O primeiro encontro com Moacir Santos

Nesta foto, da coleção de Monique Gardenberg, Moacir Santos está cercado por um bando de admiradores: Keith Seppanen (engenheiro de som), Ronnie Foster (produtor), Moisés (trombone de pisto), Paulinho Albuquerque (coordenação de produção), Luiz Avellar (piano), Djavan, Marquinhos (sax tenor e flauta), Zé Nogueira (sax soprano), Frank Zotolly e Steve Kujala (flauta).

Zé Nogueira lembra que ” …a foto aconteceu logo após a gravação do belíssimo arranjo de sopros do Moacir para a música Capim. Esse arranjo é uma música dentro da música…Era um momento muito especial, foi quando conhecemos pessoalmente o Moacir ! Isso foi em 1982, durante a gravação do disco Luz, do Djavan…”

E agora ouçam com atenção o arranjo do maestro…Com exceção do pianista Frank Zotolly, todos na foto participaram da gravação. E mais: Sizão Machado (baixo), Teo Lima (bateria), Café (percussão) e Raul de Souza (trombone).O solo de Mini-Moog é do Ronnie Foster.

http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/djavan/capim/4902187

O Assobiador do Jazz

Zé Nogueira

Durante uma de nossas primeiras reuniões de curadoria do Free Jazz, por volta dos anos 80, Paulinho, descobridor de talentos ainda desconhecidos do grande público brasileiro (vide Bobby McFerrin e Stanley Jordan, que vieram ao Brasil ainda no desabrochar de suas carreiras), sugeriu um nome: Ron McCroby, um exímio assobiador de jazz que se apresentava acompanhado de trio (piano, baixo acústico e bateria) e improvisava barbaramente. Nessa época eu e o Comendador dividíamos o mesmo apartamento e pude atestar a capacidade do assobiador antes da nossa reunião acontecer. E ouvia, naquele apartamento, muita coisa diferente. Paulinho guardava tudo. Tinha um arquivo de fitas gravadas de shows antigos e uma discoteca de se tirar o chapéu. Ali, aqueles anos passados na Rua Pena Chaves, no Jardim Botânico, me valeram por um verdadeiro mestrado em música.
Enfim, o nome do assobiador foi apresentado na reunião mas a Monique (Gardenberg) não deu a mínima. “Paulinho! Um assobiador? Tá brincando…”.  Eu confirmava que era bacana mas a Monique permanecia incrédula. Passaram-se os anos e a cada reunião, entre Miles Davis, Stan Getz e Sarah Vaughan, Paulinho vinha com o nome do assobiador e todos riam… As reuniões foram assim até que um dia demos de cara com o obituário da revista Enquirer que dizia no título: “Os lábios de Ron McCroby eram o seu refinado instrumento”.

Foi fuçando emails antigos do Paulinho que achei a pérola:

From: Paulo Albuquerque
Date: December 23, 2004 3:02:45 AM GMT-02:00
To: monique gardenberg
Cc: Jose Nogueira , Zuza Homem De Mello
Subject: BOAS FESTAS

Monique,
Lembra do Ron McCroby, o assobiador, que eu tentei, sem sucesso, trazer para o festival? Pois bem, eu e Zé Nogueira fizemos uma pesquisa na Internet e descobrimos que ele faleceu em 2002.
Na sua última entrevista, na véspera de sua morte, ao Los Angeles Times, ele declarou:
” Miss Gardenberg doesn’t want me in her festival. There’s no more reason
for living.”
E suicidou-se. Assobiando, segundo dizem.
Também, agora eu juro que não vou insistir mais para trazê-lo.
Bem, Monique, Boas Festas, um tremendo Natal e um Ano Novo maravilhoso para você, Raymond e a familia.
Obrigado por tudo nesse ano.
Bjs,
Paulo

E agora vejam Ron McCroby em ação neste video:

Inventando o Free Jazz

Monique, Zé Nogueira, Federica Lanz Boccardo, Paulinho e a também inesquecível Sylvia Gardenberg.

Reinaldo

Esta foto, escaneada de um exemplar do JB de 28 de julho de 1985, marca o lançamento do Free Jazz Festival. Tudo começou uns dois anos antes, quando Paulinho Albuquerque, Zé Nogueira e Monique Gardenberg voltavam de uma turnê do Djavan nos Estados Unidos (os três estavam trabalhando com Djavan na época). No último dia da viagem eles foram a um festival no Lincoln Center, em Nova York, com shows de Stan Getz, David Sanborn e outras feras. E, já durante o vôo de volta para o Rio, começaram a fazer planos para um grande festival de jazz e música instrumental brasileira.  O resto vocês sabem…As irmãs Gardenberg fizeram a coisa  acontecer e o Free Jazz  Festival se transformou num maiores eventos musicais do Brasil.

Na foto está faltando Zuza Homem de Mello, que foi convocado para completar o time de craques. Segundo a Federica, na foto poderiam estar também Abel Gomes da P&G , que cuidou da cenografia, Ivone Kassu, que fez a assessoria de imprensa  e  Zé Luiz Joels, da Oficina de Luz, na iluminação. A Federica  ficou, como ela mesmo diz, “ naquele  negócio de venda de ingressos, distribuição de convites, etc., um  cargo que mais tarde ganhou o pomposo nome de controller ”.

Para mim foi um prazer poder assistir a vários shows do festival ao lado do Paulinho, ouvindo seus comentários de expert  esperto. Não me esqueço do dia em que estávamos num show da Shirley Horn… (na verdade esse foi em 2003 e aí o festival já tinha até mudado de nome e patrocinador, agora  era o Tim Festival). Enfim, a Shirley Horn  estava tocando piano e cantando uma balada super suave, naquele seu estilo pianíssimo e de repente a tenda foi invadida pelo som de uma música tipo bate-estaca (infelizmente, naquele ano houve um problema de localização de palcos e um show  interferiu no outro). A veterana cantora, já com uns 70 anos, levou um susto com o som invasor e, é claro, a platéia ficou injuriada com a coisa. Aí o Paulinho mandou essa: “ Se a velha morrer, pelo menos a gente vai poder parar tudo e pedir um minuto de silêncio”.  Esse era o Paulinho Albuquerque.