Não era ginecologista mas dava uns toques…

Reinaldo

Na foto de Klaus Denecke Rabello, o contrabaixo. Por incrível que pareça, muita gente insiste em chamar esse instrumento de violoncelo. Ele fica muito puto com isso...

Um lance que sempre gosto de lembrar para mim mesmo aconteceu na gravação da música Caldo Verde, do Casseta & Planetaproduzida pelo Paulinho, é claro. Graças a ele pude estar na mesma faixa que Sivuca, no acordeon e Marcos Suzano, na percussão. Pena que não foi ao vivo, com todos ao mesmo tempo. Por motivos de agenda, Sivuca e Suzano tocaram num dia e nós no outro. Eu toquei o baixo sobre a base que eles tinham gravado antes. Quando estávamos ouvindo o resultado, na mixagem, fiquei insistindo com o técnico de gravação, o Denilson Campos, para fazer o som do meu baixo elétrico fretless (sem trastes, aquele do Jaco Pastorius) ficar parecido com o som de um contrabaixo de verdade, o acústico. Paulinho me lançou um olhar do tipo “Se fudeu, mané!” e disse : “Se você quer som de contrabaixo de verdade só tem um jeito: vamos ter que chamar o Jorge Helder !” (Jorge Helder era o excelente contrabaixista com quem o Paulinho estava fazendo vários trabalhos naquela época… e hoje pode ser visto em turnê com o Chico Buarque). Foi a partir daí, com o Paulinho me chamando na chincha, me dando esse toque com aquele seu humor sacana, é que eu comecei a criar coragem para encarar o contrabaixo, coisa que eu achava uma missão impossível…

Colocando a voz

Cláudio Jorge

Uma história clássica do Paulinho aconteceu quando ele foi comandar uma sessão de gravação em que uma cantora faria uma participação especial no disco de um artista que ele estava produzindo. Por razões óbvias não citarei os nomes dos personagens.

Colocar voz é aquilo, né? Tem dia que nada acontece, uns cantam bem de manhã ou de noite, outros não cantam bem em horário nenhum. Há cantores que se sentem melhor no escuro ou querendo no estúdio apenas a presença do técnico e do produtor. Uns cantam descalços e já teve cantora que cantou até nua.

Disco de sambista já é um caso à parte. Aquele monte de amigos reunidos para dar um axé, cerveja, salaminho e por aí vai. Me lembro do dia em que o Trio Calafrio foi colocar voz e o Paulinho por telefone me pegou ainda em casa…

– Cláudio, o Luiz Grande tá precisando de um “quente” pra esquentar a voz. Tá difícil pra ele agora de manhã.

– Deixa comigo. Vou comprar um conhaque no posto de gasolina no caminho da José Veríssimo.

Cheguei lá com o “cunha”, o Luiz deu logo um tapa e seguimos a gravação. A coisa demorou um pouco a fluir, o Barbeirinho e o Marquinhos  Diniz cantaram primeiro e o Luiz Grande foi esquentando a voz, bem relax e ficando para o final.  Não deu outra. Quando chegou a vez dele a garrafa tava vazia e ele arrasou cantando logo de prima. Se tivesse que ficar repetindo como alguns ia ser aquele problema.

Mas voltando à participação especial da cantora, esse era um dia daqueles em que as coisas não funcionam de jeito nenhum. Ela cantava, parava, tomava água, café, gargarejava, desafinava, tudo acontecia e nada rolava.  Paulinho educadamente sugeriu que marcassem um outro dia, talvez num outro horário mas a cantora resolveu insistir.

Chegou num ponto, quando já estava rolando o maior stress, que ela perguntou: Paulinho, você acha que eu devo emitir minha voz da testa, do meio do rosto ou aqui da garganta?

Com essa bola quicando, o Paulinho bateu de pronto.

– Querida, você pode emitir a sua voz até pela buceta, contanto que ela chegue aqui legal.

Em L.A. com Stevie Wonder, o atrasadinho

Los Angeles , 1982, na gravação do LP Luz, do Djavan: Paulinho Albuquerque, Ronnie Foster (pianista e produtor do disco), Luiz Avelar, Stevie Wonder, Zé Nogueira, Djavan e Monique Gardenberg. Devido a alguns contratempos, a gravação do Stevie Wonder, que estava marcada para meio-dia, só começou às nove da noite. A explicação do Paulinho: "É que o Stevie quis vir dirigindo sozinho e demorou a achar o endereço..."