Um hino pro Comendador

Cláudio Jorge
O Botafogo, independente da maré, como deve ser, está sempre tirando onda. Agora o Seedorf é nosso, e da mulher brasileira dele. Como costuma brincar o meu amigo Baiano, a torcida botafoguense é diferenciada, acostumada a torcer nos jogos lendo Shakespeare e ouvindo Debussy. Agora, traz um jogador afrodescendente holandês para brilhar no Engenhāo.
O Comendador Albuquerque era uma figuraça torcendo pelo Glorioso. Xingava todos os jogadores e o humor pessimista em relaçāo aos caminhos do time era de rolar de rir. Fico imaginando as piadas que ele faria com essa vinda do Seedorf estando o time do jeito que está. Louco Abreu subiu no telhado e por aí vai.
Gostaria que ele estivesse aqui neste momento do Rio de Janeiro, Patrimônio da Humanidade, com ele, nascido e criado na zona sul e tendo feito tanta coisa legal pela cultura da cidade. Mas essa versāo que fiz do hino do Botafogo para comemorar a chegada so Seedorf ele vai dar um jeito de ouvir…

Nesta foto colorida e alvinegra, da esquerda para a direita: Walter Alfaiate, Nilton Santos, Alfredinho Bip Bip, Paulinho Albuquerque, Paulo Aragāo, Célia Vaz e Paulinho da Aba. O fotógrafo é o Cláudio Jorge.

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Amor em Preto e Branco

Helio de la Peña

Marcelinho Moreira já foi personagem de histórias aqui no blog do Comendador. Agora está de volta pra falar de uma faixa que acaba de gravar para o seu novo CD “FÉ NO BATUQUE”. A música “Amor em Preto e Branco” criada por ele e Claudio Jorge, reuniu uma seleção de botafoguenses no estúdio. Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Regina Casé e este que vos escreve. Curiosamente a produção foi comandada por um rubro-negro. Arlindo Cruz recebeu o espírito de Paulinho Albuquerque. Nosso comendador tinha o plano de produzir o CD do Marcelinho, mas o tempo impediu que o sonho se concretizasse. Bom, o resto dessa história é melhor deixar o próprio Marcelinho contar…

Vejam (e ouçam) como ficou a faixa “Amor em Preto e Branco”:

Herança genética botafoguense

Nesta foto alvinegra, em preto em branco, vemos Paulo Medeiros, o pai do Paulinho Albuquerque, levando um papo com Heleno de Freitas e outros dois atletas botafoguenses.

Zuza Homem de Mello tem mais alguma coisa a dizer sobre essa foto…
” A foto foi feita provavelmente em Buenos Aires quando Heleno jogava no Boca Juniors.
O jogador entre Heleno e o pai do Paulinho é Yeso Amalfi, que jogava no meu tricolor São Paulo Futebol Clube. Por incrível que pareça Yeso não era titular, o titular era o argentino Antonio Sastre que deixou um rastro de saudade em sua época do SPFC. Yeso era o meia direita do time reserva, que também tinha o paraguaio Barrios na ponta direita. Era um timaço embora reserva.
Tanto que Yeso foi para o exterior e nunca mais voltou a jogar no São Paulo. De Heleno temos incontáveis histórias. Foi um de meus ídolos embora nunca o tenha visto em campo. O outro carioca também meu ídolo foi Zizinho que deu uma campeonato ao S. Paulo (57). Fiz questão de conhecê-lo pessoalmente em sua casa em Niteroi. Fomos Jairo Severiano e eu, passamos uma tarde inesquecível. Na parede atrás de sua cama, no quarto de dormir, havia a flâmula do clube do seu coração. Flamengo? Nada disso. São Paulo Futebol Clube.”

Três vascos, um botafogo e um príncipe

O Guinga gosta de lembrar este episódio…

“Uma vez o Paulinho Albuquerque me convidou pra participar de um CD do Nei Lopes, mas ele não me explicou muito bem que ia ter um monte de participações especiais…O CD era aquele “De Letra e Música”. Ele marcou comigo às 9 da manhã no estúdio. Naquele tempo eu ainda tinha meu consutório de dentista, e antes de ir pro estúdio ainda atendi dois clientes…Aí cheguei lá e percebi que o Paulinho tinha armado uma recepção especial, uma surpresa pra mim…Dei logo de cara com dois grandes vascaínos: Martinho da Vila e  Nei Lopes. E de quebra um bofoguense ilustre: Zeca Pagodinho. E o Zeca eu ainda não conhecia pessoalmente. Naquela hora da manhã os três já estavam calibrados…E e o Zeca já foi falando comigo como se nós fossemos velhos conhecidos:

– Ô Guinga, tu que é de Madureira, lembra aí o nome daquele corte de cabelo que o pai da gente mandava o barbeiro fazer…Como era mesmo?

E eu respondi logo:

– Príncipe Danilo!

E o Pagodinho ficou animadíssimo com a lembrança.

– Príncipe Danilo! É isso aí!… Do caralho! Do caralho!

E o Paulinho ali do lado, só rindo…”

E agora, ouçam aí a participação especial que o Guinga fez no disco do Nei Lopes. A música é Sonho de Uma Noite de Verão, de Reginaldo Bessa e Nei Lopes. Guinga entrou com arranjo, violão e voz. O outro violão é do Lula Galvão, o baixo é do Jorge Helder e, na percussão, temos Ovidio Brito, Armando Marçal e Marcelinho Moreira. O CD é de 2000 e se chama De Letra e Música. Som na caixa…

Botafogo em primeiro lugar

Vivi Fernandes de Lima

Retrato do botafoguense quando jovem

Ele era botafoguense e eu, flamenguista. Por isso, ficava muito incomodado com a minha presença na sala quando tinha jogo do Botafogo. Um dia, durante uma partida que estava zero a zero, fui ao banheiro no meio do segundo tempo. E enquanto eu estava lá, pra minha desgraça, o Botafogo fez um gol. Paulo comemorou aos berros, como de costume, mas acrescentou uma frase que me deixou um pouco – digamos assim – envergonhada no edifício:

– Vivi, caga mais! Caga mais!

A obsessão pelo time nasceu ainda quando ele era bem pequeno. A primeira vez que Paulo foi ao Maracanã assistir a um jogo do Botafogo estava acompanhado do pai e do então presidente do clube, Carlito Rocha. Ele devia ter uns sete anos. Era um dia frio e por isso estava vestido com um suéter. Paulo entrou no campo com o time e deu sorte: o Botafogo venceu a partida. Ficou combinado então que o trio assistiria ao próximo jogo juntos, obedecendo a tradição supersticiosa do presidente dos botafoguenses.

No fim de semana seguinte, num sol de rachar, Carlito foi buscar Paulo e o pai, como combinado. Quando viu o menino, gritou:

– Cadê o suéter?

O pai respondeu que  estava calor, mas foi rapidamente convencido a vestir o agasalho no filho, que assistiu aos dois tempos do jogo suando sob a roupa de lã. O Botafogo venceu de novo e por algum tempo Paulo continuou entrando em campo com os jogadores com suéter. Ele contava isso, claro, com o maior orgulho.

O Jogo

Com Paulinho, comemorando o Campeonato Brasileiro de 95.

Zé Renato

Falar sobre o Paulinho ainda é uma grande dificuldade, a ficha até hoje não caiu. Por exemplo, toda vez que tenho alguma idéia de novo trabalho a primeira coisa que me vem à cabeça é querer ligar pra ele, às vezes até torcendo pro mordomo atender e dar umas risadas. Fico sempre imaginando o que ele acharia a respeito, críticas, elogios, sacanagens, tudo vindo dele era pra se levar em consideração. Era um amigo daqueles que a gente sente falta todo dia em qualquer circunstância.

Além do gosto musical compartilhávamos também das alegrias e tristezas de ser botafoguense. Uma vez, no tempo que o time ainda penava na segundona, combinamos de ir ao Caio Martins para ver o clássico Botafogo x Marília que seria no meio da semana, com Claudio Jorge e Pedro. No dia do jogo, chovendo canivete, cheguei no final da tarde para buscá-los no apartamento do Jardim Botânico. Depois de algumas buzinadas todos desceram  e foram se acomodando, já semi ensopados apenas do curto trajeto entre a portaria e o carro (imaginem vocês o toró) e partimos em direção ao Rebouças. Na Lagoa, como era de se esperar, demos de cara com um engarrafamento colossal, o que arrefeceu consideravelmente nossa disposição. Após alguns minutos parados no trânsito, todos se entreolharam e chegamos à conclusão de que o melhor mesmo era abortar a missão Caio Martins e partir para algum botequim que estivesse transmitindo o jogo pela televisão. Bom, resumindo a história, pouco depois de estarmos sentados confortavelmente, cercados de algumas louras geladas, o telefone do Paulinho tocou. Era Vivi avisando que estava indo pra maternidade, onde poucas horas depois João daria o ar da sua graça.

Dois lances do Paulinho

O Paulinho parece que está pensando: “O Aldir é grande pra caramba! Se tiver que sair na porrada a gente se garante…”


Aldir Blanc

1. Fomos a um jogo Vasco X Flu. Paulinho, botafoguense, preocupava-se comigo, que estava bem de porre, com um retrato do lateral Orlando Lelé grudado no peito. Fomos de cadeira cativa. Uns tricolores logo atrás começaram a xingar o Vasco com palavrões cabeludíssimos. Reagi com meu estoque Estácio de ofensas raras. No intervalo, houve um começo de confronto e notamos, chocados, que éramos dois, e os caras, sem sacanagem, uns doze. Paulinho me disse: “Calma. Fui da Miguel Lemos e aprendi judô. O segredo é usar o próprio impulso  dos caras contra eles…”. Fizemos isso e apanhamos pra cacete. Paulinho, é claro, não perdeu a pose e deu várias explicações “técnicas” para a nossa acachapante derrota.

2. Paulinho ia nas gravações dos primeiros Lps do João Bosco, numa galeria em frente à Praça Arco Verde. Gostávamos do local porque havia ao lado uma espécie de centro cultural de inglês, no qual Paulinho apanhava tesouros como W.H. Auden dizendo os próprios poemas, etc. Também havia, na tal galeria, a maior concentração de manicures gostosas do planeta. Algumas até foram convidadas  para “fotos artísticas” no ateliê do Mello Menezes… Um dia, estamos lá na galeria tomando cerveja (durante a gravação de “Galos de Briga”) e um bicão invade a nossa conversa sobre Haroldo Barbosa, que adorávamos. Em tabelinha intuitiva, inventamos que Haroldo havia feito “Luminosa Manhã” apaixonadíssimo, no fim da vida, para uma certa jovem, um amor impossível… Um ano antes de Paulinho morrer – ou seja, uns 30 ANOS DEPOIS – fomos à inauguração de uma casa noturna. O Mello, de porre, estava encerrando a noitada com sua soberba interpretação de “Luminosa Manhã”, quando um cara encosta e detona: “Essa música tem uma história linda. O Haroldo Barbosa estava apaixonado por uma jovem, um amor impossível e…” Paulinho e eu rimos de chorar.

Paulinho e Aldir no momento em que inventaram o Sanduíche de Djavan.