Com vocês, Bagulhobom…

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Meus amigos, vocês vão ver e ouvir agora uma produção que o Paulinho Albuquerque não fez mas adoraria ter feito: uma faixa do Bagulhobom, um novo quarteto que está aí na área. O papo é sério e o bagulho é ótimo. É música instrumental brasileira da boa… Cláudio Jorge, Ivan Machado, Leonardo Amuedo e Marcelinho Moreira trabalharam com Paulinho Albuquerque e conheceram bem a figura. Olha aí o que eles têm a dizer:

O Bagulhobom é filho do Paulinho e da Vivi. Nasceu algum tempo depois que ele foi embora mas nós sabemos que ele tá nessa também. A Vivi criou e agitou toda a parada. Ela conhece bem agora os caminhos a seguir. Paulinho trabalhava sempre com muita paixão, seriedade, alegria e respeito pela música e pelos músicos. A Vivi tá seguindo com a mesma levada e ainda com um toque feminino que o Paulinho, claro, não tinha, rsrs… Viva o Paulinho e salve a Vivi.  (Ivan Machado)

Acho que o Paulinho ia falar pra mim assim:  “Você aprendeu a tocar samba assim no Uruguai? …Essa merda (o Uruguai, é claro) está pendurada no Brasil e nāo cai, porra!” Hahahahah…Isso para mim vindo dele era um elogio, é claro… (Leonardo Amuedo)

O Comendador Albuquerque já deve estar produzindo nosso primeiro disco lá de cima e desenhando a luz do show também. Acho que tudo que a gente for fazer vai ter uma forte inspiração nele. Agora, se ele estivesse por aqui iria estar pegando no pé de todo mundo, da Vivi aos técnicos de gravação. Uma coisa que ele provavelmente diria é que esse conjunto tem tudo pra nāo dar certo. Só tem botafoguense e um uruguaio representando o Loco Abreu. Bem do jeito que ele costumava sacanear o time do coração. (Cláudio Jorge)

É… Com certeza o Bagulho é coisa do Paulinho e se é dele, é bom!!! Paulinho sempre plantou coisa boa porque sempre prezou a música e o talento. O fato de sermos o “BAGULHOBOM” não quer necessariamente dizer que sejamos os mais musicais ou os mais talentosos mas certamente somos amigos colhidos dessa fértil plantação do Comendador e hoje estamos sendo regados por ele através da Vivi.

O Bagulho será distribuído para que seja experimentado por muitos pois o Paulinho não se limitava ao seu metro quadrado, ele sempre se expandia e se misturava pra mostrar que pra música não existem fronteiras.

Por outro lado, acho que seu alto grau de exigência, também o faria dizer que o nome até pode ser Bagulho mas que pra ser Bom teria que esperar um pouco…. Kkkkkkkkk. E esse tipo de coisa era ótima, pois mexia com nossos brios e funcionava como a “cenourinha” que nos fazia correr mais e mais em direção ao melhor.

Hoje estamos aqui, o Bagulho é nosso mas é pelo Paulinho. Afinal, é um lance de amizade, musicalidade e verdade. Cada um com a sua mas que no final se torna uma coisa só. Foi isso que vivemos em vida com o Paulinho Albuquerque e agora não pode ser diferente. (Marcelinho Moreira)

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O Teste do Jazzômetro

Paulinho Albuquerque, como produtor do Free Jazz Festival, do Tim Festival e de um monte de outros shows, aplicava constantemente o Teste do Jazzômetro…

Reinaldo

Depois de muito refletir, resolvi tomar uma atitude impensada e meter a  colher num assunto espinhoso.Vou tentar responder aquela famosa pergunta: “Afinal, o que é jazz?”.

O pianista Herbie Hancock tem uma frase muito boa: ” O jazz é uma coisa difícil de definir mas muito fácil de identificar”. Acho que é por aí. Nós, os ouvintes, usamos automaticamente uma coisa que vou chamar de Teste do Jazzômetro. Funciona assim: você ouve uma música e logo começa a medir seu nível de jazzificação, isto é, observa se ali existe um alto índice de surpresa e avalia se o músico ou cantor usa muita ou pouca liberdade naquela interpretação. Na música clássica, por exemplo, está tudo escrito na partitura. Na música pop, em geral o público espera que o cantor reproduza a música exatamente do mesmo jeito que foi gravada no CD. Quer dizer, nesses casos não existe muito espaço para improviso e invenção na hora da interpretação. No jazz, cada vez que uma música é tocada ela pode sair de um jeito, e ninguém sabe o que pode acontecer.O baterista ou o baixista podem mudar de repente o andamento ou a levada, o guitarrista ou o pianista podem fazer um solo de um jeito  inesperado, encaixar uma citação de uma outra música, ou emendar uma música na outra, numa espécie de mixagem instantânea.

Para essa parada ficar mais clara, vamos fazer aqui o Teste do Jazzômetro com duas cantoras bem conhecidas. Uma é a Norah Jones, que lançou alguns CDs por um selo de jazz, o Blue Note Records, e por isso foi etiquetada como cantora de jazz. A outra é a Diana Krall. Por acaso, as duas cantam e tocam piano.

No Teste do Jazzômetro a interpretação da Diana atinge índices mais altos de jazzificação, tanto na maneira de cantar quanto no jeito de tocar piano.Vejam bem: o teste não é pra descobrir quem é a melhor cantora. As duas são boas, mas a Norah não passou no teste. E provavelmente ela nem faz questão de ser conhecida como cantora e pianista de jazz. Já a Diana, apesar de parecer só uma louraça que canta standards e bossa-nova, fez realmente fez o dever de casa. E fez o dever literalmente: estudou com o pianista Jimmy Rowles e com o baixista Ray Brown, que foi seu descobridor e mentor. Eles, e outros caras, como o baixista John Clayton e o baterista Jeff Hamilton é que são os ídolos da Diana. Tudo bem, ela se casou com o Elvis Costello, mas isso é outra história. O que importa é que ela passou no Teste do Jazzômetro principalmente por causa de suas performances ao vivo, improvisando e se relacionando perfeitamente com o baixista e o baterista. Se o Elvis Costello fica com ciúmes eu não sei, isso é outra história…

Outra que foi parada recentemente para fazer o Teste do Jazzômetro é a cantora e baixista Esperanza Spalding. Seu mais recente CD, “Radio Music Society”, para os ouvidos de um jazzófilo ortodoxo pode parecer apenas  um disco de música pop. Mas, no Teste do Jazzômetro, registrou alto nível de jazzificação. É bom lembrar que o teste não pode se deixar influenciar pelas aparências, pela roupa ou penteado do intérprete. O que interessa é o som e, de preferência, o som ao vivo. O jazz não é um ritmo, é um jeito de encarar a música. Pode acontecer no swing de New Orleans ou de New York, mas pode vir também em outras embalagens: em forma de samba, baião, bolero, funk ou reggae. Pode estar no bandolim do Hamilton de Holanda, na gaita do Maurício Einhorn e até no acordeon do Dominguinhos. O jazz está por aí. É só fazer o teste…

(artigo publicado na Revista de Domingo do Globo, em 01/07/ 2012)