Mais duas imagens

A parada é a seguinte: mais duas imagens acabam de entrar para o acervo do blog do Comendador. Uma delas é de 1990, feita pelo fotógrafo Bruno Veiga, durante uma reunião de planejamento para o primeiro disco do Guinga, Simples e Absurdo. Esta foto também está na biografia do Guinga (O Compositor que Perpetua o Tempo, de Mario Marques).

Infelizmente ninguém se lembra o motivo dessa risada tão boa, mas era sempre assim: bom humor nunca faltou nos trabalhos com Paulinho Albuquerque. Por falar em humor, naquela prateleira ali atrás tem várias fitas VHS com programas de TV do grupo Monty Python, que ele adorava.

Outra coisa: na época, Paulinho estava com a mobília bucal desfalcada, passando por um tratamento dentário que seria finalizado pouco tempo depois. Mas o dentista responsável não foi o Dr. Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, que estava ali presente apenas na função de Guinga, compositor e violonista no início de uma carreira de sucesso.

A outra foto foi feita em 2001, por um fotógrafo ainda não identificado. O ambiente é o mesmo, o aposento que Paulinho chamava de “o quarto do som”. Na parede, fotos de grandes nomes da música: Djavan, Milton Nascimento com Sarah Vaughan e João Bosco, Clementina de Jesus com Turíbio Santos, Fátima Guedes, Tom Jobim descansando e Gilberto Gil no atabaque. Paulinho com Djavan e Aldir Blanc, Luiz Gonzaga e Vinícius de Moraes…Nesta foto, Paulinho Albuquerque achava que tinha ficado parecido com o Vinícius de Moraes, que está ali ao lado. Alíás, Vinícius era o “Poetinha”, e Paulo Albuquerque era o “Paulinho”. Tinham em comum esse diminutivo carinhoso. Mas eram grandes figuraças, tipo extra-extra-large.

30 de abril é o dia!

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Paulinho Albuquerque, um dos criadores do Free Jazz Festival e curador desse e de outros festivais, trabalhou e conviveu com muitos dos melhores músicos de jazz do mundo. E neste 30 de abril, Dia Internacional do Jazz, o blog dá um toque sobre essa ligação do Comendador com o mundo do jazz.

Para ilustrar essa parada, temos aí embaixo o link para o vídeo do show Tributo a Jobim, que aconteceu no Free Jazz de 1993. Paulinho participou da bolação dessa homenagem, junto com Monique Gardenberg, Zé Nogueira e Zuza Homem de Mello. E depois, ele foi o diretor geral da coisa toda. Herbie Hancock era o diretor musical. A filmagem foi dirigida por Walter Salles Jr.  Participaram desse show, além de Herbie Hancock, o saxofonista Joe Henderson, o pianista Gonzalo Rubalcaba, a cantora Shirley Horn, o cantor Jon Hendricks, o contrabaixista Ron Carter, o baterista Harvey Mason e o percussionista Alex Acuña. O time brasileiro vinha com Oscar Castro Neves, Paulo Jobim, Gal Costa e o próprio Tom Jobim, homenageado de corpo presente.

Um dos momentos mais jazzísticos da noite foi a interpretação de O Grande Amor, de Tom e Vinícius, que começa lá pelos 18:30 minutos do primeiro tempo, com solos maravilhosos de Joe Henderson e Gonzalo Rubalcaba. E reparem na alegria e nos sorrisos dos dois violonistas, Oscar Castro Neves  e Paulo Jobim. Os caras estavam no céu, ali no meio daquelas feras fazendo aquele som todo.

A alguns metros dali, na beira do palco, apesar da tensão e da responsabilidade de ser o diretor-geral-da-porra-toda, o Comendador Albuquerque também estava com um sorriso desse tipo nos lábios.

As lições de Mestre Marsalis

João Máximo

Marsalis-Wynton_720x415A vinda de Wynton Marsalis para dar aulas de jazz em São Paulo é daquelas que fazem os moradores de outras cidades morrerem de inveja. Concertos comentados, ensaios abertos, palestras, workshops, aos cuidados de uma orquestra liderada por ele, músico que consegue ser, ao mesmo tempo, extraordinário trompetista e excelente professor.

A visita de Marsalis, para tocar e ensinar, nos remete a uma noite vivida por caravana musical brasileira em Havana, em maio de 2001. Em volta de uma mesa redonda, Paulinho Albuquerque, Nei Lopes, Cláudio Jorge, Mauro Dias e nós conversávamos sobre música, quando alguém mencionou “Jazz”, a admirável série produzida por Ken Burns que o GNT estava exibindo nas noites de segunda-feira.

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Zuza Homem de Mello, Cláudio Jorge, Paulinho Albuquerque e João Máximo, em Cuba, tramando altos planos…

 

Por que não se fazer no Brasil série igual sobre o samba? –– sugeriu alguém como se a provocar o espírito realizador de Paulinho Albuquerque. Deu certo: depois de alguma conversa, aprovou-se a ideia da série e a escolha do próprio Paulinho para levá-la adiante.

Foi então que sugerimos que o mestre de cerimônias de “Samba” fosse justamente o Nei Lopes. “Ele é o nosso Wynton Marsalis”, dissemos comparando-o ao trompetista que cumpria brilhantemente a missão na série de Burns.

O assunto não parou por ali. Com aquela energia que o levava a fazer coisas importantes na música (inclusive a produção des nossos melhores festivais de jazz), Paulinho Albuquerque seguiu em frente. Organizou várias reuniões, uma delas na casa de Nei em Seropédica. Chegou-se a pôr o projeto no papel e a gravar som e imagem com alguns entrevistados. Mas, infelizmente, o sonho de Paulinho morreu com ele cinco anos depois daquela noite em Havana.

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Em Cuba: o percussionista Ovídio Brito, o Comendador Albuquerque e Nei Lopes, o nosso Wynton.

A sugestão de Nei Lopes para ser o nosso Wynton Marsalis não se devia às respectivas bagagens musicais, Nei sambista de primeira, Marsalis virtuoso do jazz. Simplesmente, acreditava que a mesma contribuição que o americano dava ao estudo do jazz, mantendo-o intimamente ligado à história política e social dos negros na América, só alguém com a cultura de Nei sobre os negros do Brasil poderia dar ao samba.

É claro que era um posição no mínimo discutível. Por que questionar a cor da pele dos muitos críticos e historiadores que haviam estudado o samba e outras bossas de nossa música? Que diferença havia entre uns e outros? No caso do Brasil, pouca ou nenhuma. Mas, no caso americano, a participação de Marsalis em “Jazz” era a primeira vez que se sabia que os negros tinham mais a dizer sobre sua música.

Foi um dos encantos da série. Nós, que por aqui “aprendíamos” sobre jazz nos livros de intelectuais ingleses, franceses, alemães, suecos, latino-americanos e até japoneses, ficamos sabendo muito mais com o que Marsalis e outros estudiosos negros, como Albert Murray e Gerald Early, nos contavam em cada capítulo. Por exemplo: que o jazz era “a maneira indolor” de o negro americano se conhecer –– diz, logo o primeiro capítulo, o mestre de cerimônias de Burns.

Uma série brasileira sobre o samba jamais teria a dimensão da americana. A começar pelo rico material fotográfico que o produtor teve nas mãos. Ou pelos vários registros sonoros, raríssimos, que ouvimos na trilha sonora. Mas, com Nei Lopes no papel de Marsalis, poderíamos saber mais sobre os iorubanos da Cidade Nova e os bantos do Estácio de Sá, os verdadeiros criadores da mais brasileira das músicas.

Passados tantos anos, “Jazz” continua ao nosso alcance na coleção de DVDs lançada mundialmente, inclusive no Brasil. Mas “Samba”, como Paulinho Albuquerque, é só saudade.

(texto publicado no site G1, logo depois da temporada de Wynton Marsalis e sua orquestra em São Paulo, em junho de 2019)

 

Samba jazz, de raiz

Nesses tempos tumultuados, para variar um pouco, temos uma boa notícia: um dos mais ilustres membros da AMAPALBUCA, o grande Cláudio Jorge, acaba de lançar mais um disco autoral. Desta vez, o título é “Samba Jazz, de raiz”. A parada tem tudo a ver com o jeitão do Paulinho Albuquerque, um cara que, nas palavras de Cláudio Jorge, ” era um mestre na organização deste trânsito entre o samba e o jazz”.

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A obra existe no formato CD, mas também está nas plataformas digitais. Foi gravado e mixado por Rodrigo Lopes. As fotos são de Januário Garcia e Mariana Maiara. O projeto gráfico é de Felício Torres.

Sim, o disco do Cláudio é um autêntico disco de samba, mas com um molho especial e participações de grandes instrumentistas como, por exemplo,  Leonardo Amoedo, Itamar Assiere, Zé Luiz Maia, Wilson das Neves, Humberto Araújo, Ivan Lins, Ivan Machado, Camilo Mariano, Fernando Merlino, Kiko Horta, Dirceu Leite, Frejat, Peninha, Victor Neto, Walter D’Ávila, Cacau D’Ávila, Luis Filipe de Lima e Marcelinho Moreira, todos fazendo tabelinha com o dono da bola, o violonista e guitarrista Cláudio Jorge.

Para abrir o apetite, aqui estão duas das quinze faixas do disco, a primeira e a última. A primeira, “Samba Jazz, de raiz” dá o tom da coisa toda e contém um belo solo do guitarrista Cláudio Jorge. A última, “Você pra mim, eu sou pra você” é uma parceria do Cláudio com Ivan Lins e conta com o piano do Ivan e a incomparável voz da Fátima Guedes. De quebra, lá no fim da faixa, tem uma participação especial do locutor que vos fala, fazendo o papel de locutor da Rádio Paulinho Albuquerque, uma emissora que, infelizmente, só existe nos sonhos do Cláudio Jorge.

Com vocês, Bagulhobom…

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Meus amigos, vocês vão ver e ouvir agora uma produção que o Paulinho Albuquerque não fez mas adoraria ter feito: uma faixa do Bagulhobom, um novo quarteto que está aí na área. O papo é sério e o bagulho é ótimo. É música instrumental brasileira da boa… Cláudio Jorge, Ivan Machado, Leonardo Amuedo e Marcelinho Moreira trabalharam com Paulinho Albuquerque e conheceram bem a figura. Olha aí o que eles têm a dizer:

O Bagulhobom é filho do Paulinho e da Vivi. Nasceu algum tempo depois que ele foi embora mas nós sabemos que ele tá nessa também. A Vivi criou e agitou toda a parada. Ela conhece bem agora os caminhos a seguir. Paulinho trabalhava sempre com muita paixão, seriedade, alegria e respeito pela música e pelos músicos. A Vivi tá seguindo com a mesma levada e ainda com um toque feminino que o Paulinho, claro, não tinha, rsrs… Viva o Paulinho e salve a Vivi.  (Ivan Machado)

Acho que o Paulinho ia falar pra mim assim:  “Você aprendeu a tocar samba assim no Uruguai? …Essa merda (o Uruguai, é claro) está pendurada no Brasil e nāo cai, porra!” Hahahahah…Isso para mim vindo dele era um elogio, é claro… (Leonardo Amuedo)

O Comendador Albuquerque já deve estar produzindo nosso primeiro disco lá de cima e desenhando a luz do show também. Acho que tudo que a gente for fazer vai ter uma forte inspiração nele. Agora, se ele estivesse por aqui iria estar pegando no pé de todo mundo, da Vivi aos técnicos de gravação. Uma coisa que ele provavelmente diria é que esse conjunto tem tudo pra nāo dar certo. Só tem botafoguense e um uruguaio representando o Loco Abreu. Bem do jeito que ele costumava sacanear o time do coração. (Cláudio Jorge)

É… Com certeza o Bagulho é coisa do Paulinho e se é dele, é bom!!! Paulinho sempre plantou coisa boa porque sempre prezou a música e o talento. O fato de sermos o “BAGULHOBOM” não quer necessariamente dizer que sejamos os mais musicais ou os mais talentosos mas certamente somos amigos colhidos dessa fértil plantação do Comendador e hoje estamos sendo regados por ele através da Vivi.

O Bagulho será distribuído para que seja experimentado por muitos pois o Paulinho não se limitava ao seu metro quadrado, ele sempre se expandia e se misturava pra mostrar que pra música não existem fronteiras.

Por outro lado, acho que seu alto grau de exigência, também o faria dizer que o nome até pode ser Bagulho mas que pra ser Bom teria que esperar um pouco…. Kkkkkkkkk. E esse tipo de coisa era ótima, pois mexia com nossos brios e funcionava como a “cenourinha” que nos fazia correr mais e mais em direção ao melhor.

Hoje estamos aqui, o Bagulho é nosso mas é pelo Paulinho. Afinal, é um lance de amizade, musicalidade e verdade. Cada um com a sua mas que no final se torna uma coisa só. Foi isso que vivemos em vida com o Paulinho Albuquerque e agora não pode ser diferente. (Marcelinho Moreira)

O Teste do Jazzômetro

Paulinho Albuquerque, como produtor do Free Jazz Festival, do Tim Festival e de um monte de outros shows, aplicava constantemente o Teste do Jazzômetro…

Reinaldo

Depois de muito refletir, resolvi tomar uma atitude impensada e meter a  colher num assunto espinhoso.Vou tentar responder aquela famosa pergunta: “Afinal, o que é jazz?”.

O pianista Herbie Hancock tem uma frase muito boa: ” O jazz é uma coisa difícil de definir mas muito fácil de identificar”. Acho que é por aí. Nós, os ouvintes, usamos automaticamente uma coisa que vou chamar de Teste do Jazzômetro. Funciona assim: você ouve uma música e logo começa a medir seu nível de jazzificação, isto é, observa se ali existe um alto índice de surpresa e avalia se o músico ou cantor usa muita ou pouca liberdade naquela interpretação. Na música clássica, por exemplo, está tudo escrito na partitura. Na música pop, em geral o público espera que o cantor reproduza a música exatamente do mesmo jeito que foi gravada no CD. Quer dizer, nesses casos não existe muito espaço para improviso e invenção na hora da interpretação. No jazz, cada vez que uma música é tocada ela pode sair de um jeito, e ninguém sabe o que pode acontecer.O baterista ou o baixista podem mudar de repente o andamento ou a levada, o guitarrista ou o pianista podem fazer um solo de um jeito  inesperado, encaixar uma citação de uma outra música, ou emendar uma música na outra, numa espécie de mixagem instantânea.

Para essa parada ficar mais clara, vamos fazer aqui o Teste do Jazzômetro com duas cantoras bem conhecidas. Uma é a Norah Jones, que lançou alguns CDs por um selo de jazz, o Blue Note Records, e por isso foi etiquetada como cantora de jazz. A outra é a Diana Krall. Por acaso, as duas cantam e tocam piano.

No Teste do Jazzômetro a interpretação da Diana atinge índices mais altos de jazzificação, tanto na maneira de cantar quanto no jeito de tocar piano.Vejam bem: o teste não é pra descobrir quem é a melhor cantora. As duas são boas, mas a Norah não passou no teste. E provavelmente ela nem faz questão de ser conhecida como cantora e pianista de jazz. Já a Diana, apesar de parecer só uma louraça que canta standards e bossa-nova, fez realmente fez o dever de casa. E fez o dever literalmente: estudou com o pianista Jimmy Rowles e com o baixista Ray Brown, que foi seu descobridor e mentor. Eles, e outros caras, como o baixista John Clayton e o baterista Jeff Hamilton é que são os ídolos da Diana. Tudo bem, ela se casou com o Elvis Costello, mas isso é outra história. O que importa é que ela passou no Teste do Jazzômetro principalmente por causa de suas performances ao vivo, improvisando e se relacionando perfeitamente com o baixista e o baterista. Se o Elvis Costello fica com ciúmes eu não sei, isso é outra história…

Outra que foi parada recentemente para fazer o Teste do Jazzômetro é a cantora e baixista Esperanza Spalding. Seu mais recente CD, “Radio Music Society”, para os ouvidos de um jazzófilo ortodoxo pode parecer apenas  um disco de música pop. Mas, no Teste do Jazzômetro, registrou alto nível de jazzificação. É bom lembrar que o teste não pode se deixar influenciar pelas aparências, pela roupa ou penteado do intérprete. O que interessa é o som e, de preferência, o som ao vivo. O jazz não é um ritmo, é um jeito de encarar a música. Pode acontecer no swing de New Orleans ou de New York, mas pode vir também em outras embalagens: em forma de samba, baião, bolero, funk ou reggae. Pode estar no bandolim do Hamilton de Holanda, na gaita do Maurício Einhorn e até no acordeon do Dominguinhos. O jazz está por aí. É só fazer o teste…

(artigo publicado na Revista de Domingo do Globo, em 01/07/ 2012)