Nosso amigo Paulinho

Zuza Homem de Mello

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Paulinho Albuquerque no Jazz Fest de New Orleans. Feliz como pinto no lixo…

Paulinho não era tão fissurado em New York como eu. Sua atividade ligada à obra de Ivan Lins, possivelmente também a amizade com nosso tão querido Oscar Castro Neves y otras cositas que não sei quais eram, levavam-no constantemente a Los Angeles. Gostava do Jazz da West Coast embora admirasse muito o da costa leste. Significa: Él-êi (L.A.) contra Ên-uai (N.Y.). Quer dizer cool contra hard bop. Quer dizer branco contra negro. Quer dizer good manners  contra “Neeeext!”. Talvez até Brubeck contra Monk, Stan Kenton versus Duke Ellington, ou Chet Baker X Clifford Brown.

Nunca tentei convencê-lo, mas sempre cutuquei-o para conhecer o festival de New Orleans, onde já tinha ido algumas vezes. Onde fiquei sabendo sobre o Professor Longhair e James Booker, pianistas que eu próprio não conhecia apesar de ter morado e viajado tantas vezes a New York. Em New Orleans entendi o piano rude e suingado que só lá existia.

Atrevo-me a supor que foi desde a sua primeira ida ao festival de Jazz de New Orleans que Paulinho entrou fundo nas raízes, na história e na verdade do jazz.

Sinceramente achava que meu querido amigo, que eu respeitava como quem encontrava na música o que a maioria não percebia, tinha essa lacuna. Porque ele era também um cara muito ligado ao samba, e quem é ligado ao samba, evidentemente vai se dar bem em New Orleans, a raiz. Por exemplo, quem quer estudar o samba vai para o Rio ou para a Bahia, não vem pra São Paulo…E eu sempre falava com ele: “Paulinho, você tem que ir é pra  New Orleans…Lá em Los Angeles não tem muito a ver…”

Um dia, finalmente o Paulinho foi para New Orleans. Fomos juntos. E ele simplesmente adorou. Acho que aquilo abriu o horizonte dele para as raízes do jazz.

Paulinho e Zuza.

Paulinho e Zuza.

Era o festival , o New Orleans Jazz & Heritage Festival, mas que lá todo mundo só chama de ”Jazz Fest”. É maravilhoso. Centenas de shows em dois fins de semana, com um intervalo no meio, entre o fim de abril e o começo de maio. O festival acontece no hipódromo da cidade. Os shows começam às 11 da manhã e vão até 7 da noite. Em cinco ou seis palcos diferentes, tudo acontece naquela parte interna do hipódromo, que na linguagem turfística se chama “peão do prado”. E você fica circulando por ali. Além dos palcos, tem barracas com comidas típicas fortes e apimentadas da rica culinária da Louisiana. Tem objetos, peças de roupa, artesanato da NOLA (abreviatura de New Orleans Louisiana), uma feira monstra. A música do festival abrange vários estilos: blues, zydeco, gospel, jazz moderno, jazz tradicional, tem de tudo. Você escolhe um palco ou fica vendo o pedaço de um show e pula para assistir o pedaço de outro. Paulinho ficou completamente alucinado. Não só pelo festival e música, mas também pela cidade, pela comida. Lá é tudo muito original. Isso sem falar na maneira simpática e afável com que o pessoal trata todo mundo. A gente se divertia muito, trocava ideias, conhecia novos músicos, pois Paulinho era muito sociável quando o assunto era música. Em três tempos já estava íntimo pois falando inglês fluentemente comunicava-se com facilidade.

Nós ficamos amigos de alguns radialistas de New Orleans, demos entrevista para a principal rádio de lá, a WWOZ, falando sobre música brasileira, Hermeto Pascoal e essa turma toda, que, naquele tempo, ainda não tinham participado do festival. Aliás nessa época nem havia músico brasileiro no Jazz Fest. Depois mudou.

Paulinho hospedava-se no apartamento de um amigo e nos dias de folga do Jazz Fest eu ia buscá-lo de carro para cairmos fora do French Quarter, de onde praticamente não saíamos. Paulinho adorava comprar camisas na Old Navy, uma ótima loja de roupa nada cara, num shopping no caminho do aeroporto. Tornou-se fiel freguês anual da Old Navy pois era intrinsecamente um cara fiel, fidelíssimo.

E New Orleans não era só o festival. Depois do último show íamos de ônibus com todo mundo comentando sobre o que viu, aí cada um pegava uma chuveirada, dava uma deitadinha e voltava para a batalha. Depois do jantar a gente ia conferir os clubes de jazz da cidade, ver as novidades.

Jantávamos sempre juntos e eu indiquei a ele alguns lugares interessantes. Com o tempo, uns 3 ou 4 restaurantes acabaram sendo os nossos preferidos, principalmente o Ralph & Cakoo’s, os frutos do mar no bagunçado Acme Oyster. Paulinho também permaneceu fiel a todos eles, Old New Orleans Cookery, e steak houses deliciosos, o Galatoire’s e o nosso preferido, Dickie Brennan’s.

Me lembro também que comemos muitas vezes o sanduíche típico da cidade, que é o Po’ Boy (corruptela de poor boy, “garoto pobre”). É um sanduichão enorme de pernil com agregados, cebola, tomate, o diabo. Quem não conhece pede um e pensa que vai dar conta, aí vem aquele monstro e você não sabe por onde começar. Para o Paulinho era mole, dava conta de um po’ boy tranquilamente. Pra abastecer aquele corpanzil precisava bastante bateria, bem mais que eu pelo menos.

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Era um papo maravilhoso. Certa vez veio passar um fim de semana em nossa casa de Indaiatuba. Ercilia e eu ficávamos horas ouvindo as histórias que ele emendava uma na outra. A gente se entendia muito bem e ele era muito inteligente, sensível e convicto nas suas opções. Quando não gostava de alguma coisa, lascava logo de primeira. Acho isso uma qualidade, também sou assim: quando não gosto não tenho meias tintas, vai tudo no embrulho, às vezes até peco pelo excesso, mas é uma opinião autêntica. Paulinho mandava ver e às vezes criava um branco na roda. Não ligava a mínima. Xingava e se fosse preciso repetia tudo. Apesar dessa franqueza toda, o Paulinho sempre se dava bem com todo mundo.

Foi um cara inesquecível, um amigo que perdemos de repente e nos deixou arrasados. Não dava para acreditar quando o Zé Nogueira me contou pelo telefone. No dia seguinte fui para o velório no Rio, lá estava o Paulinho imóvel com a camisa do seu querido Botafogo. No fundo do peito cada um de nós sentia um ritmo batendo forte vindo daquele coração imóvel e silencioso.

Paulinho continua falando conosco diariamente. Basta olhar sua foto à minha frente, na mesa de trabalho. Penso comigo: você concorda Paulinho? E ele: manda ver.

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Paulo, da Fiorentina ao Malecón

Em Cuba: Paulinho, Nei Lopes (com mais um chapéu da sua enorme coleção) e o percussionista Ovídio Brito, outra grande figura que foi embora antes da hora.

Nei Lopes

Não lembro mais como foi, quando foi e onde foi que eu conheci Paulinho,  fina flor dos Medeiros e Albuquerque. Mas a lembrança mais antiga e forte é a daquele homão bonito e charmoso, parecendo um gringo baludo, entrando na Fiorentina – eu também conheci a Fiorentina! – levando pra comer, em todos os sentidos, uma espetacular e famosa mulata, musa  dileta de um pintor então já falecido. Era no fim dos anos 70, eu andava me virando com propaganda e música, então era de lei de vez em quando um bordejo na zona sul. Mesmo que fosse munido daquele mapa que vem encartado no Guia de Rex, como eu de fato andava, pra, épatant les bourgeoises , no auge do pilequinho, brandi-lo como um estandarte, berrando orgulhoso: ” Sou suburbano, porra! E só conheço a zona sul até o Canecão.”

Tempos depois, lembrei dessa noite ao homão: “Pô, malandro, quando tu entrou, a Fiorentina tremeu! Aquela noite deve ter sido…”.  E a resposta veio chocha, murcha, daquela cara de bebê chorão que ele às vezes ostentava: “Que nada, rapaz! Ela é mais chegada é a uma briga de aranhas”.

Foi a primeira vez que eu ouvi a expressão. Gostei. E escolado por esse ensinamento, comecei a tomar  mais cuidado com essas fiorentinas enganosas e colei no Paulo. Que tinha sido advogado também como eu, formados na mesma época – ele no Catete, eu na Nacional; eu batalhando pra portuga no incipiente Vista Alegre, meio Irajá meio Cordovil, ele como bastante procurador do Manel Dentinho e outros donos de tendinha na Praia do Pinto.

Eram muitas as afinidades. Que nos levaram à realização conjunta de muitos projetos. Como por exemplo aquele que levou ao palco do CCBB, em quatro espetáculos diferentes, o samba representado por Mangueira, Salgueiro, Império e Vila Isabel, cada qual com sua peculiaridade.

A do Salgueiro ficou por conta do grupo de caxambu (jongo) do Seu Geraldo. E de um grande sambista que, para surpresa de todos, chegou bem cedinho ao teatro, sóbrio, compenetrado, pendurou a roupa de cena no camarim e saiu “pra resolver uma parada”. Só que passou uma hora, passaram duas, três, faltavam uns quinze minutos pra começar o show e o bambambã não voltava. Paulinho olhou pra mim, com aquela cara de  choro a que já me referi, cobrando a irresponsabilidade, porque o sambista era da minha escola.

Mas Deus é grande e o homem chegou. Como o diabo gosta. E arrasou, no circunspecto palco do CCBB, cantando uma nova versão para um de seus grandes sucessos, assim: “Depois que mataram Cartola / Dona Zica deita e rola…”.  Meio anarquista também, graças a Deus, Paulinho botou a mão na boca, pra abafar a gargalhada. E a nova versão acabou incorporada ao espetáculo, porque Paulinho sabia o que era bom.

Não, os chapéus que o Paulinho dava de presente para o Nei Lopes não eram comprados no Méier, eram comprados no Meyer, em New Orleans.

Tanto sabia que a cada viagem anual a New Orleans, pescando talentos para o seu Free Jazz, ia lá no “Meyer, The Hatter” e comprava um boné ou chapéu  pra me trazer de presente e satisfazer esse meu vício estranho. Mas acontece que, numa dessas edições, ele errou a mão e me trouxe uma cartolinha vermelha, orlada com uma fita preta.

“Pô, Paulo, me desculpe mas essa não dá!”,  eu disse. E ante a explicação de que eu não era Flamengo e que aquelas cores eram de Exu, orixá que não se leva na cabeça, ele teve a idéia: “Tu não tem aquele amigo que é papa-defunto e pai-de-santo, e que todo mudo conhece em Vila Isabel como Osvaldo Funéreo?”. Positivo – confirmei – e o Funéreo, embora sempre olhe pra gente sempre como se estivesse tirando a medida do “terno”, é gente muito boa. Conclusão: até hoje todo mundo acha que aquela cartolinha  maneira que o Osvaldo usa, quando incorpora o  Seu Sete Cordas, no terreiro do Jacaré, foi comprada no Méier. Ledo engano! Ela veio foi do ”Meyer, The Hatter”, estabelecido desde 1894 no número 120 da Saint Charles Avenue.  Como veio de Xerém, naquele dia estranho, pela batuta do Paulinho, a transformação de uma segunda-feira que parecia aziaga em um dos dias mais alegres da minha vida.

Segunda, sabe como é, né? E aquela estava esquisitona mesmo. Tanto que eu disse pra Comadre que achava que não ia.

— Mas como você não vai? Você está gravando o disco mais importante da tua carreira;  o Paulinho, mais uma vez, está te botando na cara do gol e você não vai?

— Este dia não está me cheirando bem. Tô com pressentimento de que vai acontecer alguma coisa.

O disco fora idéia dele, naquela de me ajudar a derrubar essa barreira idiota que, na indústria fonográfica, separa o samba do que eles chamam de “emepebê”. No projeto, quatorze obras minhas, com ou sem parceiros, seriam interpretados por artistas  amigos e de todas as praias, de Ramos a Angra (ou  “Noronha”), cantando junto com o autor destas mal traçadas linhas. Os convites era o Paulo que fazia, marcando os dias e horários das gravações de acordo com a conveniência de cada convidado.

Pois aí, convencido pela comadre a deixar de bobagem e partir pro estúdio no Leblon, qual não é minha surpresa quando chego lá, 10 horas da matina e já encontro a cerveja rolando, as gargalhadas soando, os pandeiros e cavacos sendo afinados e, na geladeira, levados de presente pra mim, dois patos, convenientemente limpos e abatidos, além  de dois litrões de coca-cola cheios de leite puro, natural, direto de  úberes altamente sadios.

— É da fazenda. Puro suco de Xerém – disse o convidado daquele dia, nada mais nada menos que Sua Majestade Zeca Pagodinho, primeiro e único.

Depois do Zeca, a cerveja gelada, chegou Guinga, depois Martinho… Veio a Comadre, pra garantir minha volta sem culpa. E a alegria foi até o fim da tarde, naquela segunda que se prenunciava nefasta. Porque o Dr. Paulinho, codinome “Palbuca”,  sabia das coisas e tinha mandado municiar a geladeira.Da mesma forma que, dias depois,  me preparou para um convidado tido como “difícil”, que eu não conhecia pessoalmente.

Foi o último a gravar, no último dia, na última hora. A gente pensava que ele não viria mais, no entanto veio. Chegou meio blasê (de blazer, numa Blazer) mas chegou. E cantou, como nunca, como ninguém. Digo “como ninguém” mentindo, pois,  antes dele tinha estado lá uma certa cantora, minha amiga de trinta anos, e tinha dado um banho. Aí, o cantorzão, já se despedindo, doido pra ir embora, Paulinho, com aquela cara sacana,  botou a pilha: “ Não quer ouvir a gravação da Fulana?”

O tremendo cantor não sabia que a Fulana participava do disco. Nem que participavam Arlindo & Sombrinha, Chico Buarque, Dona Ivone Lara, Dudu Nobre, Dunga, Fátima Guedes, Guinga,  João Bosco, Joyce, Martinho, MPB4, Toque de Prima,  Wilson Moreira, Zé Renato, Zeca Pagodinho.

Vendo a escalação do time e ouvindo a gravação da Fulana, o grande cantor perdeu a pressa, vestiu a camisa e retornou ao estúdio, pra gorgear ainda mais bonito do que tinha feito a primeira vez.  Ficou demais! Tão demais que, dias depois, recebo eu o envelopinho cartonado contendo um CD-R. Por fora, o endereçamento, meu nome grafado errado, com “y” e “z”, como se o destinatário não me conhecesse direito.

Abro, vou ouvir a gravação e lá está o vozeirão,  cantando uma versão pornográfica do samba,  declarando, da forma mais pederástica possível, sua paixão por mim.

Surpresa! Decepção! Desengano! Mas… qual nada! Era mais uma sacanagem do Paulo que, habilíssimo imitador de vozes e contando com a tecnologia de ponta do estúdio, tinha se dado  ao trabalho de, numa montagem perfeita,  incluir, em várias frases, imitando o cantor,  palavras que davam ao texto o sentido escroto desejado. E foi esse CD que nos levou a Havana, numa “cara-avana” da gravadora Velas (ou Caravelas?). E nessa caravana estava aquele querido percussionista que, sempre, depois de tomar todas, tem o costume de brindar os amigos de que mais gosta, sempre esses, com a carinhosa frase “vai tomar no cu!” proferida em altos brados.

Fim de excursão, a   noite tinha sido de muita alegria,felicidade, mojitos e daiquiris. Então, logicamente,  os brados de “vai tomar no cu” tinham soado por toda Havana, da Calle Obispo ao bairro Jesús Maria. Então, de manhã, domingo, rua vazia, o Paulinho e eu fomos com o querido percussionista, numa tremenda ressaca, tomar um ar, andando pelo  Malecón. Rua vazia, a gente resolve atravessar pro outro lado. E o percussionista vem atrás, meio murcho, devagar, devagarinho.

Eis então que surge, não se sabe de onde, zimpando, um daqueles Packard 54,  comuns na cidade,  e tira um fino do percusionista, quase lhe arrancando um tasco da nádega esquerda.  Vendo aquilo os três gritamos uma malcriação qualquer pro cubano apressado. Que para surpresa nossa responde, gritando, já meio distante: — Ván tomar en el culo!!!

Paulinho, surpreso, olha pra mim, como que buscando apoio, dirige-se ao nosso amigo percussionista e dispara: “Pô, Ovídio! Essse texto é teu! Tu tem que processar esse cara! Eu e Nei podemos fazer isso pra você…” (Nei Lopes, agosto, 2006)