Trio Calafrio na área…com parceiro japonês!

parceiro-japones_web

Estamos comemorando os 100 anos do samba e também estamos em temporada pré-carnavalesca e, pra completar, estamos também em plena temporada de maracutaias e esculhambação geral…Por falar nisso tudo, o Trio Calafrio tem um samba que o Paulinho Albuquerque ia adorar. É aquele do Parceiro Japonês. A pérola está num CD de Marquinhos Diniz (Meu Samba). E tem a participação dos outros dois parceiros e integrantes do trio (Barbeirino do Jacarezinho e Luiz Grande). Eles têm a maior bronca desses “compositores” que entram com uma grana pra comprar uma vaga de parceiro num samba-enredo e ficar posando de bamba … Tem samba-enredo que tem uns 20 parceiros e, às vezes, o cara que realmente fez o samba nem aparece na lista! É mole?…Com vocês, o Parceiro Japonês. E o time que está nessa faixa é o seguinte: Claudio Jorge/violão e arranjo, Mauro Diniz/cavaco, Carlinhos 7 Cordas, Rogério Fernandes/baixo, Edgar Araújo/bateria, Daniel Karin e Jorge André/percussão, Dudu Oliveira/flauta, Whatson Cardozo/clarinete. Som na caixa…

…E vejam outras memórias do Trio Calafrio, que teve o Comendador Albuquerque como produtor. É só clicar em “Trio Calafrio” naquela lista de palavrinhas vermelhas na abertura do blog.

trio calafrio CD

Com vocês, o Trio Calafrio…

Aqui quem fala é o DJ Reinaldo e vocês vão ouvir agora mais uma faixa de um disco produzido pelo Paulinho…Desta vez é um samba do Trio Calafrio (Barbeirinho do Jacarezinho, Marcos Diniz e Luiz Grande). As músicas mais famosas deles são aqueles sambas gaiatos e escrachados, alguns gravados pelo Zeca Pagodinho… Aquele do Conflito: “…ai, que conflito, roubaram o cabrito do Seu Benedito” , aquele da Parabólica, que ” foi trazida por um temporal, eu achei no mato, botei no barraco, na cara de pau…”, aquele da Dona Esponja que “bebe mais de cinco caixas sem usar o toalete”…e muitos outros. Pra variar, aqui eu vou mostrar um lado mais romântico do Trio Calafrio, mas que mesmo assim não deixa de ter um toque de humor. Ouçam aí o samba Maria Alice.

Nessa faixa quem canta é Luiz Grande e Marcos Diniz. Com o auxílio luxuoso de Cláudio Jorge (violão), Carlinhos Sete Cordas, Itamar Assiere (piano e arranjo), Marcio Almeida (cavaquinho), Jorge Helder (baixo) e Jorge Gomes (bateria). Na percussão: Pirulito, Armando Marçal, Ovídio Brito e Marcelinho Moreira. Observem o detalhe sutil do piano elétrico tipo Fender Rhodes, pilotado pelo Itamar Assiere, dando um molho especial…

A saga de uma capa

Reinaldo

A foto da capa do CD do Trio Calafrio, produzido pelo Paulinho em 2003, teve a direção de arte de Ricardo Leite e o fotógrafo foi Bruno Veiga. A locação era em Inhaúma, perto da casa do Luiz Grande, um dos integrantes do trio. A idéia do Paulinho era botar um cachorro vira-lata como o “quarto beatle”, digamos assim. Aparentemente, ele nunca tinha dirigido animais irracionais e, para piorar a a situação, o tal cachorro se mostrou um ator temperamental, cheio de manias e problemas de ego. Enfim, não parava quieto. A solução foi desistir do “quarto beatle” canino e partir para um Plano B. Paulinho então recrutou um dos muitos garotos da vizinhança que estavam ali em volta, assistindo à sessão de fotos. Mediante um cachê e uma autorização, o jovem figurante acabou fazendo o papel de George Harrison e capa ficou essa maravilha que está aí.

O Trio Calafrio

Hélio de la Peña

O que o Casseta & Planeta e o Trio Calafrio têm em comum? Pouca gente sabe, mas os dois grupos foram lançados por Paulinho Albuquerque. Ele tinha a capacidade de perceber o potencial de uma rapaziada e apostava alto. No caso do nosso grupo, foi ele quem deu a idéia de juntar o pessoal da Casseta Popular e do Planeta Diário para apresentar um show no finado Jazzmania,  uma pequena casa de espetáculos que ficava no Arpoador. O show foi um sucesso, o grupo nunca mais separou, mas essa é uma outra história… 

Marcamos um encontro com o Trio Calafrio para jogar conversa fora e relembrar alguns momentos dessa figuraça que produziu os primeiros trabalhos do Casseta & Planeta e do Trio Calafrio. Sem ele, o Brasil seria hoje muito menos divertido.

Barbeirinho do Jacarezinho, Luiz Grande e Marcos Diniz são compositores de primeira que sempre deixam sua marca no repertório dos discos de Zeca Pagodinho, Dudu Nobre, entre outros. Aliás, foi o próprio Zeca quem batizou o grupo. Sempre que eles chegavam em Xerém para apresentar um samba, Zeca dizia: “Ih, lá vem o trio Calafrio”. Eles gostavam da brincadeira, mas não imaginavam que aquilo fosse virar sua marca registrada.

Até que Paulinho convidou os três sambistas para lançar um CD pelo seu selo Carioca Discos. As músicas foram pintando, sempre com um pé no humor, às vezes dois. Eles apresentavam os sambas e Paulinho aprovava ou mandava pra escanteio. O grupo respeitava a decisão do homem. “Ele sabia tudo”, disse Marquinhos Diniz. Só não gostaram quando Paulinho bateu o martelo no nome do grupo. Eles tentaram contra-argumentar:

– Paulinho, queria falar com você… – começou o Marcos Diniz.

– Fala, Marquinhos.

– Queria propor mudar o nome do grupo.

– Esse negócio de Calafrio é muito sinistro. O que você acha da gente se chamar “Partido em Três”? –  sugeriu Luís Grande.

– Porra, vocês nem acabaram de gravar o disco e já tão com medo do nome? É Trio Calafrio e tá acabado!

Os três ainda pensaram em outros nomes…

– Mas a gente chegava em casa, olhava no espelho e dizia: é, não tem jeito, é Calafrio mesmo. –  confessou Barbeirinho.

O trio chega para gravar seu primeiro  CD,  no estúdio Discovery, sob o comando de Paulinho.

–  Passamos a noite enchendo a cara comemorando a gravação –  conta Marcos Diniz  –  Luiz Grande foi cantar e Paulinho, ao invés de mandá-lo tomar um banho frio pra segurar um pouco a marola, mandou comprar uma garrafa de cachaça.

– Ele ainda não tá no ponto… – disse o produtor. – Ele não tá um bêbado legal…

Luiz Grande tomou três goladas e chegou ao ponto.

Paulinho queria marcar a unidade do grupo e, ao ouvir um samba deles, dizia:

– Tá legal. Mas falta verso aí.

– Como assim, Paulinho? A música tá redondinha. – rebatiam.

– Cada um tem que cantar um verso, porra. Assim vai ter gente calada no palco.

E eles bolavam mais um ou dois versos para encaixar no samba.

Para fixar o nome do grupo, Paulinho chegou a criar ele mesmo os versos finais para o samba “Na hora que a barriga ronca”, que acabou fechando assim:

Peço fiado ao seu Bandeira da Tendinha

Quero botar zero a zero

E ele não quer aceitar

Porque prefere ouvir samba sincopado

Com o Trio Calafrio até o dia clarear.

Luiz Grande, Marcos Diniz e Barbeirinho do Jacarezinho, em foto de Bruno Veiga para o CD do trio.

Paulinho também era um grande colecionador de causos. Se você se abrisse com ele, contasse um drama que acabou de viver e a história fosse boa, era ruim de ele guardar segredo. E Marquinhos Diniz sentiu isso na pele.

– Uma vez, eu tava no camarim do teatro Rival, tava dando um tempo pra me vestir pro show da família Diniz: eu, meu irmão Mauro, meu pai (Monarco) e minha sobrinha, Janaína Diniz. – conta Marquinhos. – Aí chegou um casal me procurando: “Marcos Diniz!”. Logo me apresentei, pensando que era autógrafo o que eles queriam. “Você tá preso!” Enquanto eu perguntava por quê, o sujeito meteu as algemas nos meus pulsos e foi me levando.

Marquinhos foi parar na Quinta  D.P., numa cela superlotada. Tinha atrasado o depósito da pensão de uma de suas ex-mulheres. O manda-chuva da cadeia sinalizou querendo conversar com ele, mas a multidão impedia o encontro. Até que finalmente ele conseguiu chegar perto do chefão, que logo perguntou:

– Então quer dizer que tu é P.A.?

– É isso aí! – respondeu orgulhoso. – Partido Alto é comigo mesmo.

– P.A. é pensão alimentícia, rapá! E eu não vou com os cornos dessa gente, morô? Tu quer matar seu filho de fome?

Marquinhos engoliu em seco.

Mais tarde, ainda no xilindró, ele entrou num jogo de ronda e começou a se dar bem. O mesmo sujeito se aproximou e quis saber quanto ele tinha ganhado.

– E isso te interessa? É da sua conta? Não falo quanto eu ganhei nem pra minha mulher, por que eu vou falar pra você?- Marquinhos  respondeu, malcriado.

O pessoal da cela ficou bolado: “Como é que tu responde assim pra esse cara, Marquinhos? Sabe quem é ele? É o Márcio Linha Direta!”

O perigoso marginal era simplesmente o recordista de participação no dito cujo programa. Pra limpar a barra e salvar o pescoço, o sambista foi fazer uma média com o tal Márcio Linha Direta:

– Tá precisando de algum dinheiro emprestado? Qualquer coisa, é só falar comigo…

Marcos Diniz foi liberado e logo procurou o apoio de Paulinho Albuquerque. Contou seu drama, à espera de uma palavra de solidariedade. Paulinho bateu no seu ombro e disse:

– Legal pra caralho!

A história de Marquinhos entrou para o repertório do produtor e em pouco tempo corria o meio musical carioca. Depois de todo esse perrengue, Paulinho gostava de repetir para os amigos:

– O telefone do Trio Calafrio para shows mudou. Agora é 190 ! – referindo-se ao número da polícia no Rio.

Paulinho também gostava de contar, no intervalo de uma sessão de estúdio, o dia em que Marquinhos Diniz entrou num boteco para tirar água do joelho e ouviu tocar na music box um samba do trio. Marquinhos foi agradecer:

– Meu irmão, quem foi que pediu pra tocar essa música?

– Ninguém. É que essa máquina é assim, se fica 40 minutos sem ninguém pedir música, ela toca uma por conta própria.

– Ah, bom… – respondeu desanimado.

– E o pior – continuou o portuga – é que ela fica tocando essas merdas daí…

Pronto. Mais uma pra cair na boca do povo.

Legal pra caralho!