Meu Tio

André Barcinski

andré_barcinski 12013806Paulinho é meu tio e foi uma das pessoas mais importantes da minha vida.Desde criança, eu era fascinado pelas histórias que ele contava sobre músicos e artistas que conhecia. Essas histórias me inspiraram a começar a escrever sobre música.

Sentia um orgulho danado em dizer que meu tio era um dos programadores do Free Jazz Festival, e vi muitos shows inesquecíveis lá: Nina Simone, Gil Evans, Ray Charles, John Lee Hooker e tantos outros. Lembro Paulinho contando casos sobre Quincy Jones, Stevie Wonder, Miles Davis… Era sensacional. Qualquer um que tenha passado cinco minutos com o Paulinho sabe o dom que ele tinha pra contar histórias.

Além de me mostrar muita coisa boa na música, Paulo tinha um bom gosto danado para cinema. Foi ele que me falou pela primeira vez sobre o Monty Python, por exemplo. Ele gostava muito de comédias italianas também. Lembro de irmos a uma sessão de “Os Eternos Desconhecidos”, do Mario Monicelli, no Cine Paissandu, quando o cinema reabriu e estava fazendo umas sessões de filmes antigos. Paulo conhecia muito sobre cinema italiano.

Uma das poucas coisas em que não concordávamos era sobre futebol. Eu sou Fluminense, e passei a vida toda sacaneando o Paulinho por causa do Botafogo. Mas fui com ele a vários jogos do Botafogo, e estava no Maracanã – sem o Paulinho – quando o Fogão ganhou do Urubu em 1989 e quebrou o jejum de 21 anos sem ganhar um título carioca. Foi lindo.

Sinto muita falta do Paulinho. Sinto que não aproveitei a companhia dele como poderia. Mudei do Rio em 1990, e ficamos meio distantes. Sempre que nos encontrávamos, era uma alegria, mas a distância não permitia tantos encontros assim.

Mas tenho matado as saudades dele com esse blog, que leio religiosamente. E com várias fotos que decoram minha casa. Uma de minhas fotos prediletas é essa. Eu devo ter um ano de idade e estou entre o Paulinho e a Sônia, sua mulher na época.Paulinho e André Barcinski_74

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E Paulo foi para Los Angeles…

Sandra Canetti

As torres gêmeas e o irmão da Sandra

Paulo foi com Sonia pra Los Angeles na época em que eu morava (com marido e filhos) em Rockville, Maryland, perto de Washington. Um dia ele me ligou e perguntou se eu não queria encontrar os dois em New York, pois iam passar por lá antes de voltar ao Brasil.

Fui e encontrei um Paulo muito excitado, interessado em ter aulas de iluminação e mesa de som… Ele me perguntou o que eu achava. Como sempre achei que ele não tinha nada a ver com Direito (trabalhava em  marcas e patentes), disse que achava que ele deveria fazer o que tinha vontade, e que a idéia me parecia ser muito interessante. Pelo que me lembro, ele voltou para  Los Angeles e Sonia veio pro Brasil. Tudo começou ali…

Evidentemente, o fato de estar casado com Sonia (Sonia Ferreira, cantora do Quarteto em Cy), acompanhá-la em sua carreira, o ambiente musical, o contato com pessoas tão interessantes…tudo isso deve ter influenciado muito meu irmão. A transformação do Paulinho, depois que se decidiu a mudar radicalmente de profissão, foi incrível! Virou aquele cara tão especial de quem tanto gostávamos,  que curtíamos tanto…


Largou o emprego e se casou com a música

Sônia Ferreira

Paulinho Albuqueque foi um dos maiores presentes que a vida
me deu. Mesmo quando separados, foi sempre um farol, uma luz na
minha vida, e  além disso tínhamos o fruto de nosso amor, essa pessoa
linda que é nosso filho Pedro . Conheci Paulo em1965 no Teatro
Opinião, onde eu participava do Show ” O Samba Pede Passagem”,  com o grupo”Mensagem” . Éramos  todos estudantes e pela primeira vez eu me
apresentava, após vencer um concurso no teatro sobre o tema
“Liberdade”, cantando ” Manhã de Liberdade”.Ele foi falar comigo depois do show, mas nos perdemos de vista.Em 1967, quando fui convidada para
integrar o Quarteto em Cy , reencontrei Paulo, que era amigo de
Esdras Rubim, irmão da Semiramis, outra nova integrante do quarteto. Ai não nos desgrudamos mais. Íamos a todos os shows, cinematecas, enfim um lindo tempo em nossas vidas.

O que posso  afirmar é que nunca conheci pessoa tão ética, responsável, inteligente, engraçada, generosa, amigo dos amigos, apaixonado e dedicado por tudo o que fazia. Ele foi um  dos maiores produtores musicais, por seu bom gosto e empenho,  e o único pai que o Pedro poderia ter.

Nosso apartamento no Leblon era  um ponto de encontro da MPB. Lá vimos nascer grande parcerias. Ele começou a trabalhar em produção musical ainda nos anos 70,  com o Quarteto em Cy e Pepê  Castro Neves, para a Funarte, e depois com o Quarteto e Francis Hime.

Acho que o samba era sua paixão maior. Ele gostava de samba desde os tempos em que  frequentava todos os shows do ZiCartola,  aquelas feijoadas de Dona Zica, ia a todas as rodas de samba da cidade. Ele era um mestre na arte de contar histórias do samba e seus principais
compositores. Era só alguém falar em um samba antigo e ele
sabia a autoria e cantava  a música na hora, para espanto de todos.

E também ia aos shows de bossa nova, nos clubes e faculdades do Rio.Sem falar que  também tinha um conhecimento imenso do jazz. Foi ele quem me apresentou a todas aquelas intérpretes maravilhosas. Sua preferida era Sarah Vaughan. A discoteca dele era praticamente completa, estavam lá  todos os grandes instrumentistas do jazz. O Paulo era uma verdadeira enciclopédia!

Realmente, ele não poderia se dar bem  em nenhum emprego burocrático, que lhe exigisse terno e gravata e bateção de ponto. Lá por 74, depois de fechar o escritório de advocacia (marcas e patentes) e ir trabalhar em uma companhia americana, resolveu seguir seu caminho musical, e continuando  sendo sempre um grande aliado na defesa do direito autoral dos artistas.

Enfim, eu poderia ficar horas aqui lembrando, e me emocionando,  ao falar de alguém que foi uma das pessoas mais competentes, integras e sensíveis desse nosso meio musical, tão conturbado pelos muitos egocêntricos que estão por aí.

Só sei que o Paulo vai continuar eterno no meu coração.