O festival está aí…e o Comendador também

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Sempre que acontece um Brasil Jazz Fest a turma do jazz se lembra de Paulinho Albuquerque. Ele, junto com as irmãs Gardenberg, Zé Nogueira e Zuza Homem de Mello,  ajudou a criar esse evento que já está aí há 31 anos (no começo se chamava Free Jazz Festival, depois teve outros nomes e patrocinadores…e hoje é a Rede que não deixa a peteca cair). Se você quiser saber mais sobre a história do festival, além de rever e re-ouvir momentos incríveis, é só procurar nessa coluna aí ao lado, com as palavrinhas vermelhas, e clicar nas palavras-chave: jazz, festival, Free Jazz, etc… Boa viagem!

Amizade transparente

Vídeo

Sempre é bom ficar perambulando pelos posts deste blog do Comendador para lembrar a figuraça que foi Paulinho Albuquerque. Todos os dias Paulinho é lembrado por algum dos muitos artistas que trabalharam com ele. E agora é a vez de Fátima Guedes, que está lançando Transparente, um disco todo em homenagem ao cara…Vejam este pequeno documentário e confiram. É uma homenagem de responsa. Olha aí o time que a Fátima conseguiu reunir. Só tem craque e, entre os craques, um monte de amigos do Comendador…

 

Pacto sinistro

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Paulinho Albuquerque produziu vários discos e dirigiu vários shows da Fátima Guedes e, durante esse tempo todo, eles mantinham um pacto sinistro: cada vez que um fosse fazer uma viagem tinha que trazer um presente pro outro. Mas não podia ser qualquer presente. Tinha que ser uma coisa estranha, insólita, bizarra…escova sereia 2015-09-02 23.14.30

Muitos desses presentes se perderam na noite dos tempos mas a nossa reportagem conseguiu localizar algumas dessas peças. Estão aqui, por exemplo, alguns presentes que Paulinho ofereceu para Fátima: uma escultura de tartaruga com conchas do mar da Flórida, uma escova de cabelos em forma de sereia, uns brincos em forma de caralhinhos fluorescentes, que brilhavam no escuro, comprados numa sex-shop em Nova de paulinho para fátima_oOrleans…

E a Fátima ofertou para o Comendador, entre outras coisas esquisitas, uma estátua de sereia que é uma maravilha…Esse, aliás, foi o último presente da lista. Com essa sereia, Fátima Guedes venceu a disputa. Paulinho disse que depois dessa ele não conseguiria revidar à altura e pediu arrego.

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Com vocês, Fátima Guedes, Guinga e Aldir Blanc…

Aqui fala o DJ Reinaldo e vamos ouvir agora mais uma faixa de um disco produzido pelo Paulinho Albuquerque. No caso, é uma faixa do CD  Grande Tempo, da Fátima Guedes, gravado em 1995. A música é O Côco do Côco, uma parceria de Guinga e Aldir Blanc. É uma espécie de música de utilidade pública, na área da consultoria sexual popular…A turma que acompanha a Fátima, como sempre acontecia nos discos feitos pelo Comendador, é do primeiro time: Guinga no violão, Lula Galvão no violão e cavaquinho, Carlos Malta no piccolo e Marcos Suzano na percussão. Som na caixa…

Com vocês, Bagulhobom…

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Meus amigos, vocês vão ver e ouvir agora uma produção que o Paulinho Albuquerque não fez mas adoraria ter feito: uma faixa do Bagulhobom, um novo quarteto que está aí na área. O papo é sério e o bagulho é ótimo. É música instrumental brasileira da boa… Cláudio Jorge, Ivan Machado, Leonardo Amuedo e Marcelinho Moreira trabalharam com Paulinho Albuquerque e conheceram bem a figura. Olha aí o que eles têm a dizer:

O Bagulhobom é filho do Paulinho e da Vivi. Nasceu algum tempo depois que ele foi embora mas nós sabemos que ele tá nessa também. A Vivi criou e agitou toda a parada. Ela conhece bem agora os caminhos a seguir. Paulinho trabalhava sempre com muita paixão, seriedade, alegria e respeito pela música e pelos músicos. A Vivi tá seguindo com a mesma levada e ainda com um toque feminino que o Paulinho, claro, não tinha, rsrs… Viva o Paulinho e salve a Vivi.  (Ivan Machado)

Acho que o Paulinho ia falar pra mim assim:  “Você aprendeu a tocar samba assim no Uruguai? …Essa merda (o Uruguai, é claro) está pendurada no Brasil e nāo cai, porra!” Hahahahah…Isso para mim vindo dele era um elogio, é claro… (Leonardo Amuedo)

O Comendador Albuquerque já deve estar produzindo nosso primeiro disco lá de cima e desenhando a luz do show também. Acho que tudo que a gente for fazer vai ter uma forte inspiração nele. Agora, se ele estivesse por aqui iria estar pegando no pé de todo mundo, da Vivi aos técnicos de gravação. Uma coisa que ele provavelmente diria é que esse conjunto tem tudo pra nāo dar certo. Só tem botafoguense e um uruguaio representando o Loco Abreu. Bem do jeito que ele costumava sacanear o time do coração. (Cláudio Jorge)

É… Com certeza o Bagulho é coisa do Paulinho e se é dele, é bom!!! Paulinho sempre plantou coisa boa porque sempre prezou a música e o talento. O fato de sermos o “BAGULHOBOM” não quer necessariamente dizer que sejamos os mais musicais ou os mais talentosos mas certamente somos amigos colhidos dessa fértil plantação do Comendador e hoje estamos sendo regados por ele através da Vivi.

O Bagulho será distribuído para que seja experimentado por muitos pois o Paulinho não se limitava ao seu metro quadrado, ele sempre se expandia e se misturava pra mostrar que pra música não existem fronteiras.

Por outro lado, acho que seu alto grau de exigência, também o faria dizer que o nome até pode ser Bagulho mas que pra ser Bom teria que esperar um pouco…. Kkkkkkkkk. E esse tipo de coisa era ótima, pois mexia com nossos brios e funcionava como a “cenourinha” que nos fazia correr mais e mais em direção ao melhor.

Hoje estamos aqui, o Bagulho é nosso mas é pelo Paulinho. Afinal, é um lance de amizade, musicalidade e verdade. Cada um com a sua mas que no final se torna uma coisa só. Foi isso que vivemos em vida com o Paulinho Albuquerque e agora não pode ser diferente. (Marcelinho Moreira)

Grandes nomes da MPB

A galera que vive no mundo da música, em shows, gravações e ensaios acaba desenvolvendo uma linguagem própria, um jargão, um jeito de falar. E uma das coisas mais engraçadas é essa mania de transformar os nomes dos músicos em apelidos trocadilhescos e absurdos. Paulinho Albuquerque era um que gostava dessa brincadeira…No Dia Internacional do Jazz nós publicamos aqui alguns dos grandes nomes do jazz. E agora vamos continuar nessa praia, lembrando  grandes nomes da MPB… grandes nomes _MPB_web

 

Nosso amigo Paulinho

Zuza Homem de Mello

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Paulinho Albuquerque no Jazz Fest de New Orleans. Feliz como pinto no lixo…

Paulinho não era tão fissurado em New York como eu. Sua atividade ligada à obra de Ivan Lins, possivelmente também a amizade com nosso tão querido Oscar Castro Neves y otras cositas que não sei quais eram, levavam-no constantemente a Los Angeles. Gostava do Jazz da West Coast embora admirasse muito o da costa leste. Significa: Él-êi (L.A.) contra Ên-uai (N.Y.). Quer dizer cool contra hard bop. Quer dizer branco contra negro. Quer dizer good manners  contra “Neeeext!”. Talvez até Brubeck contra Monk, Stan Kenton versus Duke Ellington, ou Chet Baker X Clifford Brown.

Nunca tentei convencê-lo, mas sempre cutuquei-o para conhecer o festival de New Orleans, onde já tinha ido algumas vezes. Onde fiquei sabendo sobre o Professor Longhair e James Booker, pianistas que eu próprio não conhecia apesar de ter morado e viajado tantas vezes a New York. Em New Orleans entendi o piano rude e suingado que só lá existia.

Atrevo-me a supor que foi desde a sua primeira ida ao festival de Jazz de New Orleans que Paulinho entrou fundo nas raízes, na história e na verdade do jazz.

Sinceramente achava que meu querido amigo, que eu respeitava como quem encontrava na música o que a maioria não percebia, tinha essa lacuna. Porque ele era também um cara muito ligado ao samba, e quem é ligado ao samba, evidentemente vai se dar bem em New Orleans, a raiz. Por exemplo, quem quer estudar o samba vai para o Rio ou para a Bahia, não vem pra São Paulo…E eu sempre falava com ele: “Paulinho, você tem que ir é pra  New Orleans…Lá em Los Angeles não tem muito a ver…”

Um dia, finalmente o Paulinho foi para New Orleans. Fomos juntos. E ele simplesmente adorou. Acho que aquilo abriu o horizonte dele para as raízes do jazz.

Paulinho e Zuza.

Paulinho e Zuza.

Era o festival , o New Orleans Jazz & Heritage Festival, mas que lá todo mundo só chama de ”Jazz Fest”. É maravilhoso. Centenas de shows em dois fins de semana, com um intervalo no meio, entre o fim de abril e o começo de maio. O festival acontece no hipódromo da cidade. Os shows começam às 11 da manhã e vão até 7 da noite. Em cinco ou seis palcos diferentes, tudo acontece naquela parte interna do hipódromo, que na linguagem turfística se chama “peão do prado”. E você fica circulando por ali. Além dos palcos, tem barracas com comidas típicas fortes e apimentadas da rica culinária da Louisiana. Tem objetos, peças de roupa, artesanato da NOLA (abreviatura de New Orleans Louisiana), uma feira monstra. A música do festival abrange vários estilos: blues, zydeco, gospel, jazz moderno, jazz tradicional, tem de tudo. Você escolhe um palco ou fica vendo o pedaço de um show e pula para assistir o pedaço de outro. Paulinho ficou completamente alucinado. Não só pelo festival e música, mas também pela cidade, pela comida. Lá é tudo muito original. Isso sem falar na maneira simpática e afável com que o pessoal trata todo mundo. A gente se divertia muito, trocava ideias, conhecia novos músicos, pois Paulinho era muito sociável quando o assunto era música. Em três tempos já estava íntimo pois falando inglês fluentemente comunicava-se com facilidade.

Nós ficamos amigos de alguns radialistas de New Orleans, demos entrevista para a principal rádio de lá, a WWOZ, falando sobre música brasileira, Hermeto Pascoal e essa turma toda, que, naquele tempo, ainda não tinham participado do festival. Aliás nessa época nem havia músico brasileiro no Jazz Fest. Depois mudou.

Paulinho hospedava-se no apartamento de um amigo e nos dias de folga do Jazz Fest eu ia buscá-lo de carro para cairmos fora do French Quarter, de onde praticamente não saíamos. Paulinho adorava comprar camisas na Old Navy, uma ótima loja de roupa nada cara, num shopping no caminho do aeroporto. Tornou-se fiel freguês anual da Old Navy pois era intrinsecamente um cara fiel, fidelíssimo.

E New Orleans não era só o festival. Depois do último show íamos de ônibus com todo mundo comentando sobre o que viu, aí cada um pegava uma chuveirada, dava uma deitadinha e voltava para a batalha. Depois do jantar a gente ia conferir os clubes de jazz da cidade, ver as novidades.

Jantávamos sempre juntos e eu indiquei a ele alguns lugares interessantes. Com o tempo, uns 3 ou 4 restaurantes acabaram sendo os nossos preferidos, principalmente o Ralph & Cakoo’s, os frutos do mar no bagunçado Acme Oyster. Paulinho também permaneceu fiel a todos eles, Old New Orleans Cookery, e steak houses deliciosos, o Galatoire’s e o nosso preferido, Dickie Brennan’s.

Me lembro também que comemos muitas vezes o sanduíche típico da cidade, que é o Po’ Boy (corruptela de poor boy, “garoto pobre”). É um sanduichão enorme de pernil com agregados, cebola, tomate, o diabo. Quem não conhece pede um e pensa que vai dar conta, aí vem aquele monstro e você não sabe por onde começar. Para o Paulinho era mole, dava conta de um po’ boy tranquilamente. Pra abastecer aquele corpanzil precisava bastante bateria, bem mais que eu pelo menos.

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Era um papo maravilhoso. Certa vez veio passar um fim de semana em nossa casa de Indaiatuba. Ercilia e eu ficávamos horas ouvindo as histórias que ele emendava uma na outra. A gente se entendia muito bem e ele era muito inteligente, sensível e convicto nas suas opções. Quando não gostava de alguma coisa, lascava logo de primeira. Acho isso uma qualidade, também sou assim: quando não gosto não tenho meias tintas, vai tudo no embrulho, às vezes até peco pelo excesso, mas é uma opinião autêntica. Paulinho mandava ver e às vezes criava um branco na roda. Não ligava a mínima. Xingava e se fosse preciso repetia tudo. Apesar dessa franqueza toda, o Paulinho sempre se dava bem com todo mundo.

Foi um cara inesquecível, um amigo que perdemos de repente e nos deixou arrasados. Não dava para acreditar quando o Zé Nogueira me contou pelo telefone. No dia seguinte fui para o velório no Rio, lá estava o Paulinho imóvel com a camisa do seu querido Botafogo. No fundo do peito cada um de nós sentia um ritmo batendo forte vindo daquele coração imóvel e silencioso.

Paulinho continua falando conosco diariamente. Basta olhar sua foto à minha frente, na mesa de trabalho. Penso comigo: você concorda Paulinho? E ele: manda ver.