30 anos de festival

comendado

Há 30 anos a turma que gosta de jazz tem um festival pra chamar de seu…Hoje ele se chama Brasil Jazz Fest mas tudo começou em 1985, quando as irmãs Monique e Sylvia Gardenberg, junto com Paulinho Albuquerque, Zé Nogueira e Zuza Homem de Mello conseguiram realizar esse projeto que já trouxe tanta gente boa pra tocar no Brasil…Durante muitos anos o evento foi chamado Free Jazz Festival, depois foi TIM e depois BMW Festival. Hoje o patrocínio é da Rede, que não deixou a peteca cair…Paulinho Albuquerque, se estivesse neste planeta, também estaria ralando para fazer mais um festival sensacional. Infelizmente, não está. Mas, felizmente, no seu lugar está Pedrinho Albuquerque, seu filho, que herdou o gosto e a cultura musical do Comendador… Filho de peixe, etc…

A noite de abertura do primeiro festival, em 5 de agosto de 1985, foi com Moacir Santos e Radamés Gnattali. E nos outros dias, além de muitos nomes do primeiro time da música brasileira, o elenco incluía Chet Baker, Sonny Rollins, Ernie Watts, Pat Metheny, McCoy Tyner, Bobby McFerrin e por aí vai…A lista é grande e o show não pode parar…

Flagrante da primeira noite do festival. Moacir Santos e seu sax barítono, Zé Nogueira, José carlos Bigorna e Bidinho...E a banda ainda tinha  Luisão Maia no baixo, Wilson das Neves na  bateria,  Frank Zotolli no piano, Rique Pantoja nos teclados, e Café e Marçalzinho na percussão.

Flagrante da primeira noite do festival. Moacir Santos com seu sax barítono, Zé Nogueira, José Carlos Bigorna e Bidinho…E a banda ainda tinha
Luisão Maia no baixo, Wilson das Neves na bateria, Frank Zottoli no piano, Rique Pantoja nos teclados , Café e Marçalzinho na percussão.

Com vocês, Shirley Horn…

Aqui quem fala é o VJ Reinaldo e vocês vão ver agora mais um som produzido pelo Paulinho Albuquerque. É uma parte do show especial que aconteceu no Free Jazz Festival de 1994, uma grande homenagem a Tom Jobim. A filmagem foi dirigida por Walter Salles Jr., mas a direção do show propriamente dito foi do Paulinho. Esse foi apenas mais um dos muito shows do Free Jazz que ele dirigiu. E foi especial mesmo: basta ver o elenco nesse número, com a Shirley Horn, uma de suas cantoras favoritas, cantando a versão em inglês de O Amor em Paz.

Tratamento de choque

Marcos Ariel, cobaia de um experimento científico do Dr. Albuquerque.

Essa foi o saxofonista Daniel Garcia que contou …Nos anos 80 o pianista Marcos Ariel tinha uma  fixação pela Magda Cotrofe, modelo e atriz que fazia o maior sucesso e era uma das musas da época. Paulinho Albuquerque, que estava dirigindo um show do Marcos no Free Jazz,  arranjou um jeito da Magda aparecer no camarim do Ariel uns dez minutos antes de ele entrar no palco com seu grupo. Daniel conta que a Magda Cotrofe chegou no camarim e foi logo abraçando e beijando o Ariel, dizendo no seu ouvido muitas palavras para expressar sua elevada estima, consideração e outros sentimentos não publicáveis…É claro que tudo isso era uma cena concebida e produzida pelo Paulinho, com a ajuda da Magda.

O Ariel ficou atônito. Não entendeu nada, mas entrou no palco pilhado e tocou muito bem, como sempre. E até hoje ninguém sabe se isso foi só uma sacanagem do Comendador ou se foi uma jogada do diretor Paulinho Albuquerque para dar um estímulo extra ao grande pianista e compositor…

O Assobiador do Jazz

Zé Nogueira

Durante uma de nossas primeiras reuniões de curadoria do Free Jazz, por volta dos anos 80, Paulinho, descobridor de talentos ainda desconhecidos do grande público brasileiro (vide Bobby McFerrin e Stanley Jordan, que vieram ao Brasil ainda no desabrochar de suas carreiras), sugeriu um nome: Ron McCroby, um exímio assobiador de jazz que se apresentava acompanhado de trio (piano, baixo acústico e bateria) e improvisava barbaramente. Nessa época eu e o Comendador dividíamos o mesmo apartamento e pude atestar a capacidade do assobiador antes da nossa reunião acontecer. E ouvia, naquele apartamento, muita coisa diferente. Paulinho guardava tudo. Tinha um arquivo de fitas gravadas de shows antigos e uma discoteca de se tirar o chapéu. Ali, aqueles anos passados na Rua Pena Chaves, no Jardim Botânico, me valeram por um verdadeiro mestrado em música.
Enfim, o nome do assobiador foi apresentado na reunião mas a Monique (Gardenberg) não deu a mínima. “Paulinho! Um assobiador? Tá brincando…”.  Eu confirmava que era bacana mas a Monique permanecia incrédula. Passaram-se os anos e a cada reunião, entre Miles Davis, Stan Getz e Sarah Vaughan, Paulinho vinha com o nome do assobiador e todos riam… As reuniões foram assim até que um dia demos de cara com o obituário da revista Enquirer que dizia no título: “Os lábios de Ron McCroby eram o seu refinado instrumento”.

Foi fuçando emails antigos do Paulinho que achei a pérola:

From: Paulo Albuquerque
Date: December 23, 2004 3:02:45 AM GMT-02:00
To: monique gardenberg
Cc: Jose Nogueira , Zuza Homem De Mello
Subject: BOAS FESTAS

Monique,
Lembra do Ron McCroby, o assobiador, que eu tentei, sem sucesso, trazer para o festival? Pois bem, eu e Zé Nogueira fizemos uma pesquisa na Internet e descobrimos que ele faleceu em 2002.
Na sua última entrevista, na véspera de sua morte, ao Los Angeles Times, ele declarou:
” Miss Gardenberg doesn’t want me in her festival. There’s no more reason
for living.”
E suicidou-se. Assobiando, segundo dizem.
Também, agora eu juro que não vou insistir mais para trazê-lo.
Bem, Monique, Boas Festas, um tremendo Natal e um Ano Novo maravilhoso para você, Raymond e a familia.
Obrigado por tudo nesse ano.
Bjs,
Paulo

E agora vejam Ron McCroby em ação neste video:

Inventando o Free Jazz

Monique, Zé Nogueira, Federica Lanz Boccardo, Paulinho e a também inesquecível Sylvia Gardenberg.

Reinaldo

Esta foto, escaneada de um exemplar do JB de 28 de julho de 1985, marca o lançamento do Free Jazz Festival. Tudo começou uns dois anos antes, quando Paulinho Albuquerque, Zé Nogueira e Monique Gardenberg voltavam de uma turnê do Djavan nos Estados Unidos (os três estavam trabalhando com Djavan na época). No último dia da viagem eles foram a um festival no Lincoln Center, em Nova York, com shows de Stan Getz, David Sanborn e outras feras. E, já durante o vôo de volta para o Rio, começaram a fazer planos para um grande festival de jazz e música instrumental brasileira.  O resto vocês sabem…As irmãs Gardenberg fizeram a coisa  acontecer e o Free Jazz  Festival se transformou num maiores eventos musicais do Brasil.

Na foto está faltando Zuza Homem de Mello, que foi convocado para completar o time de craques. Segundo a Federica, na foto poderiam estar também Abel Gomes da P&G , que cuidou da cenografia, Ivone Kassu, que fez a assessoria de imprensa  e  Zé Luiz Joels, da Oficina de Luz, na iluminação. A Federica  ficou, como ela mesmo diz, “ naquele  negócio de venda de ingressos, distribuição de convites, etc., um  cargo que mais tarde ganhou o pomposo nome de controller ”.

Para mim foi um prazer poder assistir a vários shows do festival ao lado do Paulinho, ouvindo seus comentários de expert  esperto. Não me esqueço do dia em que estávamos num show da Shirley Horn… (na verdade esse foi em 2003 e aí o festival já tinha até mudado de nome e patrocinador, agora  era o Tim Festival). Enfim, a Shirley Horn  estava tocando piano e cantando uma balada super suave, naquele seu estilo pianíssimo e de repente a tenda foi invadida pelo som de uma música tipo bate-estaca (infelizmente, naquele ano houve um problema de localização de palcos e um show  interferiu no outro). A veterana cantora, já com uns 70 anos, levou um susto com o som invasor e, é claro, a platéia ficou injuriada com a coisa. Aí o Paulinho mandou essa: “ Se a velha morrer, pelo menos a gente vai poder parar tudo e pedir um minuto de silêncio”.  Esse era o Paulinho Albuquerque.