Um show para o Comendador

Reinaldo

mu_acústico etc_web_cartazQuem acompanha este blog já sabe que Paulinho Albuquerque foi o responsável pelo aparecimento da banda Casseta & Planeta, que estreou em 1988, no Jazzmania, em Ipanema (onde hoje é o Studio RJ). E foi nesse show que eu toquei pela primeira vez com Mu Chebabi, que era nosso parceiro em todas as músicas do repertório. Numa comparação absurda, nós éramos o Aldir Blanc e ele era o João Bosco…E agora, tanto tempo depois, estou de novo num palco com o Mu, desta vez no show dele, “Uma Coisa é Uma Coisa, Outra coisa é Outra Coisa”, que está acontecento no Vizta, no Leblon. A diferença é que esse show é bem minimalista. É acústico, “unplugged e percussionless” : o Mu no violão e na voz, eu no contrabaixo e, no outro violão, o  guitarrista e produtor musical Fernando Clark. Essa sonoridade lembra um pouco aquelas formações de jazz cigano tipo Django Reinhardt. Só que a gente toca o repertório do Mu, que tem samba, funk, baião, reggae e outras bossas…Mas o que eu queria dizer é que estamos dedicando este show ao Comendador Albuquerque. Acho que ele ia gostar muito de ver isso…

O Teste do Jazzômetro

Paulinho Albuquerque, como produtor do Free Jazz Festival, do Tim Festival e de um monte de outros shows, aplicava constantemente o Teste do Jazzômetro…

Reinaldo

Depois de muito refletir, resolvi tomar uma atitude impensada e meter a  colher num assunto espinhoso.Vou tentar responder aquela famosa pergunta: “Afinal, o que é jazz?”.

O pianista Herbie Hancock tem uma frase muito boa: ” O jazz é uma coisa difícil de definir mas muito fácil de identificar”. Acho que é por aí. Nós, os ouvintes, usamos automaticamente uma coisa que vou chamar de Teste do Jazzômetro. Funciona assim: você ouve uma música e logo começa a medir seu nível de jazzificação, isto é, observa se ali existe um alto índice de surpresa e avalia se o músico ou cantor usa muita ou pouca liberdade naquela interpretação. Na música clássica, por exemplo, está tudo escrito na partitura. Na música pop, em geral o público espera que o cantor reproduza a música exatamente do mesmo jeito que foi gravada no CD. Quer dizer, nesses casos não existe muito espaço para improviso e invenção na hora da interpretação. No jazz, cada vez que uma música é tocada ela pode sair de um jeito, e ninguém sabe o que pode acontecer.O baterista ou o baixista podem mudar de repente o andamento ou a levada, o guitarrista ou o pianista podem fazer um solo de um jeito  inesperado, encaixar uma citação de uma outra música, ou emendar uma música na outra, numa espécie de mixagem instantânea.

Para essa parada ficar mais clara, vamos fazer aqui o Teste do Jazzômetro com duas cantoras bem conhecidas. Uma é a Norah Jones, que lançou alguns CDs por um selo de jazz, o Blue Note Records, e por isso foi etiquetada como cantora de jazz. A outra é a Diana Krall. Por acaso, as duas cantam e tocam piano.

No Teste do Jazzômetro a interpretação da Diana atinge índices mais altos de jazzificação, tanto na maneira de cantar quanto no jeito de tocar piano.Vejam bem: o teste não é pra descobrir quem é a melhor cantora. As duas são boas, mas a Norah não passou no teste. E provavelmente ela nem faz questão de ser conhecida como cantora e pianista de jazz. Já a Diana, apesar de parecer só uma louraça que canta standards e bossa-nova, fez realmente fez o dever de casa. E fez o dever literalmente: estudou com o pianista Jimmy Rowles e com o baixista Ray Brown, que foi seu descobridor e mentor. Eles, e outros caras, como o baixista John Clayton e o baterista Jeff Hamilton é que são os ídolos da Diana. Tudo bem, ela se casou com o Elvis Costello, mas isso é outra história. O que importa é que ela passou no Teste do Jazzômetro principalmente por causa de suas performances ao vivo, improvisando e se relacionando perfeitamente com o baixista e o baterista. Se o Elvis Costello fica com ciúmes eu não sei, isso é outra história…

Outra que foi parada recentemente para fazer o Teste do Jazzômetro é a cantora e baixista Esperanza Spalding. Seu mais recente CD, “Radio Music Society”, para os ouvidos de um jazzófilo ortodoxo pode parecer apenas  um disco de música pop. Mas, no Teste do Jazzômetro, registrou alto nível de jazzificação. É bom lembrar que o teste não pode se deixar influenciar pelas aparências, pela roupa ou penteado do intérprete. O que interessa é o som e, de preferência, o som ao vivo. O jazz não é um ritmo, é um jeito de encarar a música. Pode acontecer no swing de New Orleans ou de New York, mas pode vir também em outras embalagens: em forma de samba, baião, bolero, funk ou reggae. Pode estar no bandolim do Hamilton de Holanda, na gaita do Maurício Einhorn e até no acordeon do Dominguinhos. O jazz está por aí. É só fazer o teste…

(artigo publicado na Revista de Domingo do Globo, em 01/07/ 2012)

Não era ginecologista mas dava uns toques…

Reinaldo

Na foto de Klaus Denecke Rabello, o contrabaixo. Por incrível que pareça, muita gente insiste em chamar esse instrumento de violoncelo. Ele fica muito puto com isso...

Um lance que sempre gosto de lembrar para mim mesmo aconteceu na gravação da música Caldo Verde, do Casseta & Planetaproduzida pelo Paulinho, é claro. Graças a ele pude estar na mesma faixa que Sivuca, no acordeon e Marcos Suzano, na percussão. Pena que não foi ao vivo, com todos ao mesmo tempo. Por motivos de agenda, Sivuca e Suzano tocaram num dia e nós no outro. Eu toquei o baixo sobre a base que eles tinham gravado antes. Quando estávamos ouvindo o resultado, na mixagem, fiquei insistindo com o técnico de gravação, o Denilson Campos, para fazer o som do meu baixo elétrico fretless (sem trastes, aquele do Jaco Pastorius) ficar parecido com o som de um contrabaixo de verdade, o acústico. Paulinho me lançou um olhar do tipo “Se fudeu, mané!” e disse : “Se você quer som de contrabaixo de verdade só tem um jeito: vamos ter que chamar o Jorge Helder !” (Jorge Helder era o excelente contrabaixista com quem o Paulinho estava fazendo vários trabalhos naquela época… e hoje pode ser visto em turnê com o Chico Buarque). Foi a partir daí, com o Paulinho me chamando na chincha, me dando esse toque com aquele seu humor sacana, é que eu comecei a criar coragem para encarar o contrabaixo, coisa que eu achava uma missão impossível…

Com vocês, Casseta & Planeta…

Aqui quem fala é o DJ Reinaldo e vocês vão ouvir agora mais uma faixa produzida pelo Paulinho Albuquerque…Essa está no CD The Bost of Casseta & Planeta e se chama Caldo Verde. É uma linda toada ecologicamente incorreta de autoria de Bussunda, Claudio Manoel, Beto Silva e Mu Chebabi. A canção é interpretada por Hubert e Marcelo Madureira (que atualmente poderiam até formar uma dupla sertaneja: “Agamenon e Jacinto Leite Aquino Rêgo”). O arranjo é de Mu Chebabi e Itamar Assiere e conta com as participações SUPER ESPECIAIS de Sivuca (acordeon) e Marcos Suzano (percussão). No teclado, Itamar Assiere, no violão Mu Chebabi e, no baixo, este DJ que vos fala… Observem o contraste entre a belíssima melodia e a letra, que deixa qualquer Al Gore ou Marina Silva de cabelo em pé…

A primeira faixa do primeiro disco

Reinaldo

Um dia Paulinho Albuquerque teve a idéia de juntar a Casseta Popular e o Planeta Diário num show de humor ao vivo, no palco do Jazzmania. Na época, ele era responsável pela programação da – hoje extinta – casa de shows em Ipanema. E nós, do Planeta e da Casseta, só fazíamos o jornal, a revista e éramos roteiristas do TV Pirata. A idéia do show, a princípio, pareceu meio absurda e sem sentido, já que todo mundo no grupo era redator e não ator… Mas o Paulinho tinha faro, intuição e era um cara muito ligado em humor (ele tinha uma coleção enorme de videos,em VHS, do Monty Python e outros craques do humor internacional).

Naquele tempo ele não conhecia nenhum de nós pessoalmente, mas conhecia o irmão do Marcelo Madureira, o Manfredo, que trabalhava também com produção musical. O Paulinho pediu pro Manfredo marcar uma reunião com todo mundo e aí pintou a idéia do show de humor musical. O Claudio Manoel convocou Mu Chebabi para botar música nas letras, o Bussunda achou que seria uma boa imitar o Tim Maia, o Hubert inventou o Paulo Francis cantando Garota de Ipanema e a coisa foi começando a tomar forma.

Resumindo a história: o show, chamado “Eu Vou Tirar Você Deste Lugar” ficou em cartaz no Jazzmania, às segundas-feiras, de abril a junho de 1988. Todo mundo foi lá, tout Riô , como diriam os franceses. Até o Boni foi e, depois de ver o show, achou que os caras da Casseta e do Planeta podiam aparecer na frente das câmeras. Depois disso, vieram outros shows e três discos (um LP e dois CDs), tudo com a direção do Paulinho. Mas o que eu queria mostrar aqui é a primeira faixa do primeiro disco, o LP “Preto com um Buraco no Meio”. No início da faixa, ouçam o diálogo entre Paulinho Albuquerque e Bussunda.

A música é “Mãe é Mãe”, de Bussunda e Mu Chebabi. A bela canção, um funk no estilo Tim Maia, é o desabafo desesperado de um namorado infeliz, ferido no seu orgulho de macho, depois de levar um pé na bunda.

E olha só o time que o Paulinho convocou para esta faixa:  Leo Gandelman (sax barítono e arranjo), Bidinho (trompete), Zé Carlos Bigorna (sax alto), Serginho Trombone, William Magalhães (teclados), Torcuato Mariano (guitarra), Fernando Souza (baixo) , Claudio Infante (bateria) e Armando Marçal (percussão). No vocal, Claudio Manoel e Bussunda. Clica aí…