Nosso amigo Paulinho

Zuza Homem de Mello

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Paulinho Albuquerque no Jazz Fest de New Orleans. Feliz como pinto no lixo…

Paulinho não era tão fissurado em New York como eu. Sua atividade ligada à obra de Ivan Lins, possivelmente também a amizade com nosso tão querido Oscar Castro Neves y otras cositas que não sei quais eram, levavam-no constantemente a Los Angeles. Gostava do Jazz da West Coast embora admirasse muito o da costa leste. Significa: Él-êi (L.A.) contra Ên-uai (N.Y.). Quer dizer cool contra hard bop. Quer dizer branco contra negro. Quer dizer good manners  contra “Neeeext!”. Talvez até Brubeck contra Monk, Stan Kenton versus Duke Ellington, ou Chet Baker X Clifford Brown.

Nunca tentei convencê-lo, mas sempre cutuquei-o para conhecer o festival de New Orleans, onde já tinha ido algumas vezes. Onde fiquei sabendo sobre o Professor Longhair e James Booker, pianistas que eu próprio não conhecia apesar de ter morado e viajado tantas vezes a New York. Em New Orleans entendi o piano rude e suingado que só lá existia.

Atrevo-me a supor que foi desde a sua primeira ida ao festival de Jazz de New Orleans que Paulinho entrou fundo nas raízes, na história e na verdade do jazz.

Sinceramente achava que meu querido amigo, que eu respeitava como quem encontrava na música o que a maioria não percebia, tinha essa lacuna. Porque ele era também um cara muito ligado ao samba, e quem é ligado ao samba, evidentemente vai se dar bem em New Orleans, a raiz. Por exemplo, quem quer estudar o samba vai para o Rio ou para a Bahia, não vem pra São Paulo…E eu sempre falava com ele: “Paulinho, você tem que ir é pra  New Orleans…Lá em Los Angeles não tem muito a ver…”

Um dia, finalmente o Paulinho foi para New Orleans. Fomos juntos. E ele simplesmente adorou. Acho que aquilo abriu o horizonte dele para as raízes do jazz.

Paulinho e Zuza.

Paulinho e Zuza.

Era o festival , o New Orleans Jazz & Heritage Festival, mas que lá todo mundo só chama de ”Jazz Fest”. É maravilhoso. Centenas de shows em dois fins de semana, com um intervalo no meio, entre o fim de abril e o começo de maio. O festival acontece no hipódromo da cidade. Os shows começam às 11 da manhã e vão até 7 da noite. Em cinco ou seis palcos diferentes, tudo acontece naquela parte interna do hipódromo, que na linguagem turfística se chama “peão do prado”. E você fica circulando por ali. Além dos palcos, tem barracas com comidas típicas fortes e apimentadas da rica culinária da Louisiana. Tem objetos, peças de roupa, artesanato da NOLA (abreviatura de New Orleans Louisiana), uma feira monstra. A música do festival abrange vários estilos: blues, zydeco, gospel, jazz moderno, jazz tradicional, tem de tudo. Você escolhe um palco ou fica vendo o pedaço de um show e pula para assistir o pedaço de outro. Paulinho ficou completamente alucinado. Não só pelo festival e música, mas também pela cidade, pela comida. Lá é tudo muito original. Isso sem falar na maneira simpática e afável com que o pessoal trata todo mundo. A gente se divertia muito, trocava ideias, conhecia novos músicos, pois Paulinho era muito sociável quando o assunto era música. Em três tempos já estava íntimo pois falando inglês fluentemente comunicava-se com facilidade.

Nós ficamos amigos de alguns radialistas de New Orleans, demos entrevista para a principal rádio de lá, a WWOZ, falando sobre música brasileira, Hermeto Pascoal e essa turma toda, que, naquele tempo, ainda não tinham participado do festival. Aliás nessa época nem havia músico brasileiro no Jazz Fest. Depois mudou.

Paulinho hospedava-se no apartamento de um amigo e nos dias de folga do Jazz Fest eu ia buscá-lo de carro para cairmos fora do French Quarter, de onde praticamente não saíamos. Paulinho adorava comprar camisas na Old Navy, uma ótima loja de roupa nada cara, num shopping no caminho do aeroporto. Tornou-se fiel freguês anual da Old Navy pois era intrinsecamente um cara fiel, fidelíssimo.

E New Orleans não era só o festival. Depois do último show íamos de ônibus com todo mundo comentando sobre o que viu, aí cada um pegava uma chuveirada, dava uma deitadinha e voltava para a batalha. Depois do jantar a gente ia conferir os clubes de jazz da cidade, ver as novidades.

Jantávamos sempre juntos e eu indiquei a ele alguns lugares interessantes. Com o tempo, uns 3 ou 4 restaurantes acabaram sendo os nossos preferidos, principalmente o Ralph & Cakoo’s, os frutos do mar no bagunçado Acme Oyster. Paulinho também permaneceu fiel a todos eles, Old New Orleans Cookery, e steak houses deliciosos, o Galatoire’s e o nosso preferido, Dickie Brennan’s.

Me lembro também que comemos muitas vezes o sanduíche típico da cidade, que é o Po’ Boy (corruptela de poor boy, “garoto pobre”). É um sanduichão enorme de pernil com agregados, cebola, tomate, o diabo. Quem não conhece pede um e pensa que vai dar conta, aí vem aquele monstro e você não sabe por onde começar. Para o Paulinho era mole, dava conta de um po’ boy tranquilamente. Pra abastecer aquele corpanzil precisava bastante bateria, bem mais que eu pelo menos.

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Era um papo maravilhoso. Certa vez veio passar um fim de semana em nossa casa de Indaiatuba. Ercilia e eu ficávamos horas ouvindo as histórias que ele emendava uma na outra. A gente se entendia muito bem e ele era muito inteligente, sensível e convicto nas suas opções. Quando não gostava de alguma coisa, lascava logo de primeira. Acho isso uma qualidade, também sou assim: quando não gosto não tenho meias tintas, vai tudo no embrulho, às vezes até peco pelo excesso, mas é uma opinião autêntica. Paulinho mandava ver e às vezes criava um branco na roda. Não ligava a mínima. Xingava e se fosse preciso repetia tudo. Apesar dessa franqueza toda, o Paulinho sempre se dava bem com todo mundo.

Foi um cara inesquecível, um amigo que perdemos de repente e nos deixou arrasados. Não dava para acreditar quando o Zé Nogueira me contou pelo telefone. No dia seguinte fui para o velório no Rio, lá estava o Paulinho imóvel com a camisa do seu querido Botafogo. No fundo do peito cada um de nós sentia um ritmo batendo forte vindo daquele coração imóvel e silencioso.

Paulinho continua falando conosco diariamente. Basta olhar sua foto à minha frente, na mesa de trabalho. Penso comigo: você concorda Paulinho? E ele: manda ver.

Grandes nomes do jazz

O pessoal que vive no mundo da música, em shows, gravações e ensaios acaba desenvolvendo uma linguagem própria, um jargão, um jeito de falar. E uma das coisas mais engraçadas é essa mania de transformar os nomes dos músicos em apelidos trocadilhescos e absurdos. Paulinho Albuquerque era um que gostava dessa brincadeira…Em homenagem ao Dia Internacional do Jazz, 30 de abril, vamos lembrar aqui alguns dos grandes nomes do jazz…(Essa pesquisa teve o apoio de Pedro Albuquerque, Itamar Assiere e Zé Luis Maia) .

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30 anos de festival

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Há 30 anos a turma que gosta de jazz tem um festival pra chamar de seu…Hoje ele se chama Brasil Jazz Fest mas tudo começou em 1985, quando as irmãs Monique e Sylvia Gardenberg, junto com Paulinho Albuquerque, Zé Nogueira e Zuza Homem de Mello conseguiram realizar esse projeto que já trouxe tanta gente boa pra tocar no Brasil…Durante muitos anos o evento foi chamado Free Jazz Festival, depois foi TIM e depois BMW Festival. Hoje o patrocínio é da Rede, que não deixou a peteca cair…Paulinho Albuquerque, se estivesse neste planeta, também estaria ralando para fazer mais um festival sensacional. Infelizmente, não está. Mas, felizmente, no seu lugar está Pedrinho Albuquerque, seu filho, que herdou o gosto e a cultura musical do Comendador… Filho de peixe, etc…

A noite de abertura do primeiro festival, em 5 de agosto de 1985, foi com Moacir Santos e Radamés Gnattali. E nos outros dias, além de muitos nomes do primeiro time da música brasileira, o elenco incluía Chet Baker, Sonny Rollins, Ernie Watts, Pat Metheny, McCoy Tyner, Bobby McFerrin e por aí vai…A lista é grande e o show não pode parar…

Flagrante da primeira noite do festival. Moacir Santos e seu sax barítono, Zé Nogueira, José carlos Bigorna e Bidinho...E a banda ainda tinha  Luisão Maia no baixo, Wilson das Neves na  bateria,  Frank Zotolli no piano, Rique Pantoja nos teclados, e Café e Marçalzinho na percussão.

Flagrante da primeira noite do festival. Moacir Santos com seu sax barítono, Zé Nogueira, José Carlos Bigorna e Bidinho…E a banda ainda tinha
Luisão Maia no baixo, Wilson das Neves na bateria, Frank Zottoli no piano, Rique Pantoja nos teclados , Café e Marçalzinho na percussão.

Dentre as manias que eu tenho…

Vivi Fernandes de Lima

Na margem do Mississipi

Na margem do Mississipi.

Outro dia, falando sobre os amigos e os atrativos de Nova Orleans, Fátima Guedes brincou: “Essa mania de Nova Orleans pega, é? Eu não sabia disso… Achava que isso era coisa só do Paulinho.” Pois, então, peguei dele essa mania.

Quando Jefferson Mello falou comigo sobre a ideia de fazer um filme mostrando Rio e Nova Orleans e me convidou para fazer a pesquisa, minha memória imediatamente acionou as histórias que Paulo contava sobre esses dois mundos pelos quais ele circulava muito bem: samba e jazz. Foi o ponto de partida para uma longa pesquisa, que tenho certeza que ele adoraria ter feito ou conhecido. O resultado foi o documentário “Samba & jazz: Rio de Janeiro e Nova Orleans”, que entra em circuito no ano que vem.

Na Congo Square, local considerado como o berço da musicalidade da cidade. Ali, apenas ali, os negros podiam batucar aos domingos, no século XIX.

Na Congo Square, local considerado como o berço da musicalidade da cidade. Ali, apenas ali, os negros podiam batucar aos domingos, no século XIX.

Foram muitos os episódios vividos com Paulo em Nova Orleans. Não me esqueço de uma frase que ele me disse – e eu repito para alguns amigos – antes de eu pensar em conhecer a cidade. Foi taxativo: “Todo mundo que gosta de música como a gente, Vivi, merece conhecer Nova Orleans.”

Num dia de 2001, cheguei do trabalho e as passagens já estavam em cima da mesa: Rio – Nova Orleans – Rio. Paulo não me perguntou se eu poderia viajar naquele período nem se eu tinha visto para entrar nos Estados Unidos. Como não mudar a vida inteira para aceitar um presente desse? Em dois meses, já estávamos sobrevoando o imenso pântano da Louisiana. Ao desembarcar, entendi tudo: de fato, a música estava por todos os lados. A cidade já me ganhou no Aeroporto Internacional Louis Armstrong.

Em frente à entrada de uma das 10 tendas do New Orleans Jazz and Heritage Festival, em 2001.

Em frente à entrada de uma das 10 tendas do New Orleans Jazz and Heritage Festival, em 2001.

Poucas coisas o deixavam tão animado quanto bater perna em Nova Orleans, páreo duro com a praia de Ipanema, o bloco Sorri Pra Mim, de Vila Isabel, ou qualquer jogo do Botafogo. Como ele ia anualmente para lá – por conta do trabalho de curadoria do Free Jazz e, depois, do Tim Festival – foi uma espécie de guia de luxo do French Quarter, a área nobre da cidade, pra mim. Fui apresentada a cada quadrado do bairro nesta primeira viagem que fizemos juntos e apresentada a amigos que até hoje estão presentes.

Na Jackson Square.

Na Jackson Square.

Suas idas à cidade aconteciam sempre no período do New Orleans Jazz and Heritage Festival, uma maratona musical de sete dias, com pelo menos 10 palcos simultâneos, das 11h às 19h. Mas Paulo não se limitava às atrações do evento, nem se quisesse… Quando chegava à cidade, recebia um convite atrás do outro para shows. B.B. King, Van Morrison, Lenny Kravitz… Fez isso por uns 15 anos.

Eu, que tinha acabado de terminar uma monografia sobre samba da terreiro, me comovi com o quanto aquele território às margens do rio Mississipi guardava de história e de cultura. Uma história de resistência e ousadias musicais. Uma cultura cheia de rituais, danças, batuques e quiabo. O mesmo quiabo que saiu de Angola e Congo e foi parar na panela da Tia Surica, da Tia Doca e lá em casa.

Na varanda da tradicional barca do Mississipi.

Na varanda da tradicional barca do Mississipi.

Parecia que eu poderia encontrar, a qualquer momento, virando a esquina, Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres e Sinhô. Acabei encontrando Louis Armstrong, King Oliver e Jelly Roll Morton. Lá no fundo da ancestralidade, trata-se de um mesmo mundo.
E, sim, isso pega. Pega muito bem.

Santo do pau oco

Vivi Fernandes de Lima
foto (4)Estávamos em Nova Orleans, passando pela Jackson Square, quando começou a aparecer um monte de padres vindo, aparentemente, na nossa direção. Não eram 10 ou 20. O que vimos foi um mar de padres na rua St. Peter, ao lado da igreja St. Louis. E, claro, era pra lá que estavam indo centenas deles, todos de branco.
Me informei com alguns colegas repórteres que estavam registrando o momento, era um congresso.
De repente, olhei pro Paulo e me dei conta de que ele também estava todo de branco e que regulava com a idade dos participantes do evento religioso. Lancei a ideia, brincando:
– Vai lá, Paulo! Sua turma tá te esperando!
Imediatamente, ele se enfiou no meio deles e posou para as câmeras que ali estavam. Inclusive a minha.
Ficou tão integrado ao grupo que os padres nem notaram. Músicos, turistas e místicos da praça se acabaram de rir. Pelo resto da viagem, ele virou Father Paul.

Um cartão pro Zeca

Mello Menezes, também conhecido como Zeca, é aquele artista plástico e autor de muitas capas de discos. Mas também é conhecido pelos íntimos como aquele cara que gosta de cantar no estilo dos grandes intérpretes americanos, tipo Johnny Hartman, que gravou com famosas big bands nos anos 50 e 60…Olha só o cartão que o Zeca  encontrou outro dia no fundo do baú. Foi enviado de Los Angeles, em 1982, pelo Comendador Albuquerque, que aproveita para zoar com o nosso Johnny Hartman carioca… (clique na foto para ampliar).

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Ricardo Silveira encontra Wes Montgomery, o Dedão de Ouro

RS e Wes -1Em 2002 Paulinho Albuquerque marcou um encontro de Ricardo Silveira com  Wes Montgomery, “The Golden Thumb”, aquele genial guitarrista que jogou a palheta fora e só tocava com o dedão, reinventando o som da guitarra no jazz… Foi num projeto chamado 4 x JAZZ, que aconteceu no Centro Cultural Banco do Brasil. Um projeto bolado, roteirizado e dirigido pelo Paulinho. Os quatro shows eram: Mauricio Einhorn toca Toots Thielemans, Cristóvão Bastos toca Dave Brubeck , Leila Pinheiro canta Billie Holiday e Ricardo Silveira toca Wes Montgomery. Recentemente, Ricardo Silveira estava mexendo no seu baú de sons e encontrou algumas gravações desse show. Um quarteto – formado por Ricardo na guitarra, Marcos Nimrichter no piano, Jorge Helder no contrabaixo e Carlos Bala na bateria – recriou vários temas do Wes Montgomery ou músicas que ele tornou famosas…Vamos ouvir aqui o Ricardo mandando a sua interpretação de duas composições do Wes: Full House e Sundown…Clica aí e som na caixa.

 

 

 

 

O sapato do Paulinho

Mello Menezes

Tudo começou na minha primeira comunhão. Minha mãe, sem grana, não pôde comprar o sapato branco. E tive então que usá-lo emprestado do primo Ramon, que obviamente calçava a metade do meu pé. Para receber Jesus, tive então que pagar todos os pecados com as bolhas nos pés. Quando comecei a comprar meus próprios sapatos, os mais confortáveis, ditos “moles”, na época, tinham um desenho que não me agradava. Os bonitos, elegantes, de cromo alemão, design italiano, etc, eram duros e até se amoldarem nos pés você tinha que pagar um pedágio com as velhas e conhecidas bolhas.

Quando estreou a peça Roda Viva, do Chico Buarque, um detalhe me chamou atenção no figurino dos atores: todos usavam tênis. Não era usual na época a não ser, obviamente, para competições esportivas. A partir disso comecei a usá-los, exceto em casamentos e outras solenidades, pra não parecer hippie. Certa noite, fomos ao teatro Casa Grande e fui barrado na porta. Não podia tênis. Rapidamente peguei o carro e fui até a casa de um casal amigo na Borges de Medeiros, toquei a campainha e a Vera, gozadora como sempre – Mello, a que devemos essa agradável surpresa a uma hora dessas? – Me empresta um sapato do Alfredo! E me mandei correndo pro teatro a tempo de pegar o início do espetáculo. O sapato do Alfredo começou a apertar o pé e no final do show a mulher desafinava e o conjunto era uma merda.

Cheguei à conclusão de que precisava de um sapato confortável pra essas ocasiões. Fui a diversas sapatarias e acabei na Polar da Rio Branco, numa galeria ligada à Gonçalves Dias. A loja grande tinha diversas entradas. Entrei por uma e vejo o Paulinho entrando por outra.
– Alôooooo!
Nos abraçamos.
– O que traz você aqui?
– Vim comprar umas perucas. E você?
– Cuecas.
Sentamos e um atendente começou a tentar decifrar nossas intenções. As caixas de sapatos começaram a crescer lateralmente. O vendedor, já meio puto, fazia cara de quem atendia duas senhoras mal amadas. Quando então reparo no sapato velho que o Paulinho calçava e exclamo:
– É ELE! É ELE!!
– Que foi?
– É esse seu sapato meio cano de camurça que ando procurando há décadas!
– Experimenta.
Experimentei e pisei nas nuvens.
digitalizar0002– Paulinho, fora de sacanagem, é tudo que eu quero na vida. Já fui até no Motinha e eles não fazem esse modelo sob medida. Parece um sapato de um bravo guerreiro viking! Como é bonito e macio.
Ele continuou rindo e disse que tinha trazido de Nova York e realmente gostava muito dele, pena já estar velho.
– Mas é assim que eu gosto! É nesse estado que ele adquire caráter. Já que tu não queres, me vende?
– Quem disse que eu não quero! Tá maluco?
Insisti mais e aí então ele disse: Se eu sair daqui com um sapato novo, te dou este.
– Oba! Vibrei.
A esta altura o atendente, além de puto, estava perplexo com dois caras de pau que negociavam sapatos que não eram os da loja. Mais caixas desceram sem solução. Agradecemos a paciência do vendedor e saímos de fininho. Fomos rindo, pois realmente o cara tinha razão, parecíamos duas senhoras indecisas que jogam no sapato suas dúvidas existenciais.
Aí então o Paulinho sugeriu, “Já que pagamos um mico como senhoras indecisas, vamos comer uns docinhos ali na tradicional confeitaria Cavê”, que ficava ali perto, na Sete de Setembro. Sentamos, vieram os docinhos, e de vez em quando eu lançava um olhar pidão para os pés dele. Ele ria e me mandava à merda. Lanchamos e nos despedimos.digitalizar0003
E lá se foi Paulinho a passos largos, numa altivez de quem levava nos pés bravos e despojados guerreiros vikings que já tinham trilhado muitos caminhos pelo mundo afora, mundo do samba, da mpb, do jazz e ainda tinha muita sola para gastar.

O dia em que Paulinho Albuquerque parou um avião

Mello Menezes

Nasci num Rio mais vazio onde a poesia fazia pic-nic. As famílias humildes suburbanas preparavam o farnel de véspera, acordavam cedo e iam de barca, bonde, trem para Quinta da Boa Vista, Paquetá, praias do Rio e Niterói. Após intensas atividades no domingo de sol, as crianças brancas, negras e mulatas voltavam vermelhas, desabadas nas mães e com uma leve sensação de que traziam do pic-nic uma recordação: muita areia no saco do calção.

Acho que devido a essa infância cresci festeiro.

Junto com o poeta Aldir Blanc e amigos do nosso conjunto de samba “Torresmos e Moelas” fizemos centenas de festas maravilhosas e o nosso Comendador estava sempre presente…

O DIA EM QUE PAULINHO ALBUQUERQUE PAROU UM AVIÃO

Liguei para os amigos do “Torresmos e Moelas” e combinei: Sábado 8 de março, dia internacional da mulher, todos no primeiro quiosque da orla do aeroporto Santos Dumont.

Chegou sábado. Dia de sol, o Pão de Açúcar estava maravilhoso e pousava leve e lindo no mar. Os aviões passavam deslumbrantes no olhar e as moças pedalavam semi-peladas pelas passarelas com a poesia das velas em regatas pelo mar. Era um dia perfeito.

Os amigos iam chegando: professores, músicos, profissionais muito liberais, poetas, escritores, pintores… O buquê do churrasco já deixava as bocas nervosas e a cerveja estava geladíssima. Quando então Paulinho Albuquerque e Claudio Jorge adentram a festa transformando-a num terreiro de bambas: Paulão Sete Cordas, Ovídio Brito, Carlinhos Sete Cordas, Marcelinho Moreira, Beto Cazes e Esguleba se juntaram ao “Torresmos”.

E como num sarau à beira mar, histórias do mundo do samba começaram a ser cantadas…

Claudio Jorge mostrou que no samba o amor é de fato, arrumou um lugarzinho pequeninho que dá para morar. Pintou tudo de branquinho e rezou os cantinhos com água do mar e todo mundo se encantou com aquele lugar. Tinha até pé de cajá!

Aldir Blanc, numa interpretação magistral, trouxe os grandes bambas do Salgueiro e cantou o Gargalhada na voz do Anescar, Geraldo Babão e o Bala são de lá, Noel Rosa de Oliveira, Pindonga e Iraci, e afirmou: o samba vem daí.

Wilson Moreira cantou o delito de amar e pediu à Senhora Liberdade que abrisse as asas sobre todos nós.

Jorjão, no seu gingado de voz e balançado violão, lembrou Donga no primeiro maxixe “Pelo Telefone”, numa época em que ninguém se lembrava deste samba. E o refrão foi geral.

A caravela do Candongueiro veio lá de Niterói para o Rio de Janeiro e aqui desembarcou. Ilton e Ilda com seus musicais marinheiros fizeram a galera cantar o samba de raiz Pau Brasil.

Zé Luis do Império homenageou os velhos malandros maneiros que têm São Jorge guerreiro como fiel protetor. Ganhou, leva. Mas não no grito, quem quis levar não prestou. Beleza.

E no carnaval Moacyr Luz esperou o bonde 66 que na Sete de Setembro apareceu mais uma vez e trouxe o Guinga, o Paulinho Pinheiro, o Nogueira e o Velho Hermínio num reduto biriteiro. Um camelô trocou as pilhas do seu coração e de quebra vendeu-lhe mais uma ilusão.

O magnata supremo da elegância moderna, Walter Alfaiate, como sempre elegante, mandou a Carola sacudir e todo o mundo sacudiu no “Sacode Carola”.

O mestre cuca musical Ernesto Pires misturou arroz com feijão e cantou a miscigenação brasileira.

Camunguelo, “O Único”, cantou e flauteou “Hello My Girls” no seu jeito malandro do Cais do Porto.

Luis Carlos da Vila, o nosso sambista Show, com sua presença de palco passeou entre as mesas e encantou, trazendo Iemanjá à beira mar para todo mundo cantar.

Luiz Pimentel, nosso poeta, escritor e editor do mundo do samba exclamou: Sem palavras!

De repente um silencio se fez.  O cello de Zamith e o violino de Leo Ortiz da Sinfônica Brasileira trouxeram Gustav Mahler e num momento sublime o samba silenciou e reverenciou a música erudita. E o Paulinho : Pô, que tarde! Tem até os clássicos!…

Mas como se não bastasse tanta beleza musical, um espetáculo diferente e inesperado aconteceu. Um grande cardume de sardinhas apareceu borbulhando junto à orla onde estávamos, naturalmente encurraladas por ágeis pescadas. E deu-se então o espetáculo! Dezenas de gaivotas e atobás com suas asas de metro e meio de envergadura começaram a tirar rasante de nossas cabeças para mergulharem , uma atrás da outra, à caça das sardinhas, como flechas entrando no mar. A emoção foi geral e palmas, palmas, palmas.

Aí o Paulinho Albuquerque me puxou para um canto e disse:

– Tá demais! Vamos até ali na cabeceira da pista parar um avião. É fácil, é como parar um táxi. Vamos botar este povo maravilhoso lá dentro dele.

– Mas Paulinho! Tem umas trezentas pessoas!

– Vai caber, vai caber. Esses pilotos já fizeram estágio no ônibus 477. Basta, antes de subir, dar aquela freadinha que a turma se acomoda. Vamos até Nova York, já liguei para o Aloísio de Oliveira e ele vai reservar o “Carnegie Hall” para logo mais! Vamos apresentar essa festa memorável que vivemos hoje aqui. O título vai ser “O que é que o Pão de Açúcar tem”. E não se esqueça de levar a cenografia: sardinhas, gaivotas, atobás e o Pão de Açúcar também.

Quando a Guanabara entardeceu
O nosso avião subiu
E o cristo Redentor
Espalhou lá do alto
Pigmentos suaves
De amarelos laranjas
Vermelhos lilases
e azul cobalto

Ceceu Rico, pai do Aldir, Mello Menezes e Aldir Blanc. O Paulinho estava por ali, em algum lugar, fora da foto.

Ceceu Rico, pai do Aldir, Mello Menezes e Aldir Blanc. O Paulinho estava por ali, em algum lugar, fora da foto.

 

Moacyr Luz e Walter Alfaiate. O Paulinho está em algum lugar, do outro lado da câmera...

Moacyr Luz e Walter Alfaiate. O Paulinho está em algum lugar, do outro lado da câmera…

 

Alfredinho Bip-Bip, Luiz Pimentel e Henrique Sodré. E o Paulinho não aparece, continuava fugindo dos paparazzi...

Alfredinho Bip-Bip, Luiz Pimentel e Henrique Sodré. E o Paulinho não aparece, continuava fugindo dos paparazzi…

 

A pior Copa de todos os tempos

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A pior Copa de todos os tempos foi aquela na Alemanha, em 2006. O Brasil perdeu a Copa, perdeu o Bussunda e perdeu o Paulinho Albuquerque. Hoje, dia 26 de junho, faz 8 anos que o Comendador Albuquerque não está mais aqui. Foi pensando no Paulinho que fiz esse programa para a Rádio Batuta, falando de jazz e humor, duas coisas que ele levava a sério…

http://radiobatuta.com.br/programa/jazz-humor-3/