Sem perder a piada

Vivi Fernandes de Lima

Bom contador de histórias, Paulo também era especialista em tiradas, na maioria das vezes improvisadas. Pra não perder a piada, ele não aliviava nem a própria mãe, Sara. Quando ela reclamava que ele estava sumido, ele respondia:

– Sabe o que é Sara? Mãe é bom, mas dura muito…

E a conversa dos dois acabava às gargalhadas.

A morte, aliás, volta e meia era tema de suas piadas. Assim ele mostrava preocupação com a idade avançada da mãe:

– Sara, por favor, vê se não morre em dia de jogo do Botafogo.

Quando a cantora Shirley Horn faleceu, em 2005, a triste notícia acabou inspirando outra piada. Enquanto caminhávamos para um dos palcos do Tim Festival, o amigo Zé Nogueira lembrou que nenhum artista havia homenageado a cantora, que havia morrido naquele ano. Paulo, que adorava a artista jazzista, não se apertou para dar rapidamente uma solução e ainda atingir a música eletrônica, que ele odiava:

– Ainda está em tempo. Podíamos pedir duas horas de silêncio no palco de música eletrônica…

Com vocês, Shirley Horn…

Aqui quem fala é o VJ Reinaldo e vocês vão ver agora mais um som produzido pelo Paulinho Albuquerque. É uma parte do show especial que aconteceu no Free Jazz Festival de 1994, uma grande homenagem a Tom Jobim. A filmagem foi dirigida por Walter Salles Jr., mas a direção do show propriamente dito foi do Paulinho. Esse foi apenas mais um dos muito shows do Free Jazz que ele dirigiu. E foi especial mesmo: basta ver o elenco nesse número, com a Shirley Horn, uma de suas cantoras favoritas, cantando a versão em inglês de O Amor em Paz.

Inventando o Free Jazz

Monique, Zé Nogueira, Federica Lanz Boccardo, Paulinho e a também inesquecível Sylvia Gardenberg.

Reinaldo

Esta foto, escaneada de um exemplar do JB de 28 de julho de 1985, marca o lançamento do Free Jazz Festival. Tudo começou uns dois anos antes, quando Paulinho Albuquerque, Zé Nogueira e Monique Gardenberg voltavam de uma turnê do Djavan nos Estados Unidos (os três estavam trabalhando com Djavan na época). No último dia da viagem eles foram a um festival no Lincoln Center, em Nova York, com shows de Stan Getz, David Sanborn e outras feras. E, já durante o vôo de volta para o Rio, começaram a fazer planos para um grande festival de jazz e música instrumental brasileira.  O resto vocês sabem…As irmãs Gardenberg fizeram a coisa  acontecer e o Free Jazz  Festival se transformou num maiores eventos musicais do Brasil.

Na foto está faltando Zuza Homem de Mello, que foi convocado para completar o time de craques. Segundo a Federica, na foto poderiam estar também Abel Gomes da P&G , que cuidou da cenografia, Ivone Kassu, que fez a assessoria de imprensa  e  Zé Luiz Joels, da Oficina de Luz, na iluminação. A Federica  ficou, como ela mesmo diz, “ naquele  negócio de venda de ingressos, distribuição de convites, etc., um  cargo que mais tarde ganhou o pomposo nome de controller ”.

Para mim foi um prazer poder assistir a vários shows do festival ao lado do Paulinho, ouvindo seus comentários de expert  esperto. Não me esqueço do dia em que estávamos num show da Shirley Horn… (na verdade esse foi em 2003 e aí o festival já tinha até mudado de nome e patrocinador, agora  era o Tim Festival). Enfim, a Shirley Horn  estava tocando piano e cantando uma balada super suave, naquele seu estilo pianíssimo e de repente a tenda foi invadida pelo som de uma música tipo bate-estaca (infelizmente, naquele ano houve um problema de localização de palcos e um show  interferiu no outro). A veterana cantora, já com uns 70 anos, levou um susto com o som invasor e, é claro, a platéia ficou injuriada com a coisa. Aí o Paulinho mandou essa: “ Se a velha morrer, pelo menos a gente vai poder parar tudo e pedir um minuto de silêncio”.  Esse era o Paulinho Albuquerque.