhuma. Mas, no caso americano, a participação de Marsalis em “Jazz” era a primeira vez que se sabia que os negros tinham mais a dizer sobre sua música.

Foi um dos encantos da série. Nós, que por aqui “aprendíamos” sobre jazz nos livros de intelectuais ingleses, franceses, alemães, suecos, latino-americanos e até japoneses, ficamos sabendo muito mais com o que Marsalis e outros estudiosos negros, como Albert Murray e Gerald Early, nos contavam em cada capítulo. Por exemplo: que o jazz era “a maneira indolor” de o negro americano se conhecer –– diz, logo o primeiro capítulo, o mestre de cerimônias de Burns.

Uma série brasileira sobre o samba jamais teria a dimensão da americana. A começar pelo rico material fotográfico que o produtor teve nas mãos. Ou pelos vários registros sonoros, raríssimos, que ouvimos na trilha sonora. Mas, com Nei Lopes no papel de Marsalis, poderíamos saber mais sobre os iorubanos da Cidade Nova e os bantos do Estácio de Sá, os verdadeiros criadores da mais brasileira das músicas.

Passados tantos anos, “Jazz” continua ao nosso alcance na coleção de DVDs lançada mundialmente, inclusive no Brasil. Mas “Samba”, como Paulinho Albuquerque, é só saudade.

(texto publicado no site G1, logo depois da temporada de Wynton Marsalis e sua orquestra em São Paulo, em junho de 2019)

 

Samba jazz, de raiz

Nesses tempos tumultuados, para variar um pouco, temos uma boa notícia: um dos mais ilustres membros da AMAPALBUCA, o grande Cláudio Jorge, acaba de lançar mais um disco autoral. Desta vez, o título é “Samba Jazz, de raiz”. A parada tem tudo a ver com o jeitão do Paulinho Albuquerque, um cara que, nas palavras de Cláudio Jorge, ” era um mestre na organização deste trânsito entre o samba e o jazz”.

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A obra existe no formato CD, mas também está nas plataformas digitais. Foi gravado e mixado por Rodrigo Lopes. As fotos são de Januário Garcia e Mariana Maiara. O projeto gráfico é de Felício Torres.

Sim, o disco do Cláudio é um autêntico disco de samba, mas com um molho especial e participações de grandes instrumentistas como, por exemplo,  Leonardo Amoedo, Itamar Assiere, Zé Luiz Maia, Wilson das Neves, Humberto Araújo, Ivan Lins, Ivan Machado, Camilo Mariano, Fernando Merlino, Kiko Horta, Dirceu Leite, Frejat, Peninha, Victor Neto, Walter D’Ávila, Cacau D’Ávila, Luis Filipe de Lima e Marcelinho Moreira, todos fazendo tabelinha com o dono da bola, o violonista e guitarrista Cláudio Jorge.

 

Para abrir o apetite, aqui estão duas das quinze faixas do disco, a primeira e a última. A primeira, “Samba Jazz, de raiz” dá o tom da coisa toda e contém um belo solo do guitarrista Cláudio Jorge. A última, “Você pra mim, eu sou pra você” é uma parceria do Cláudio com Ivan Lins e conta com o piano do Ivan e a incomparável voz da Fátima Guedes. De quebra, lá no fim da faixa, tem uma participação especial do locutor que vos fala, fazendo o papel de locutor da Rádio Paulinho Albuquerque, uma emissora que, infelizmente, só existe nos sonhos do Cláudio Jorge.

 

 

 

Tom, Villa, Gilson & Arthur

Tom e Villa_capa_ webEm 1986, Paulinho Albuquerque produziu um disco que até hoje não foi lançado normalmente. O título era Tom & Villa, um LP em homenagem aos 100 anos de nascimento de Heitor Villa-Lobos, mas era um brinde de fim de ano, exclusivo para os amigos e clientes da Coca-Cola. Paulinho deu a ideia, e a empresa topou. A escalação era a seguinte: Gilson Peranzzetta no piano e o jovem Arthur Maia (que tanta falta está fazendo neste planeta) , no baixo. E a gravação contou também com o apoio de mais dois craques: Zé Nogueira no sax soprano e Armando Marçal na percussão.

Os arranjos eram do Gilson, que criou quatro longas suítes, combinando várias composições de Tom Jobim e Villa-Lobos, e Arthur Maia usou o seu baixo elétrico fretless (sem trastes) tirando um som tipo Jaco Pastorius, um de seus ídolos… A capa do LP foi feita por Mello Menezes.

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Agora é só esperar para ver esse disco ser relançado, desta vez pra valer, numa homenagem não só ao Villa e ao Tom, mas também ao Arthur.

Ouçam aí a primeira faixa, Jobinianas N. 1.

 

 

O ministério do Comendador

Sonhar é grátis…Então podemos imaginar que, se Paulinho Albuquerque ainda estivesse neste planeta e se tivesse sido eleito Presidente da República, a esta hora estaria indicando nomes para o seu ministério. Poucas coisas podemos garantir neste mundo mas, tenho certeza absoluta de que, se ele fosse escolher um general para a sua equipe, este seria o inesquecível trompetista Marcio Montarroyos, conhecido no mundo do som como “O General”. Na foto, o Comendador está com o General e com Carlos Malta, outro que teria uma vaga garantida no governo, provavelmente no Ministério dos Saxofones e Flautas.

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Carlos Malta, Marcio Montarroyos e Paulinho Albuquerque

  • A imagem, tirada dos arquivos do Comendador, infelizmente não tem identificação de fotógrafo. Se alguém souber, mande um recado.

Wilson das Neves, Mestre Marçal e o Comendador

Paulinho Albuquerque adorava citar as famosas frases usadas por Mestre Marçal. Eram coisas do tipo: “Eu sou espada!”, “Tô morando em cima do sapato”, “Se a onça morrer, o mato é nosso” ou, a minha preferida, “Quem procura o que não perdeu, quando encontra não reconhece”. E aí, em 1996, quando Wilson das Neves lançou o CD “O Som Sagrado de Wilson das Neves” , pra nós foi um grande momento, porque nesse disco tem uma faixa maravilhosa, com o título  “Mestre Marçal”. Nesse samba, Wilson e seus parceiros Paulo César Pinheiro e Zé Trambique conseguem citar um monte daquelas frases imortalizadas pelo grande Marçal. E agora é uma boa hora pra ouvir mais uma vez esse samba, em homenagem a esses três caras que não estão mais aqui para dizer : “Eu nasci sem saber nada e vou morrer sem aprender tudo, e se a morte é um descanso, eu prefiro viver cansado.”… Olha o samba aí: