Um cartão pro Zeca

Mello Menezes, também conhecido como Zeca, é aquele artista plástico e autor de muitas capas de discos. Mas também é conhecido pelos íntimos como aquele cara que gosta de cantar no estilo dos grandes intérpretes americanos, tipo Johnny Hartman, que gravou com famosas big bands nos anos 50 e 60…Olha só o cartão que o Zeca  encontrou outro dia no fundo do baú. Foi enviado de Los Angeles, em 1982, pelo Comendador Albuquerque, que aproveita para zoar com o nosso Johnny Hartman carioca… (clique na foto para ampliar).

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O sapato do Paulinho

Mello Menezes

Tudo começou na minha primeira comunhão. Minha mãe, sem grana, não pôde comprar o sapato branco. E tive então que usá-lo emprestado do primo Ramon, que obviamente calçava a metade do meu pé. Para receber Jesus, tive então que pagar todos os pecados com as bolhas nos pés. Quando comecei a comprar meus próprios sapatos, os mais confortáveis, ditos “moles”, na época, tinham um desenho que não me agradava. Os bonitos, elegantes, de cromo alemão, design italiano, etc, eram duros e até se amoldarem nos pés você tinha que pagar um pedágio com as velhas e conhecidas bolhas.

Quando estreou a peça Roda Viva, do Chico Buarque, um detalhe me chamou atenção no figurino dos atores: todos usavam tênis. Não era usual na época a não ser, obviamente, para competições esportivas. A partir disso comecei a usá-los, exceto em casamentos e outras solenidades, pra não parecer hippie. Certa noite, fomos ao teatro Casa Grande e fui barrado na porta. Não podia tênis. Rapidamente peguei o carro e fui até a casa de um casal amigo na Borges de Medeiros, toquei a campainha e a Vera, gozadora como sempre – Mello, a que devemos essa agradável surpresa a uma hora dessas? – Me empresta um sapato do Alfredo! E me mandei correndo pro teatro a tempo de pegar o início do espetáculo. O sapato do Alfredo começou a apertar o pé e no final do show a mulher desafinava e o conjunto era uma merda.

Cheguei à conclusão de que precisava de um sapato confortável pra essas ocasiões. Fui a diversas sapatarias e acabei na Polar da Rio Branco, numa galeria ligada à Gonçalves Dias. A loja grande tinha diversas entradas. Entrei por uma e vejo o Paulinho entrando por outra.
– Alôooooo!
Nos abraçamos.
– O que traz você aqui?
– Vim comprar umas perucas. E você?
– Cuecas.
Sentamos e um atendente começou a tentar decifrar nossas intenções. As caixas de sapatos começaram a crescer lateralmente. O vendedor, já meio puto, fazia cara de quem atendia duas senhoras mal amadas. Quando então reparo no sapato velho que o Paulinho calçava e exclamo:
– É ELE! É ELE!!
– Que foi?
– É esse seu sapato meio cano de camurça que ando procurando há décadas!
– Experimenta.
Experimentei e pisei nas nuvens.
digitalizar0002– Paulinho, fora de sacanagem, é tudo que eu quero na vida. Já fui até no Motinha e eles não fazem esse modelo sob medida. Parece um sapato de um bravo guerreiro viking! Como é bonito e macio.
Ele continuou rindo e disse que tinha trazido de Nova York e realmente gostava muito dele, pena já estar velho.
– Mas é assim que eu gosto! É nesse estado que ele adquire caráter. Já que tu não queres, me vende?
– Quem disse que eu não quero! Tá maluco?
Insisti mais e aí então ele disse: Se eu sair daqui com um sapato novo, te dou este.
– Oba! Vibrei.
A esta altura o atendente, além de puto, estava perplexo com dois caras de pau que negociavam sapatos que não eram os da loja. Mais caixas desceram sem solução. Agradecemos a paciência do vendedor e saímos de fininho. Fomos rindo, pois realmente o cara tinha razão, parecíamos duas senhoras indecisas que jogam no sapato suas dúvidas existenciais.
Aí então o Paulinho sugeriu, “Já que pagamos um mico como senhoras indecisas, vamos comer uns docinhos ali na tradicional confeitaria Cavê”, que ficava ali perto, na Sete de Setembro. Sentamos, vieram os docinhos, e de vez em quando eu lançava um olhar pidão para os pés dele. Ele ria e me mandava à merda. Lanchamos e nos despedimos.digitalizar0003
E lá se foi Paulinho a passos largos, numa altivez de quem levava nos pés bravos e despojados guerreiros vikings que já tinham trilhado muitos caminhos pelo mundo afora, mundo do samba, da mpb, do jazz e ainda tinha muita sola para gastar.

O dia em que Paulinho Albuquerque parou um avião

Mello Menezes

Nasci num Rio mais vazio onde a poesia fazia pic-nic. As famílias humildes suburbanas preparavam o farnel de véspera, acordavam cedo e iam de barca, bonde, trem para Quinta da Boa Vista, Paquetá, praias do Rio e Niterói. Após intensas atividades no domingo de sol, as crianças brancas, negras e mulatas voltavam vermelhas, desabadas nas mães e com uma leve sensação de que traziam do pic-nic uma recordação: muita areia no saco do calção.

Acho que devido a essa infância cresci festeiro.

Junto com o poeta Aldir Blanc e amigos do nosso conjunto de samba “Torresmos e Moelas” fizemos centenas de festas maravilhosas e o nosso Comendador estava sempre presente…

O DIA EM QUE PAULINHO ALBUQUERQUE PAROU UM AVIÃO

Liguei para os amigos do “Torresmos e Moelas” e combinei: Sábado 8 de março, dia internacional da mulher, todos no primeiro quiosque da orla do aeroporto Santos Dumont.

Chegou sábado. Dia de sol, o Pão de Açúcar estava maravilhoso e pousava leve e lindo no mar. Os aviões passavam deslumbrantes no olhar e as moças pedalavam semi-peladas pelas passarelas com a poesia das velas em regatas pelo mar. Era um dia perfeito.

Os amigos iam chegando: professores, músicos, profissionais muito liberais, poetas, escritores, pintores… O buquê do churrasco já deixava as bocas nervosas e a cerveja estava geladíssima. Quando então Paulinho Albuquerque e Claudio Jorge adentram a festa transformando-a num terreiro de bambas: Paulão Sete Cordas, Ovídio Brito, Carlinhos Sete Cordas, Marcelinho Moreira, Beto Cazes e Esguleba se juntaram ao “Torresmos”.

E como num sarau à beira mar, histórias do mundo do samba começaram a ser cantadas…

Claudio Jorge mostrou que no samba o amor é de fato, arrumou um lugarzinho pequeninho que dá para morar. Pintou tudo de branquinho e rezou os cantinhos com água do mar e todo mundo se encantou com aquele lugar. Tinha até pé de cajá!

Aldir Blanc, numa interpretação magistral, trouxe os grandes bambas do Salgueiro e cantou o Gargalhada na voz do Anescar, Geraldo Babão e o Bala são de lá, Noel Rosa de Oliveira, Pindonga e Iraci, e afirmou: o samba vem daí.

Wilson Moreira cantou o delito de amar e pediu à Senhora Liberdade que abrisse as asas sobre todos nós.

Jorjão, no seu gingado de voz e balançado violão, lembrou Donga no primeiro maxixe “Pelo Telefone”, numa época em que ninguém se lembrava deste samba. E o refrão foi geral.

A caravela do Candongueiro veio lá de Niterói para o Rio de Janeiro e aqui desembarcou. Ilton e Ilda com seus musicais marinheiros fizeram a galera cantar o samba de raiz Pau Brasil.

Zé Luis do Império homenageou os velhos malandros maneiros que têm São Jorge guerreiro como fiel protetor. Ganhou, leva. Mas não no grito, quem quis levar não prestou. Beleza.

E no carnaval Moacyr Luz esperou o bonde 66 que na Sete de Setembro apareceu mais uma vez e trouxe o Guinga, o Paulinho Pinheiro, o Nogueira e o Velho Hermínio num reduto biriteiro. Um camelô trocou as pilhas do seu coração e de quebra vendeu-lhe mais uma ilusão.

O magnata supremo da elegância moderna, Walter Alfaiate, como sempre elegante, mandou a Carola sacudir e todo o mundo sacudiu no “Sacode Carola”.

O mestre cuca musical Ernesto Pires misturou arroz com feijão e cantou a miscigenação brasileira.

Camunguelo, “O Único”, cantou e flauteou “Hello My Girls” no seu jeito malandro do Cais do Porto.

Luis Carlos da Vila, o nosso sambista Show, com sua presença de palco passeou entre as mesas e encantou, trazendo Iemanjá à beira mar para todo mundo cantar.

Luiz Pimentel, nosso poeta, escritor e editor do mundo do samba exclamou: Sem palavras!

De repente um silencio se fez.  O cello de Zamith e o violino de Leo Ortiz da Sinfônica Brasileira trouxeram Gustav Mahler e num momento sublime o samba silenciou e reverenciou a música erudita. E o Paulinho : Pô, que tarde! Tem até os clássicos!…

Mas como se não bastasse tanta beleza musical, um espetáculo diferente e inesperado aconteceu. Um grande cardume de sardinhas apareceu borbulhando junto à orla onde estávamos, naturalmente encurraladas por ágeis pescadas. E deu-se então o espetáculo! Dezenas de gaivotas e atobás com suas asas de metro e meio de envergadura começaram a tirar rasante de nossas cabeças para mergulharem , uma atrás da outra, à caça das sardinhas, como flechas entrando no mar. A emoção foi geral e palmas, palmas, palmas.

Aí o Paulinho Albuquerque me puxou para um canto e disse:

– Tá demais! Vamos até ali na cabeceira da pista parar um avião. É fácil, é como parar um táxi. Vamos botar este povo maravilhoso lá dentro dele.

– Mas Paulinho! Tem umas trezentas pessoas!

– Vai caber, vai caber. Esses pilotos já fizeram estágio no ônibus 477. Basta, antes de subir, dar aquela freadinha que a turma se acomoda. Vamos até Nova York, já liguei para o Aloísio de Oliveira e ele vai reservar o “Carnegie Hall” para logo mais! Vamos apresentar essa festa memorável que vivemos hoje aqui. O título vai ser “O que é que o Pão de Açúcar tem”. E não se esqueça de levar a cenografia: sardinhas, gaivotas, atobás e o Pão de Açúcar também.

Quando a Guanabara entardeceu
O nosso avião subiu
E o cristo Redentor
Espalhou lá do alto
Pigmentos suaves
De amarelos laranjas
Vermelhos lilases
e azul cobalto

Ceceu Rico, pai do Aldir, Mello Menezes e Aldir Blanc. O Paulinho estava por ali, em algum lugar, fora da foto.

Ceceu Rico, pai do Aldir, Mello Menezes e Aldir Blanc. O Paulinho estava por ali, em algum lugar, fora da foto.

 

Moacyr Luz e Walter Alfaiate. O Paulinho está em algum lugar, do outro lado da câmera...

Moacyr Luz e Walter Alfaiate. O Paulinho está em algum lugar, do outro lado da câmera…

 

Alfredinho Bip-Bip, Luiz Pimentel e Henrique Sodré. E o Paulinho não aparece, continuava fugindo dos paparazzi...

Alfredinho Bip-Bip, Luiz Pimentel e Henrique Sodré. E o Paulinho não aparece, continuava fugindo dos paparazzi…

 

Paulinho está por aí…

Mello Menezes

mello menezes auto retratoPaulinho e eu fizemos diversos trabalhos para capas de discos, cenografias para shows, cartazes e isso sedimentou uma amizade de muitos anos.
Tive um irmão Renato, que em vida, volta e meia eu o via nos mais diferentes locais. Uma vez, foi num circo mambembe lá em Niterói. Avistei-o de longe e fui até ele:
– Renaaaaato!
O cara se virou e eu:
– Opa! Desculpe, foi engano.
Atualmente, essa situação está acontecendo com o Paulinho Albuquerque após sua morte.
guinga CD 1Num outro dia, fui chamado por uma agência para um trabalho. A equipe reunida na sala de criação, quando entra o cliente. Era o Paulinho Albuquerque. Levei algum tempo para me concentrar. O cara era igualzinho a ele.
Nesses últimos trinta anos encontrei o Paulinho nas mais diferentes situações. Aniversários, sambas que promovia no quiosque do Santos Dumont, reuniões para criação de capas de LPs e CDs, no Free Jazz, nos bastidores dos shows, nas festas etc.
ivan lins LP anoiteEle se divertia ao me ouvir cantar no meu inglês castiço. Ganhei dele de presente a cópia de uma coleção rara do crooner Johnny Hartman, o preferido dos band leaders americanos. Havia sempre uma roda ouvindo-o contar seus “causos” sobre o mundo do samba, do jazz, da turma do Casseta, etc.
Um “causo” que vivenciamos juntos:
Ele me liga:
– Mello, já liguei para o Aldir, vamos lá no show do Ivan Lins hoje.
claudio santoro LPApós o maravilhoso show, bastidores e tudo mais, o Paulinho me leva até um gringo baixinho e diz:
– Esse aqui é um dos maiores compositores americanos: Johnny Mandel.
– Mandel, esse é o seu intérprete no Brasil. Manda uma dele aí, Mello.
Aí eu:
– De Mandel e McDonald’s: A cheddar of your smile when you have gone…
A canção seguia, enquanto todos riam e o Mandel, villa e tom LPbem humorado, dizia:
– What is this?
Ou seja: que merda é essa?
Pedi “esquilse-me for play” e nos abraçamos.
Logo após, fomos comemorar com o Ivan e a metade da MPB na churrascaria Plataforma. Mesa quilométrica lá atrás, papo animado, mil chopps, quando, pela porta lateral dos fundos, entra um senhor e uma senhora.
Ele, andando com uma certa dificuldade e ela de branco, parecendo uma enfermeira. Esse inusitado meninos do rio CDquadro chamou a atenção do Paulo e minha que, que discretamente, acompanhamos o desenrolar até os dois se sentarem à mesa à nossa frente.
A emoção juntou-se a certo desespero, quando reconhecemos aquele bravo boêmio, era o poeta maior Vinicius de Moraes. Quando então ele reconhece o Mandel, que está sentado de costas para ele, se levanta devagar e o abraça. Mandel querendo reconhecer o autor do afago, se vira e antes que o reconhecimento demore, o Paulinho se adianta e diz:
– Mandel, esse é o Poeta Vinícius de Moraes.
O Johnny quase joga o poeta pro alto de satisfação e todos aplaudem.
Estar com o Paulinho era viver essas coisas. Havia sempre um clima de humor e criatividade no ar.
Amanhã devo encontrá-lo em algum lugar.

Os Meninos do Rio

E vamos ouvir agora mais uma faixa de um disco produzido pelo Paulinho Albuquerque…Esse é um dos muitos que tiveram capa de Mello Menezes (neste caso, com fotos de Bruno Veiga) : Os Meninos do Rio, CD lançado em 2000 pela Carioca Discos. No caso, os “meninos” são doze dos grandes nomes do samba carioca, olha aí…

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A faixa inclui quatro sambas: Pecadora (Jair do Cavaquinho / Joãozinho Pecadora) , Colete Curto (Tio Hélio / Nilton Campolino), Remando Contra a Maré (Dauro do Salgueiro / Nei Lopes) e Falange do Erê (Arlindo Cruz / Aluizio Machado / Jorge Carioca). Cantados por Jair do Cavaquinho, Nilton Camploino, Dauro do Salgueiro e Aluizio Machado, o autoproclamado “braço direito do Beto Sem Braço”…

Os arranjos do CD são de Claudio Jorge e Wanderson Martins e a galera que está tocando aí não é mole não… Carlinhos Sete Cordas e Claudio Jorge (violões), Wanderson Martins (cavaquinho), Marcelinho Moreira, Ovídio Brito , Armando Marçal e Gordinho (percussão). E o coro: Mart’nália, Analimar, Ary Bispo, Jurema de Cândia, Viviane Godói, Marcelinho Moreira, Ovídio Brito e Copacabana.

Mas, antes de ouvir, é bom dar uma olhada no texto do Nei Lopes, que está no encarte do CD…

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Negro Mesmo

Foto em preto e branco é isso aí. E o branco, no caso, é o Paulinho Albuquerque. Isso foi em 1983, durante as gravações de um disco do Nei Lopes, produzido pelo Paulinho. A foto é de Mello Menezes, que também fez a capa do LP. Nei Lopes confirma e esclarece:

” A foto foi feita em 1983, durante as gravações do meu disco Negro Mesmo, no Estúdio Rancho, em Higienópolis, ao lado da hoje famosa Favela de Manguinhos. Os músicos são, da esquerda para a direita: Caboclinho (atabaques), Agenor Mendes (pandeiro), Nelsinho do Balanço, também conhecido como Nelsinho Suave (percussão, ex-Grupo Abolição, de Dom Salvador), Almir Santana (violão e cavaquinho) , Dairzinho (meu sobrinho, já falecido: cavaco e baixo elétrico) e Ovídio Brito (o maior cuiqueiro do Brasil) “.

E vocês vão ouvir agora uma faixa desse disco de música negra mesmo : Tia Eulália na Xiba, de Nei Lopes e Claudio Jorge. Com Cleber Augusto e Almir Santana nos violões, Dairzinho no cavaco, Agenor no surdo, Ovidio Brito no pandeiro, Caboclinho no atabaque, Nelsinho do Balanço, no atabaque e no ganzá e Pirulito nas claves. No coro: Leonardo Bruno, Vânia Ferreira, Francinete, Cleber Augusto e Zeca Lopes.

Dois lances do Paulinho

O Paulinho parece que está pensando: “O Aldir é grande pra caramba! Se tiver que sair na porrada a gente se garante…”


Aldir Blanc

1. Fomos a um jogo Vasco X Flu. Paulinho, botafoguense, preocupava-se comigo, que estava bem de porre, com um retrato do lateral Orlando Lelé grudado no peito. Fomos de cadeira cativa. Uns tricolores logo atrás começaram a xingar o Vasco com palavrões cabeludíssimos. Reagi com meu estoque Estácio de ofensas raras. No intervalo, houve um começo de confronto e notamos, chocados, que éramos dois, e os caras, sem sacanagem, uns doze. Paulinho me disse: “Calma. Fui da Miguel Lemos e aprendi judô. O segredo é usar o próprio impulso  dos caras contra eles…”. Fizemos isso e apanhamos pra cacete. Paulinho, é claro, não perdeu a pose e deu várias explicações “técnicas” para a nossa acachapante derrota.

2. Paulinho ia nas gravações dos primeiros Lps do João Bosco, numa galeria em frente à Praça Arco Verde. Gostávamos do local porque havia ao lado uma espécie de centro cultural de inglês, no qual Paulinho apanhava tesouros como W.H. Auden dizendo os próprios poemas, etc. Também havia, na tal galeria, a maior concentração de manicures gostosas do planeta. Algumas até foram convidadas  para “fotos artísticas” no ateliê do Mello Menezes… Um dia, estamos lá na galeria tomando cerveja (durante a gravação de “Galos de Briga”) e um bicão invade a nossa conversa sobre Haroldo Barbosa, que adorávamos. Em tabelinha intuitiva, inventamos que Haroldo havia feito “Luminosa Manhã” apaixonadíssimo, no fim da vida, para uma certa jovem, um amor impossível… Um ano antes de Paulinho morrer – ou seja, uns 30 ANOS DEPOIS – fomos à inauguração de uma casa noturna. O Mello, de porre, estava encerrando a noitada com sua soberba interpretação de “Luminosa Manhã”, quando um cara encosta e detona: “Essa música tem uma história linda. O Haroldo Barbosa estava apaixonado por uma jovem, um amor impossível e…” Paulinho e eu rimos de chorar.

Paulinho e Aldir no momento em que inventaram o Sanduíche de Djavan.