Lembranças de um brother (4)

Paulo Renato

O lateral direito Paulo Roberto, também conhecido como "Paulo Vedete".

Ainda lembrando do time de pelada Miramar Bola e Bagaço… A “concentração” era num bar chamado Abadia, na esquina da Rua Souza Lima com Avenida Copacabana. Era ponto obrigatório depois da praia. A turma ia lá em casa, pegava os instrumentos e tocava no bar, em volta de umas cervejas.

O som que tiravam era dos melhores, mão dura não entrava na roda, ficava só assistindo. Tinha todo tipo de instrumento de percussão que se podia imaginar naquela época. Paulo era dos melhores instrumentistas, sempre com ritmo e criando passadas e viradas, como os melhores mestres de bateria. O cara podia ser seu amigo, mas se tocasse mal ou se saísse do ritmo ele expulsava da roda. Era exigente. Já era produtor…

Era durão até em roda de samba, mas também era um cara humano pra cacete. Quando em 1966 uma tempestade varreu o Rio, ele idealizou uma barricada em plena Avenida Copacabana, cobrando pedágio. Para ajudar os amigos que tínhamos na Favela do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo.

Agora o capítulo dos apelidos…Paulinho era o que dava apelido a todos, todos… Para mim sobrou o Cu de Pato, pois andava empinado para a frente. Para um rapaz que tinha o pescoço pequeno, era baixinho e feio pra cacete, o apelido era Sapiu, mistura de sapo com puta que o pariu. O português do bar era o Bigode. E tinha também o Alain Delon, já lembrado aqui. Para um amigo que tocava muito bem violão mas tinha um peito pra frente lá veio o Peitombo, peito de pombo.  Um rapaz que não tinha coordenação motora, mesmo sendo muito amigo dele, levou o apelido de Rei do Mambo. Para o namorado italiano de Tia Rachel saiu o Mictório. Dava apelido até para as comidas de mamãe. Uma torta que ela fez com o maior carinho foi denominada Entope Gato…

Lembranças de um brother (2)

Paulo Renato

Esse era um time da Rua Sá Ferreira, com o seguinte nome : Miramar Bola e Bagaço. Esse era seu segundo uniforme, copiando o do Milan. Teve um uniforme antes, em amarelo e preto (cópia do Peñarol) e o último era uma beleza: com camisa branca e gola redonda. O escudo era uma garrafa vermelha e uma bola preta. Foi feito sob encomenda numa loja que tinha na Rua Xavier da Silveira só de esportes, a Superball. Lá se comprava camisa de qualquer time, bolas, shorts, e sungas iguais aos dos guarda-vidas (eram  de tecido, quando molhava apertava os bagos). E lá eles aceitavam essas  encomendas especiais.

O primeiro nome do time, Miramar, foi inspirado no nome do hotel que fica até hoje na esquina da Sá Ferreira com Av. Atlântica, local onde o pessoal freqüentava a praia.  O resto do nome do time vem de sacanagem da turma. Colocaram o nome Miramar  para o português dono do hotel patrocinar a compra das camisas. Paulo levou um papo com o português pra descolar o patrocínio. Não me lembro se deu certo, mas deve ter dado, caso contrário teriam mudado o nome.

A foto traz muitas saudades. É no Aterro do Flamengo, para disputar o Torneio de Peladas patrocinado pelo Jornal dos Sports. A concentração era num bar na esquina da Rua Souza Lima com Av. Copacabana, Bar Abadia. O bagaço era de lá.  Na foto, não sei se  lembro o nome de todos, mas vamos lá…

Em pé:

– O técnico?!… Pode ser um cara que tocava violão pra cacete mas devia ser ruim de bola. O time não tinha técnico.

– Esdras Rubin, hoje morando no RS, em Gramado. Botafoguense.

– Franklin, reside no Rio e atua no ramo financeiro. Flamenguista.

– Luiz Antonio, o Lua. Residia em Brasília até pouco tempo e trabalhava nos Correios. Botafoguense.

– Goleiro: Serginho, não sei por onde anda.

Agachados:

– José Flávio, médico gastro. Reside no Rio.

– José Carlos Peixoto Guimarães, o Zé Pequeno. Advogado, flamenguista roxo. Mora em Brasília.

– Paulinho Albuquerque, na época conhecido como Paulo Roberto. Ou Paulo Vedete (!).

– Ronaldo Pavão, engenheiro. Morava no Rio. Flamenguista.

Paulo sempre foi líder, organizava as batucadas, os pagodes da época. A turma tinha todos os instrumentos, adquiridos com doações e vaquinhas. Nossa casa era o almoxarifado dos instrumentos. E o pessoal da rua formou esse time, o glorioso Miramar Bola e Bagaço.

O time participou de vários amistosos em subúrbios do Rio, além de disputar o famoso campeonato de pelada do Aterro do Flamengo. Não tinha roupeiro, até o dia em que Paulo, numa saída para um jogo em Bangu, ao colocar os sacos de uniformes numa Kombi, se deparou com um rapaz, feio de doer, que quis ajudar.

O rapaz estava sujo, descalço e Paulo, querendo ajudar, e sacanear ao mesmo tempo, deu uma “chance” para o desdentado:

– Você vai ser nosso roupeiro, ô Alain Delon…

E ficou para sempre  o apelido de uma das maiores figuras do Posto Seis e da Rua Sá Ferreira : Silvério, o famoso Alain Delon.