Um e-mail de ano novo e samba novo

De: paulo albuquerque

Para: nei lopes

Em: 27 de dezembro de 2001

Assunto: samba e ano novo

Em primeiro lugar, quero lhe desejar – e a Sonia – um tremendo 2002, com muito sucesso e muito samba. Li e gostei muito do seu artigo no JB de ontem. Temos que conversar. Já tinha recebido seu e-mail sobre o assunto. Penso que muita coisa tem que ser mudada pelo próprio pessoal do samba. Iniciativas como o projeto “’Os Meninos do Rio”, o nosso selinho, a Acari Records, o seu disco, o premio Shell pro Elton, os discos do Zeca, e tantas outras coisas boas anuladas por um único show tipo “pau de sebo” juntando, de qualquer maneira, uma porrada de compositores e sambistas importantes num espetáculo sem qualquer direção ou critério, como o que foi feito no Carlos Gomes. Um espetáculo  como o dos “Amigos do Zeca”, no Canecão, que é uma esplêndida iniciativa, não pode durar quatro horas, como aconteceu. Trabalhei muitos anos (e ainda trabalho) com a tchurma da chamada “MPB” e ELES ENSAIAM pra cacete. O cuidado na apresentação do próprio trabalho não existe, infelizmente, na área do samba de uma maneira geral. Dirigi o show do Elton Medeiros (que repertório!) para o premio Shell. Fizemos dois ensaios e alguns artistas não compareceram a nenhum deles. Tivemos que ensaiá-los na tarde do dia do show. Não me lembro de isso ter acontecido com nenhum dos artistas com quem trabalhei da chamada “MPB”. As coisas acontecem porque o talento é muito grande, mas o risco de fracasso é sempre enorme e o “stress” – como aconteceu com o Elton – está sempre presente, pelo menos para quem está interessado em fazer as coisas direito. Outro grande problema que vai enfrentar nessa sua cruzada é o preconceito, o sectarismo das pessoas que dizem curtir o “verdadeiro” samba.  O cara achar  que prefere o Nelson Cavaquinho cantando suas próprias musicas ao invés da Beth Carvalho é absurdo. Porra, o Nelson era um puta compositor, tinha um estilo “sujo” de tocar, mas não cantava porra nenhuma. Além disso, as produções dos seus discos eram uma boa merda. Os “talibãs” do samba (e são milhares) atrapalham o samba, assim como acontece com o choro. É por isso que o gênero não anda. As contribuições são mal recebidas porque há “dogmas” que não podem ser quebrados de jeito nenhum. “Porra, o fulano não é da área do samba!”. E daí? O samba tem dono? E, se tiver, são esses os donos? Vi que você incluiu um disco que produzi – “Nelson Cavaquinho com a Leny Andrade” – na sua discografia básica do samba, o que muito me honrou. Pois bem: um cara, num site de samba aí, disse que o disco é “horroroso”. E  disse ainda que nem quis ouvir o outro disco dela – cantando Cartola – porque devia ser a mesma bosta. Claro que não estou aqui reclamando de critica ao trabalho, mas o preconceito nesse caso fica bem evidente, pelo menos no que se refere ao disco do Cartola, que ele nem ouviu. Outra burrice que acontece na área do samba, a meu ver: o samba tem uma porrada de inimigos, a começar pela indústria fonográfica. Apesar disso, as pessoas ficam dando porrada umas nas outras, ao invés de dirigir seus canhões pros alvos certos. Que isso fique aqui entre nós, para não dividir mais. Precisamos, ao contrario, de mais união porque a briga é dura. Mas a gente ganha um dia. E é isso que espero pro ano que vem. Vamos conversar mais. Prefiro em torno de uma mesa, com um chopinho e mais gente na nossa turma. Um beijo pra você, Sonia e Neizinho e um ótimo ano novo.

* Ouçam aqui um pouco desse disco da Leny Andrade cantando Nelson Cavaquinho…

O Palbuca

Paulinho, Riachão, Claudio Jorge e Luiz Carlos da Villa

Paulinho e João Bosco

Cláudio Jorge

Foi tanta coisa que vivi com o Paulinho…Mas agora estou me lembrando do dia em que fomos juntos à Bahia para a apresentação do projeto “A Cor da Cultura”, do Canal Futura. Éramos um grupo grande de instrumentistas, cantores, técnicos, produtores e o Paulinho fazendo a direção do show.

Encontrar com Paulinho era garantia de boas risadas, por conta do seu bom humor e também pelo seu mau humor, que sempre era engraçado.

Ele tinha uma capacidade de abordar coisas sérias brincando que era muito interessante. Nosso amigo Marcelinho Moreira, por exemplo, grande instrumentista, preparava-se para lançar seu primeiro disco. Estava virando “canário”, como nós músicos costumamos brincar com os cantores de um modo geral.

O primeiro CD de Marcelinho Moreira, de 2006, quando o batuqueiro virou "canário".

A maneira que o Paulinho usava para ficar cutucando o Marcelinho sobre isso era muito boa. Toda vez que a gente pegava a van pra ir do hotel ao Teatro Castro Alves o Paulinho mandava: ” Que coisa incrível, né gente? O Marcelinho é uma pessoa tão legal, tão simples. Ele até viaja com a gente aqui na van numa boa…” Cada vez que ele falava isso era num tom diferente e a gente adorava, inclusive o Marcelinho. Paulinho foi a primeira pessoa a investir na carreira do Marcelinho e a amizade entre os dois tornava a pilha mais engraçada ainda.

Por ironia do destino, Marcelinho e eu estávamos juntos numa van indo de Lisboa para Coimbra, quando soubemos o que tinha acontecido aqui no Rio no dia 26 de junho de 2006.

Me lembro que pouco antes de irmos pra Bahia uma produtora do Futura me falou que não estava conseguindo se comunicar com o Paulinho. Ela digitava paubuca@… e não dava certo. Expliquei pra ela, com toda a delicadeza, que o pau do paubuca era  com “L”, de P. ALbuquerque. Ela teve uma crise de risos com a armadilha criada pelo Paulinho, principalmente porque tava achando muita cara de pau aquele endereço de e-mail. Até o final do trabalho toda vez que a Cláudia olhava pra ele ria  à toa.

Paulinho brincava com isso, brincava com tudo. Era uma alegria que vinha de longe e que nunca deixou de se manifestar, mesmo com os cabelos brancos tomando conta de sua cabeça. Uma cabeça muito boa, por sinal. 

Ainda sobre e-mail…

Paulinho me enviou este e-mail em 21 de junho de 2006, cinco dias antes de partir.  Nele dá pra sentir como ele sacaneava tudo e todos com seu maravilhoso humor.

“De:  palbuca@terra.com.br

Assunto: Re: todos                  

Data: 21 de junho de 2006 14h20min30s GMT-03:00

Para:  claudiojorge@terra.com.br

Claudio

O velório do Bussunda foi foda pra segurar. Fiquei me controlando mas assim que vi os outros todos juntos, passou o maior filme na minha cabeça, lembrando do nosso início de trabalho e pensando como era inimaginável ver algum dia aqueles gozadores todos chorando como crianças.  Claro que caí no maior choro também.  Pela primeira vez na minha vida, vi o Reinaldo completamente descontrolado.  Aqueles caras foram, durante muito tempo, a minha família, você sabe.  O Beto – eles não perdem a oportunidade de fazer piada mesmo numa situação dessas – que é tricolor doente, ao me abraçar, chorando muito, disse: “Ô Paulinho, só mesmo o Bussunda pra fazer a gente entrar nessa porra”.  Ele se referia ao club Flamengo, onde foi o velório.

Bem, vamos às mais amenas:  o Brasil deve voltar dentro de mais alguns dias, pois o Parreira (aargh !) não pode barrar o Ronaldo, o Adriano, o Cafu, etc., por causa dos contratos com a Nike, né ?

Enquanto isso, os craques Dodô, Reinaldo, Scheidt e outros ficam aqui no Brasil assistindo a essas merdas.  Que injustiça !

Encontraram o Martinho ?   O Marcelinho continua exigindo suite presidencial nos hotéis?  A FIFA está puta da vida porque alegam que haviam combinado com o Marcelinho que sua excursão européia fosse APÓS a Copa e não durante.

Estão com problemas de público por isso, pois a turnê do Marcelinho está empanando a repercussão que poderia ter a Copa do Mundo.  Eu, particularmente, acho que eles estão exagerando e vejo até algum resquício daquele velho racismo nazista nessa manifestação da FIFA pois o presidente, como você sabe, é o Joseph Blatter, um alemão e a Copa , afinal de contas, é lá naquele reduto nazista.

Abs

Paulo