Com vocês, Fátima Guedes, Guinga e Aldir Blanc…

Aqui fala o DJ Reinaldo e vamos ouvir agora mais uma faixa de um disco produzido pelo Paulinho Albuquerque. No caso, é uma faixa do CD  Grande Tempo, da Fátima Guedes, gravado em 1995. A música é O Côco do Côco, uma parceria de Guinga e Aldir Blanc. É uma espécie de música de utilidade pública, na área da consultoria sexual popular…A turma que acompanha a Fátima, como sempre acontecia nos discos feitos pelo Comendador, é do primeiro time: Guinga no violão, Lula Galvão no violão e cavaquinho, Carlos Malta no piccolo e Marcos Suzano na percussão. Som na caixa…

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No estúdio com Paulinho Albuquerque

Lula Galvão
Das muitas gravações que fiz com o Paulinho, duas me fazem sempre lembrar dele. Candeias do Edu Lobo, que está no disco Festa da Rosa Passos, cujo o arranjo é meu e ele, Paulinho, com toda razão, achou a intro “grande pra caralho, vamo cortar um pedaço…”. Mas depois de gravado o arranjo, ele bancou a intro que, na verdade, era uma introdução típica de um forasteiro recém chegado querendo mostrar serviço.
A outra é Nó na Garganta, do Guinga que está no CD Cheio de Dedos. O Paulinho sugeriu que eu fizesse a melodia. Fui aprender na hora, pois não conhecia a música, e quando chegou aos três minutos de aprendizagem, com o próprio Guinga me ensinando, porque ele não escreve música, ouço aquela voz do Paulinho no meu fone: “Ô Lula, esse disco é pra sair agora, em três semanas!”. Parece brincadeira mas, antes dessa gravação, houve uma sessão de três horas de histórias e anedotas…
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E aqui quem fala é o DJ Reinaldo… Você vai ouvir agora as músicas que o Lula acaba de lembrar aí : primeiro, a sensacional gravação de CANDEIAS, de Edu Lobo, com Rosa Passos, Itamar Assiere (piano), Jorge Helder (baixo elétrico), Erivelton Silva (bateria), Paulo Guimarães (flauta em sol), Idriss Boudrioua (sax alto) e Lula Galvão (violão e arranjo).
E nesse video, o NÓ NA GARGANTA, com os violões de Lula Galvão e Guinga.

A última do Guinga

Reinaldo

Guinga e o Quinteto Villa-Lobos

Isso o Comendador ia gostar de ver. E de ouvir. Guinga acaba de lançar um CD em parceria com o Quinteto Villa-Lobos. O título é “Rasgando Seda”. Por acaso eu estava no estúdio no primeiro dia de gravação, fazendo uma visita e apreciando os trabalhos… Dias depois, fiz um textinho para o encarte do CD. O texto é esse aí:

O convite surgiu por acaso, ao esbarrar com o Guinga numa esquina de Ipanema: “Vou começar a gravar um disco com o Quinteto Villa-Lobos! Pinta lá no estúdio…”

Dois dias depois, lá estou eu, testemunha ocular e auditiva do primeiro dia de gravação deste CD.  Na verdade, o encontro de Guinga com o quinteto não é novidade. Eles já se apresentaram juntos em vários palcos e festivais, mas é a primeira vez que gravam um disco com repertório exclusivamente guingueano e com a participação do compositor no violão.

E foi muito bom ver de perto como o erudito e o popular, ambos muito à vontade, se encontram da maneira mais natural. O próprio Villa-Lobos já fazia exatamente isso e não é por acaso que dá nome ao quinteto. Para explicar a química por trás dessa parceria, alguém poderia cometer uma metáfora de alto risco: Guinga seria um diamante bruto lapidado pelos mestres joalheiros Paulo Sérgio Santos, Antonio Carlos Carrasqueira, Luis Carlos Justi, Philip Doyle  e Aloysio Fagerlande. Mas nas melodias de Guinga tudo é muito delicado, não tem nada ali que possa ser chamado de bruto – nem mesmo evocando a imagem do diamante.

Voltando ao estúdio: depois de gravar a primeira música, os seis pares de ouvidos privilegiados param para ouvir o resultado. Para mim tudo soava perfeito, sem problemas, mas aí começam os comentários:

– Guinga, vamos fazer esse ralentando no final um pouquinho mais lento?

– Essa nota aqui poderia ser com menos intensidade…

Por um momento, Guinga parece insatisfeito com seu violão:

– O som desse violão não ficou legal, tá me incomodando muito… Deixa eu gravar mais uma, com o outro violão… 

É a busca insaciável do som perfeito, do tempo certo, da melhor dinâmica… Um andamento um pouco diferente pode mudar tudo… Eles percebem todos os detalhes.

Até que alguém fala:

– Peraí, assim também já é muito preciosismo.

Mas, pensando bem, sem preciosismo não dá para fabricar uma jóia preciosa. 

Mas o que eu queria dizer é que nesse dia, lá no estúdio Cia. dos Técnicos, em Copacabana, Guinga olhava pra mim, olhava para um lado, olhava para o outro e falava: ” Olha só, parece até que o Paulinho tá aqui…”. E se o Comendador estava lá mesmo, devia estar achando o máximo…

Agora ouçam “Dá o Pé, Loro”, uma das 12 composições de Guinga no CD “Rasgando Seda”.

A produção executiva foi de Luis Carlos Pavan (Gargântua Produções) para o Selo Sesc, e as fotos são de Careimi Ludwig Assmann.

 

 

Três vascos, um botafogo e um príncipe

O Guinga gosta de lembrar este episódio…

“Uma vez o Paulinho Albuquerque me convidou pra participar de um CD do Nei Lopes, mas ele não me explicou muito bem que ia ter um monte de participações especiais…O CD era aquele “De Letra e Música”. Ele marcou comigo às 9 da manhã no estúdio. Naquele tempo eu ainda tinha meu consutório de dentista, e antes de ir pro estúdio ainda atendi dois clientes…Aí cheguei lá e percebi que o Paulinho tinha armado uma recepção especial, uma surpresa pra mim…Dei logo de cara com dois grandes vascaínos: Martinho da Vila e  Nei Lopes. E de quebra um bofoguense ilustre: Zeca Pagodinho. E o Zeca eu ainda não conhecia pessoalmente. Naquela hora da manhã os três já estavam calibrados…E e o Zeca já foi falando comigo como se nós fossemos velhos conhecidos:

– Ô Guinga, tu que é de Madureira, lembra aí o nome daquele corte de cabelo que o pai da gente mandava o barbeiro fazer…Como era mesmo?

E eu respondi logo:

– Príncipe Danilo!

E o Pagodinho ficou animadíssimo com a lembrança.

– Príncipe Danilo! É isso aí!… Do caralho! Do caralho!

E o Paulinho ali do lado, só rindo…”

E agora, ouçam aí a participação especial que o Guinga fez no disco do Nei Lopes. A música é Sonho de Uma Noite de Verão, de Reginaldo Bessa e Nei Lopes. Guinga entrou com arranjo, violão e voz. O outro violão é do Lula Galvão, o baixo é do Jorge Helder e, na percussão, temos Ovidio Brito, Armando Marçal e Marcelinho Moreira. O CD é de 2000 e se chama De Letra e Música. Som na caixa…

Sonhando com o Comendador

Paulo Malaguti Pauleira

Eu queria escrever algum lance sobre o saudoso Paulinho Albuquerque e realmente tenho muitas coisas a lembrar dessa grande figura carioca. Mas fui dar uma olhada no blog e quase todo mundo tinha um causo hilário do Paulinho, que de fato era espirituoso e muito esperto, com um humor grosso e fino ao mesmo tempo, na medida e na hora certa. Fiquei assim sem graça de só falar as coisas importantes em que ele me incluiu muito generosamente e ficar num tom cerimonioso que não interessa a ninguém. Pois bem: não é que agora, viajando a Portugal passeando com minha mulher, sonhei com o Comendador?

Era uma situação de sonho mesmo, em que havia vários músicos, me lembro do Zé Nogueira e do Rodrigo Campello e havia uma sensação boa de reconhecimento simpático a mim.  E aí de repente aparece o Paulinho, de bigodinho, bermuda, tênis e meia, super bicha afetada. E eu perguntei:

– Mas é o Paulinho?  Pensando: Ué, ele não morreu?

E alguém explicou que aquele era o irmão gêmeo gay do Paulinho Albuquerque (!) …

Essa aparição em sonho é o máximo de hilário que consigo contar sobre o Paulinho Albuquerque. Na vida real ele foi o responsável por alguns lances importantíssimos na minha carreira de músico. Minha participação no “Simples e Absurdo”, primeiro disco do Guinga, cantando, tocando e arranjando “Sete estrelas”. A primeira incursão de estúdio do Arranco de Varsóvia num CD lindaço da Fátima Guedes chamado “Grande Tempo”. Gravamos um samba do Lenine e Bráulio Tavares, “O dia em que faremos contato”. E no CD de 50 anos do Aldir Blanc cantamos “Vim sambar” parceria com J. Bosco, com a base poderosa do Peranzzetta, e eu tive a honra de escrever o arranjo vocal (ficou bem bacana).

Olhaí Reinaldo, arrumei uma passagem hilária espiritual-freudiana pra homenagear o grande Paulinho Albuquerque…

Paulinho e Guinga quase saíram na porrada…

Guinga

Minha história com o Paulinho só teve um momento ruim. Só um. E foi logo no meu primeiro disco, o Simples e Absurdo, de 1991. Aliás, esse disco só saiu por causa dele. O Paulinho se apaixonou pela minha música e disse:  “Cara, você já tá com 40 anos de idade, tem um monte de composições, você  tem que gravar um disco…”.

Aí ele pegou essa bandeira e foi em frente. Foi mobilizando mais gente, e tal… Na verdade, eu devo esse primeiro disco a ele, a Aldir Blanc, Herbert de Souza (o Betinho), Vitor Martins e Ivan Lins. Depois, até 2006, o Paulinho fez todos os meus discos (Cheio de Dedos, Suite Leopoldina, Cine Baronesa e Noturno Copacabana), menos um, o Delírio Carioca, em 93, porque ele não teria tempo na época da gravação, e pediu para o Zé Nogueira assumir a produção. Mas mesmo assim, todo dia ele dava um jeito de passar lá no estúdio pra dar uma olhada…

Mas foi justamente no primeiro disco que eu e o Paulinho nos aborrecemos…

Quando o CD ficou pronto eu dei uma entrevista no Jornal do Brasil, pro João Máximo. E o João fez aquela pergunta clássica: “E aí? Você ficou satisfeito com o resultado final do disco?”. Só que eu não respondi da maneira clássica! Não tinha muita prática nesse negócio de divulgação, e aí eu fui sincero demais, falei: “Eu fiquei satisfeito, mas não totalmente… Tem uma faixa lá que eu não gostei, uma faixa assim, assim…” Cara, eu não podia fazer isso! Eu dei um tiro no pé, fui sincero demais… Depois eu pensei: “Cara, pra que que eu fui falar isso?!”.

Quando o Paulinho leu a entrevista ficou muito puto, é claro. Depois eu fui ligar pra ele, pra tentar me explicar, dizer que não tinha feito por mal, e tal. E quando liguei, ele foi logo falando: “Guinga, não quero conversa contigo não, seu mau caráter!”. Ele foi curto e grosso, Paulinho era muito emocional… Aí eu, também agressivo pra cacete, falei: “Mau caráter?! Vai tomar no seu cu, filho da puta!” E bati o telefone. Imagina, isso no meu primeiro disco!… Aí eu fiquei com aquilo na cabeça: eu, que não sou mau caráter, sendo chamado de mau caráter por um cara que eu sabia que era o maior bom caráter…Resultado: a gente ficou um tempo sem se falar…Nesse período, o disco foi lançado. Aliás, foi super bem sucedido, saiu em todos os jornais nas listas de melhores do ano. E eu fiz o lançamento aqui no Rio, num centro cultural lá em Santa Tereza, e não falei porra nenhuma com o Paulinho. No dia do show, eu tava lá, tocando a terceira música, aí olhei pro canto da platéia, e tava lá o Paulinho em pé, ouvindo… Eu parei o show – porque também eu sou assim: não deixo pra amanhã o que eu posso fazer hoje – …parei de tocar, desci do palco e fui lá me abraçar com ele. Aí a gente ficou amigo pra caralho.Fico até emocionado de lembrar… Dali em diante tudo deu certo.

Guinga, Paulinho e Vivi.

(…) Eu penso nele todo dia… Na quinta-feira eu tava subindo a Timóteo da Costa, indo pra casa do Chico, pra jogar bola, e eu vi um carro igual ao do Paulinho, um Peugeot verde…Aí o carro deu uma parada. Naquele momento eu achei que ele ia sair do carro. Sabe essas loucuras? Essas fantasias…Eu fiquei ali parado, olhando pro carro de um jeito estranho…O dono do carro podia até achar que eu tava a fim de assaltar, roubar o carro, sei lá. E aí eu teria que explicar pra ele que eu tava parado ali só pra esperar o Paulinho Albuquerque sair do carro…

(Trechos de um papo com o Guinga, em 2007)

Com vocês, Nei Lopes e Chico Buarque…

Aqui quem fala é o DJ Reinaldo, e você vai ouvir agora mais uma faixa de um disco produzido pelo Paulinho Albuquerque. Neste caso, é o Suite Leopoldina, do Guinga, e a faixa é Parsifal, de Guinga e Nei Lopes, na interpretação de Nei Lopes e Chico Buarque. O time, como sempre, é de primeira:  Leandro Braga /arranjo, Lula Galvão /violão, Guinga /violão, Jorge Helder /baixo, Ovídio Brito e Armando Marçal /percussão, Zé Nogueira /sax soprano, Andrea Ernest Dias /flauta, Paulo Sergio Santos /clarinete. A capa do CD é uma foto de Bruno Veiga.