Verde e Rosa mesmo…

Leny Andrade

Nessa minha carreira tão variada convivi com tantos músicos, fiz tanta coisa, mas esses 2 discos que fiz sob a direção e produção do Paulinho Albuquerque,  Cartola 80 Anos e Nelson Cavaquinho – Luz Negra, são impecáveis, no meu modo de ver e ouvir música brasileira de qualidade. Dois discos só de composições de dois ícones dessa instituição chamada Mangueira… Me senti muito honrada com o convite do Comendador, que me disse que queria fazer “um Cartola diferente: de fraque!” E assim foi. Um som primoroso… Todos os arranjos feitos por Gilson Peranzzetta. O disco era, em princípio, uma encomenda da  Coca-Cola e foi distribuído durante seis meses para os clientes e amigos da empresa. E anos depois foi a mesma coisa: a Coca-Cola voltou a chamar o Paulinho para fazer o CD Luz Negra, em homenagem a Nelson Cavaquinho. Com arranjos de Gilson Peranzzetta mas, dessa vez, também com alguns arranjos de João de Aquino.
Não foi só comigo que o Comendador fez essas direções e produções importantes. Na sua  carreira, Paulinho também fez produções e direções para Ivan Lins, Fátima Guedes, Djavan…e trabalhou até com o Casseta & Planeta, que era uma de suas grandes paixões…Paulinho Albuquerque só exigia uma coisa: talento.
Nós, os amigos, sentimos falta dele TODOS OS DIAS DE NOSSAS VIDAS.

E aqui quem fala é o DJ Reinaldo…Vocês vão ouvir agora uma faixa de cada um desses discos que a Leny acabou de lembrar…

A primeira é Vai Amigo, de Cartola. Com: Gilson Peranzzetta (arranjo, teclado e acordeon), Teo Lima (bateria) , Luizão Maia (baixo) e Claudio Jorge (guitarra).

A outra é História de um Valente, de Nelson Cavaquinho e José Ribeiro de Souza. Com: João de Aquino (arranjo e violão) , Itamar Assiere (piano e teclado), Jorge Helder (baixo elétrico), Teo Lima (bateria), Pirulito (percussão) e Ovidio Brito (percussão).

* O disco do Cartola é de 1988 e o do Nelson é de 1994.  As duas capas são do Lan.

Paulo, da Fiorentina ao Malecón

Em Cuba: Paulinho, Nei Lopes (com mais um chapéu da sua enorme coleção) e o percussionista Ovídio Brito, outra grande figura que foi embora antes da hora.

Nei Lopes

Não lembro mais como foi, quando foi e onde foi que eu conheci Paulinho,  fina flor dos Medeiros e Albuquerque. Mas a lembrança mais antiga e forte é a daquele homão bonito e charmoso, parecendo um gringo baludo, entrando na Fiorentina – eu também conheci a Fiorentina! – levando pra comer, em todos os sentidos, uma espetacular e famosa mulata, musa  dileta de um pintor então já falecido. Era no fim dos anos 70, eu andava me virando com propaganda e música, então era de lei de vez em quando um bordejo na zona sul. Mesmo que fosse munido daquele mapa que vem encartado no Guia de Rex, como eu de fato andava, pra, épatant les bourgeoises , no auge do pilequinho, brandi-lo como um estandarte, berrando orgulhoso: ” Sou suburbano, porra! E só conheço a zona sul até o Canecão.”

Tempos depois, lembrei dessa noite ao homão: “Pô, malandro, quando tu entrou, a Fiorentina tremeu! Aquela noite deve ter sido…”.  E a resposta veio chocha, murcha, daquela cara de bebê chorão que ele às vezes ostentava: “Que nada, rapaz! Ela é mais chegada é a uma briga de aranhas”.

Foi a primeira vez que eu ouvi a expressão. Gostei. E escolado por esse ensinamento, comecei a tomar  mais cuidado com essas fiorentinas enganosas e colei no Paulo. Que tinha sido advogado também como eu, formados na mesma época – ele no Catete, eu na Nacional; eu batalhando pra portuga no incipiente Vista Alegre, meio Irajá meio Cordovil, ele como bastante procurador do Manel Dentinho e outros donos de tendinha na Praia do Pinto.

Eram muitas as afinidades. Que nos levaram à realização conjunta de muitos projetos. Como por exemplo aquele que levou ao palco do CCBB, em quatro espetáculos diferentes, o samba representado por Mangueira, Salgueiro, Império e Vila Isabel, cada qual com sua peculiaridade.

A do Salgueiro ficou por conta do grupo de caxambu (jongo) do Seu Geraldo. E de um grande sambista que, para surpresa de todos, chegou bem cedinho ao teatro, sóbrio, compenetrado, pendurou a roupa de cena no camarim e saiu “pra resolver uma parada”. Só que passou uma hora, passaram duas, três, faltavam uns quinze minutos pra começar o show e o bambambã não voltava. Paulinho olhou pra mim, com aquela cara de  choro a que já me referi, cobrando a irresponsabilidade, porque o sambista era da minha escola.

Mas Deus é grande e o homem chegou. Como o diabo gosta. E arrasou, no circunspecto palco do CCBB, cantando uma nova versão para um de seus grandes sucessos, assim: “Depois que mataram Cartola / Dona Zica deita e rola…”.  Meio anarquista também, graças a Deus, Paulinho botou a mão na boca, pra abafar a gargalhada. E a nova versão acabou incorporada ao espetáculo, porque Paulinho sabia o que era bom.

Não, os chapéus que o Paulinho dava de presente para o Nei Lopes não eram comprados no Méier, eram comprados no Meyer, em New Orleans.

Tanto sabia que a cada viagem anual a New Orleans, pescando talentos para o seu Free Jazz, ia lá no “Meyer, The Hatter” e comprava um boné ou chapéu  pra me trazer de presente e satisfazer esse meu vício estranho. Mas acontece que, numa dessas edições, ele errou a mão e me trouxe uma cartolinha vermelha, orlada com uma fita preta.

“Pô, Paulo, me desculpe mas essa não dá!”,  eu disse. E ante a explicação de que eu não era Flamengo e que aquelas cores eram de Exu, orixá que não se leva na cabeça, ele teve a idéia: “Tu não tem aquele amigo que é papa-defunto e pai-de-santo, e que todo mudo conhece em Vila Isabel como Osvaldo Funéreo?”. Positivo – confirmei – e o Funéreo, embora sempre olhe pra gente sempre como se estivesse tirando a medida do “terno”, é gente muito boa. Conclusão: até hoje todo mundo acha que aquela cartolinha  maneira que o Osvaldo usa, quando incorpora o  Seu Sete Cordas, no terreiro do Jacaré, foi comprada no Méier. Ledo engano! Ela veio foi do ”Meyer, The Hatter”, estabelecido desde 1894 no número 120 da Saint Charles Avenue.  Como veio de Xerém, naquele dia estranho, pela batuta do Paulinho, a transformação de uma segunda-feira que parecia aziaga em um dos dias mais alegres da minha vida.

Segunda, sabe como é, né? E aquela estava esquisitona mesmo. Tanto que eu disse pra Comadre que achava que não ia.

— Mas como você não vai? Você está gravando o disco mais importante da tua carreira;  o Paulinho, mais uma vez, está te botando na cara do gol e você não vai?

— Este dia não está me cheirando bem. Tô com pressentimento de que vai acontecer alguma coisa.

O disco fora idéia dele, naquela de me ajudar a derrubar essa barreira idiota que, na indústria fonográfica, separa o samba do que eles chamam de “emepebê”. No projeto, quatorze obras minhas, com ou sem parceiros, seriam interpretados por artistas  amigos e de todas as praias, de Ramos a Angra (ou  “Noronha”), cantando junto com o autor destas mal traçadas linhas. Os convites era o Paulo que fazia, marcando os dias e horários das gravações de acordo com a conveniência de cada convidado.

Pois aí, convencido pela comadre a deixar de bobagem e partir pro estúdio no Leblon, qual não é minha surpresa quando chego lá, 10 horas da matina e já encontro a cerveja rolando, as gargalhadas soando, os pandeiros e cavacos sendo afinados e, na geladeira, levados de presente pra mim, dois patos, convenientemente limpos e abatidos, além  de dois litrões de coca-cola cheios de leite puro, natural, direto de  úberes altamente sadios.

— É da fazenda. Puro suco de Xerém – disse o convidado daquele dia, nada mais nada menos que Sua Majestade Zeca Pagodinho, primeiro e único.

Depois do Zeca, a cerveja gelada, chegou Guinga, depois Martinho… Veio a Comadre, pra garantir minha volta sem culpa. E a alegria foi até o fim da tarde, naquela segunda que se prenunciava nefasta. Porque o Dr. Paulinho, codinome “Palbuca”,  sabia das coisas e tinha mandado municiar a geladeira.Da mesma forma que, dias depois,  me preparou para um convidado tido como “difícil”, que eu não conhecia pessoalmente.

Foi o último a gravar, no último dia, na última hora. A gente pensava que ele não viria mais, no entanto veio. Chegou meio blasê (de blazer, numa Blazer) mas chegou. E cantou, como nunca, como ninguém. Digo “como ninguém” mentindo, pois,  antes dele tinha estado lá uma certa cantora, minha amiga de trinta anos, e tinha dado um banho. Aí, o cantorzão, já se despedindo, doido pra ir embora, Paulinho, com aquela cara sacana,  botou a pilha: “ Não quer ouvir a gravação da Fulana?”

O tremendo cantor não sabia que a Fulana participava do disco. Nem que participavam Arlindo & Sombrinha, Chico Buarque, Dona Ivone Lara, Dudu Nobre, Dunga, Fátima Guedes, Guinga,  João Bosco, Joyce, Martinho, MPB4, Toque de Prima,  Wilson Moreira, Zé Renato, Zeca Pagodinho.

Vendo a escalação do time e ouvindo a gravação da Fulana, o grande cantor perdeu a pressa, vestiu a camisa e retornou ao estúdio, pra gorgear ainda mais bonito do que tinha feito a primeira vez.  Ficou demais! Tão demais que, dias depois, recebo eu o envelopinho cartonado contendo um CD-R. Por fora, o endereçamento, meu nome grafado errado, com “y” e “z”, como se o destinatário não me conhecesse direito.

Abro, vou ouvir a gravação e lá está o vozeirão,  cantando uma versão pornográfica do samba,  declarando, da forma mais pederástica possível, sua paixão por mim.

Surpresa! Decepção! Desengano! Mas… qual nada! Era mais uma sacanagem do Paulo que, habilíssimo imitador de vozes e contando com a tecnologia de ponta do estúdio, tinha se dado  ao trabalho de, numa montagem perfeita,  incluir, em várias frases, imitando o cantor,  palavras que davam ao texto o sentido escroto desejado. E foi esse CD que nos levou a Havana, numa “cara-avana” da gravadora Velas (ou Caravelas?). E nessa caravana estava aquele querido percussionista que, sempre, depois de tomar todas, tem o costume de brindar os amigos de que mais gosta, sempre esses, com a carinhosa frase “vai tomar no cu!” proferida em altos brados.

Fim de excursão, a   noite tinha sido de muita alegria,felicidade, mojitos e daiquiris. Então, logicamente,  os brados de “vai tomar no cu” tinham soado por toda Havana, da Calle Obispo ao bairro Jesús Maria. Então, de manhã, domingo, rua vazia, o Paulinho e eu fomos com o querido percussionista, numa tremenda ressaca, tomar um ar, andando pelo  Malecón. Rua vazia, a gente resolve atravessar pro outro lado. E o percussionista vem atrás, meio murcho, devagar, devagarinho.

Eis então que surge, não se sabe de onde, zimpando, um daqueles Packard 54,  comuns na cidade,  e tira um fino do percusionista, quase lhe arrancando um tasco da nádega esquerda.  Vendo aquilo os três gritamos uma malcriação qualquer pro cubano apressado. Que para surpresa nossa responde, gritando, já meio distante: — Ván tomar en el culo!!!

Paulinho, surpreso, olha pra mim, como que buscando apoio, dirige-se ao nosso amigo percussionista e dispara: “Pô, Ovídio! Essse texto é teu! Tu tem que processar esse cara! Eu e Nei podemos fazer isso pra você…” (Nei Lopes, agosto, 2006)