Um Natal de Samba

Cláudio Jorge
Paulinho Albuquerque produziu para a Velas em 1999 o disco Um Natal de Samba. São sambas compostos por Wilson Moreira e Nei Lopes, Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro, Luisinho SP, Almir Gunieto, Zé Luiz, Dunga e Toninho Nascimento, Roque Ferreira, Barberinho, Marquinhos Diniz e Luiz Grande,  Arlindo Cruz e Sombrinha, Mauro Diniz, Cláudio Jorge, Luiz Carlos da Vila, Dona Ivone Lara e Décio Carvalho. Algumas faixas interpretadas pelos próprios autores, outras por Zeca Pagodinho, João Nogueira, Emílio Santiago e Toque de Prima.
É um disco maravilhoso e a minha dica é a faixa de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, É Natal. Obra prima, tanto o samba quanto o disco produzido pelo Paulinho.
Participam da gravação Carlinhos Sete Cordas, Dininho e Jorge Hélder (baixo), Wanderson Martins (arranjo e cavaquinho) Itamar Assiere (piano e teclados), Jorge Gomes (bateria) Ovídio Brito, Marcelinho Moreira e Gordinho (percussões), Cláudio Jorge (violão), Eduardo Neves (sopros) Ary Bispo, Eveline Hecker, Jurema de Candia e Toque de Prima (coro).
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Um e-mail de ano novo e samba novo

De: paulo albuquerque

Para: nei lopes

Em: 27 de dezembro de 2001

Assunto: samba e ano novo

Em primeiro lugar, quero lhe desejar – e a Sonia – um tremendo 2002, com muito sucesso e muito samba. Li e gostei muito do seu artigo no JB de ontem. Temos que conversar. Já tinha recebido seu e-mail sobre o assunto. Penso que muita coisa tem que ser mudada pelo próprio pessoal do samba. Iniciativas como o projeto “’Os Meninos do Rio”, o nosso selinho, a Acari Records, o seu disco, o premio Shell pro Elton, os discos do Zeca, e tantas outras coisas boas anuladas por um único show tipo “pau de sebo” juntando, de qualquer maneira, uma porrada de compositores e sambistas importantes num espetáculo sem qualquer direção ou critério, como o que foi feito no Carlos Gomes. Um espetáculo  como o dos “Amigos do Zeca”, no Canecão, que é uma esplêndida iniciativa, não pode durar quatro horas, como aconteceu. Trabalhei muitos anos (e ainda trabalho) com a tchurma da chamada “MPB” e ELES ENSAIAM pra cacete. O cuidado na apresentação do próprio trabalho não existe, infelizmente, na área do samba de uma maneira geral. Dirigi o show do Elton Medeiros (que repertório!) para o premio Shell. Fizemos dois ensaios e alguns artistas não compareceram a nenhum deles. Tivemos que ensaiá-los na tarde do dia do show. Não me lembro de isso ter acontecido com nenhum dos artistas com quem trabalhei da chamada “MPB”. As coisas acontecem porque o talento é muito grande, mas o risco de fracasso é sempre enorme e o “stress” – como aconteceu com o Elton – está sempre presente, pelo menos para quem está interessado em fazer as coisas direito. Outro grande problema que vai enfrentar nessa sua cruzada é o preconceito, o sectarismo das pessoas que dizem curtir o “verdadeiro” samba.  O cara achar  que prefere o Nelson Cavaquinho cantando suas próprias musicas ao invés da Beth Carvalho é absurdo. Porra, o Nelson era um puta compositor, tinha um estilo “sujo” de tocar, mas não cantava porra nenhuma. Além disso, as produções dos seus discos eram uma boa merda. Os “talibãs” do samba (e são milhares) atrapalham o samba, assim como acontece com o choro. É por isso que o gênero não anda. As contribuições são mal recebidas porque há “dogmas” que não podem ser quebrados de jeito nenhum. “Porra, o fulano não é da área do samba!”. E daí? O samba tem dono? E, se tiver, são esses os donos? Vi que você incluiu um disco que produzi – “Nelson Cavaquinho com a Leny Andrade” – na sua discografia básica do samba, o que muito me honrou. Pois bem: um cara, num site de samba aí, disse que o disco é “horroroso”. E  disse ainda que nem quis ouvir o outro disco dela – cantando Cartola – porque devia ser a mesma bosta. Claro que não estou aqui reclamando de critica ao trabalho, mas o preconceito nesse caso fica bem evidente, pelo menos no que se refere ao disco do Cartola, que ele nem ouviu. Outra burrice que acontece na área do samba, a meu ver: o samba tem uma porrada de inimigos, a começar pela indústria fonográfica. Apesar disso, as pessoas ficam dando porrada umas nas outras, ao invés de dirigir seus canhões pros alvos certos. Que isso fique aqui entre nós, para não dividir mais. Precisamos, ao contrario, de mais união porque a briga é dura. Mas a gente ganha um dia. E é isso que espero pro ano que vem. Vamos conversar mais. Prefiro em torno de uma mesa, com um chopinho e mais gente na nossa turma. Um beijo pra você, Sonia e Neizinho e um ótimo ano novo.

* Ouçam aqui um pouco desse disco da Leny Andrade cantando Nelson Cavaquinho…

O Comendador, os “evangélicos” e a cultura afro

Este é um dos e-mails que foram para os anais : uma mensagem do Paulinho para Nei Lopes, de 2002, falando de um fenômeno que começava a preocupar os dois amigos…

Como não temos foto do Comendador pilotando um teclado de computador, vai essa mesmo, batucando na sua Smith-Corona...

De: paulo albuquerque

Para: nei lopes

Em: 1 de outubro de 2002

Assunto: evangélicos x afro

Estive num fórum sobre música popular carioca na semana passada na ABI e numa das falas o Ivanir dos Santos lembrou uma coisa bastante importante. O crescimento dos evangélicos (e há que se fazer uma distinção entre evangélicos e “evangélicos”) representa um perigo real para a cultura afro-brasileira. E ele tem razão. Esse evangelismo de ocasião, por razões econômicas ou eleitoreiras, é excludente. Acho que essa discussão teria que ser mais aprofundada.

Eu – que estou a cavaleiro pra falar disso porque não sou praticante, como você sabe – acho que a tão justamente louvada miscigenação brasileira não deve se circunscrever à cor apenas.  Miscigenação, como eu entendo, é mistura de culturas também e aí a cultura africana tem um peso fundamental. Eles, os evangélicos,  começam por pregar a proscrição dos ritos religiosos africanos e podem chegar – como lembrou o palestrante – até o samba.

Porra, Nei, não existe música popular no planeta (de boa qualidade, claro) que não tenha como fundamento a África. Aqui mesmo no Brasil – e havia representantes de todas essas correntes no fórum – há o samba, o choro, o jongo, congada, folia de reis, etc. E mais o funk, o reggae, o hip-hop, o rock (de raízes no blues). Independente de gosto pessoal, é certo que todos esses gêneros derivam da cultura negra (e africana).

Esse é um papo que deveria ser levado. E você é a pessoa indicada para isso. Manda ver.

Um abração,

Paulo

Largou o emprego e se casou com a música

Sônia Ferreira

Paulinho Albuqueque foi um dos maiores presentes que a vida
me deu. Mesmo quando separados, foi sempre um farol, uma luz na
minha vida, e  além disso tínhamos o fruto de nosso amor, essa pessoa
linda que é nosso filho Pedro . Conheci Paulo em1965 no Teatro
Opinião, onde eu participava do Show ” O Samba Pede Passagem”,  com o grupo”Mensagem” . Éramos  todos estudantes e pela primeira vez eu me
apresentava, após vencer um concurso no teatro sobre o tema
“Liberdade”, cantando ” Manhã de Liberdade”.Ele foi falar comigo depois do show, mas nos perdemos de vista.Em 1967, quando fui convidada para
integrar o Quarteto em Cy , reencontrei Paulo, que era amigo de
Esdras Rubim, irmão da Semiramis, outra nova integrante do quarteto. Ai não nos desgrudamos mais. Íamos a todos os shows, cinematecas, enfim um lindo tempo em nossas vidas.

O que posso  afirmar é que nunca conheci pessoa tão ética, responsável, inteligente, engraçada, generosa, amigo dos amigos, apaixonado e dedicado por tudo o que fazia. Ele foi um  dos maiores produtores musicais, por seu bom gosto e empenho,  e o único pai que o Pedro poderia ter.

Nosso apartamento no Leblon era  um ponto de encontro da MPB. Lá vimos nascer grande parcerias. Ele começou a trabalhar em produção musical ainda nos anos 70,  com o Quarteto em Cy e Pepê  Castro Neves, para a Funarte, e depois com o Quarteto e Francis Hime.

Acho que o samba era sua paixão maior. Ele gostava de samba desde os tempos em que  frequentava todos os shows do ZiCartola,  aquelas feijoadas de Dona Zica, ia a todas as rodas de samba da cidade. Ele era um mestre na arte de contar histórias do samba e seus principais
compositores. Era só alguém falar em um samba antigo e ele
sabia a autoria e cantava  a música na hora, para espanto de todos.

E também ia aos shows de bossa nova, nos clubes e faculdades do Rio.Sem falar que  também tinha um conhecimento imenso do jazz. Foi ele quem me apresentou a todas aquelas intérpretes maravilhosas. Sua preferida era Sarah Vaughan. A discoteca dele era praticamente completa, estavam lá  todos os grandes instrumentistas do jazz. O Paulo era uma verdadeira enciclopédia!

Realmente, ele não poderia se dar bem  em nenhum emprego burocrático, que lhe exigisse terno e gravata e bateção de ponto. Lá por 74, depois de fechar o escritório de advocacia (marcas e patentes) e ir trabalhar em uma companhia americana, resolveu seguir seu caminho musical, e continuando  sendo sempre um grande aliado na defesa do direito autoral dos artistas.

Enfim, eu poderia ficar horas aqui lembrando, e me emocionando,  ao falar de alguém que foi uma das pessoas mais competentes, integras e sensíveis desse nosso meio musical, tão conturbado pelos muitos egocêntricos que estão por aí.

Só sei que o Paulo vai continuar eterno no meu coração.