Não era ginecologista mas dava uns toques…

Reinaldo

Na foto de Klaus Denecke Rabello, o contrabaixo. Por incrível que pareça, muita gente insiste em chamar esse instrumento de violoncelo. Ele fica muito puto com isso...

Um lance que sempre gosto de lembrar para mim mesmo aconteceu na gravação da música Caldo Verde, do Casseta & Planetaproduzida pelo Paulinho, é claro. Graças a ele pude estar na mesma faixa que Sivuca, no acordeon e Marcos Suzano, na percussão. Pena que não foi ao vivo, com todos ao mesmo tempo. Por motivos de agenda, Sivuca e Suzano tocaram num dia e nós no outro. Eu toquei o baixo sobre a base que eles tinham gravado antes. Quando estávamos ouvindo o resultado, na mixagem, fiquei insistindo com o técnico de gravação, o Denilson Campos, para fazer o som do meu baixo elétrico fretless (sem trastes, aquele do Jaco Pastorius) ficar parecido com o som de um contrabaixo de verdade, o acústico. Paulinho me lançou um olhar do tipo “Se fudeu, mané!” e disse : “Se você quer som de contrabaixo de verdade só tem um jeito: vamos ter que chamar o Jorge Helder !” (Jorge Helder era o excelente contrabaixista com quem o Paulinho estava fazendo vários trabalhos naquela época… e hoje pode ser visto em turnê com o Chico Buarque). Foi a partir daí, com o Paulinho me chamando na chincha, me dando esse toque com aquele seu humor sacana, é que eu comecei a criar coragem para encarar o contrabaixo, coisa que eu achava uma missão impossível…

“Música é a melhor coisa…”

Denilson Campos

Umas que o Paulinho me contou:

Teo Lima, baterista e vítima do Comendador.

Apenas para situar: o baterista Teo Lima era jurado do desfile das escolas de samba na Sapucaí. Um dos jurados tinha dado uma nota 8 para a bateria da Mangueira. A Mangueira perde o título.

Paulinho liga para a casa do Teo Lima (na época tocando com Djavan). Teo atende e Paulinho começa a falar com voz de malandro. Se identifica como “Tuco da Mangueira” e cobra do Teo uma explicação pela nota 8. Teo diz que não foi ele, foi outro jurado e para limpar a barra, convida o “Tuco” para passar no estúdio da Odeon, onde ele estava gravando o novo disco do Djavan.

No dia seguinte Paulinho chega ao estúdio e combina com o segurança para ligar para o estúdio mais tarde e dizer que tem um tal de Tuco na portaria querendo falar com o Teo. O segurança faz isso e o Teo fica apavorado. Algum tempo depois Teo vai até a portaria e pergunta para o segurança pelo Tuco. O segurança diz “Pô, o cara ficou irritado porque você demorou e foi embora xingando”. Teo ficou bastante preocupado.
Só muito tempo depois o Paulinho contou ao Teo que a história toda tinha sido uma brincadeira inventada por ele.

Na verdade, o jurado que deu a nota 8 foi o Russo do Pandeiro (aquele que tocou com a Carmen Miranda e morava nos Estados Unidos) . O Teo esperou o Russo embarcar em segurança de volta para casa e só aí revelou ao “Tuco” o nome do jurado que tinha dado a maldita nota 8.

Novamente com Teo:

Djavan foi fazer shows nos EUA e o Paulinho mandou imprimir a capa do NY Times com uma foto do Teo com a seguinte manchete: “Baterista gay do Djavan preso em NY.” Paulinho pegou o jornal e deixou com a mulher do Djavan. Combinaram que ela ia abrir o jornal no vôo de volta. Quando isso aconteceu alguém da banda disse para o Teo que ele estava na 1ª página do jornal. Como ele não sabia ler inglês muito bem pediu logo para quem traduzir? Paulinho, é claro. Bom, resumo da história: o Teo ficou tão irritado com a manchete que queria fazer o avião voltar a NY para comprar todos os jornais em circulação porque, afinal de contas, aquele notícia não podia chegar no Brasil…

Essa eu presenciei:

Estávamos gravando o 1º CD do Guinga. A idéia era o Guinga ao violão e diversos cantores convidados para cantar as faixas. Estávamos terminando a mixagem da música cantada pelo Claudio Nucci, quando o Paulinho se vira pra mim e pergunta:

– Dá pra gravar o som do talkback na fita?
– Claro que dá! Só que som é bem ruim. Parece megafone.
– Ótimo. Bota um canal pra gravar aí que eu vou falar umas coisas durante a intro.

Feito isso, ele começa a falar coisas parecidas com:

– “Ooolha o incenso aííí…, bata indiana…, vai sair o último ônibus
pra Mauá…”

E foi assim até terminar a intro. Copiamos a mix com essas falas para uma fita K7 e o Paulinho levou para o Claudio escutar. Segundo o Paulinho, ele acreditou que essa seria a versão definitiva da música e ficou muito puto. Depois tudo se esclareceu…

Outra que eu também presenciei:

Djavan, Paulinho e Fátima Guedes

Novamente estávamos mixando um disco. Desta vez da Fátima Guedes. Tem uma música neste disco que se chama “Santa Bárbara”. E tradicionalmente Santa Bárbara é considerada a santa das chuvas. Era início do ano e tinha aquelas chuvas torrenciais de verão. Coincidência ou não, praticamente todas as sextas-feiras chovia muito. A intro era só de percussão (tocada pelo Marçalzinho). Paulinho pediu para colocarmos alguns sons de trovoadas e chuva, foi para o estúdio e gravou alguma coisa como:

– (som de trovão) Ih, caralho. Vai chover de novo.
– (som de vento e tempestade) Ah!! Não vou sair não. Meu carro é baixo. A
rua vai alagar e vai entrar água no meu carro.
– Fátima, tem um guarda chuva aí?
– (mais sons pontuando) Ô Fátima. Tu fica cantando pra Santa Bárbara!! Agora lá vem chuva. Puta que pariu!
– (já no final da intro, antes da Fátima começar a cantar) Porra,
Fátima, agora não precisa mais, pega esse guarda chuva e enfia no cu…

Quando a Fátima chegou ao estúdio para ouvir a mix nós colocamos essa
versão. E ela quase não se aguenta em pé de tanto rir.

Tem uma frase do Paulinho que eu nunca esqueço: “Música é a melhor coisa. Só não pode virar trabalho.”

João e Paulo.

A última que eu ouvi dele foi quando nos encontramos na Lagoa, numa manhã de domingo. Ele com o filhinho dele num carrinho e eu com o meu. Ele apontou para o menino todo orgulhoso e me disse: “Olha aí, é a rapa do tacho”.

(Denilson Campos é engenheiro de som e trabalhou em muitas produções ao lado de Paulinho Albuquerque)