As lições de Mestre Marsalis

João Máximo

Marsalis-Wynton_720x415A vinda de Wynton Marsalis para dar aulas de jazz em São Paulo é daquelas que fazem os moradores de outras cidades morrerem de inveja. Concertos comentados, ensaios abertos, palestras, workshops, aos cuidados de uma orquestra liderada por ele, músico que consegue ser, ao mesmo tempo, extraordinário trompetista e excelente professor.

A visita de Marsalis, para tocar e ensinar, nos remete a uma noite vivida por caravana musical brasileira em Havana, em maio de 2001. Em volta de uma mesa redonda, Paulinho Albuquerque, Nei Lopes, Cláudio Jorge, Mauro Dias e nós conversávamos sobre música, quando alguém mencionou “Jazz”, a admirável série produzida por Ken Burns que o GNT estava exibindo nas noites de segunda-feira.

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Zuza Homem de Mello, Cláudio Jorge, Paulinho Albuquerque e João Máximo, em Cuba, tramando altos planos…

 

Por que não se fazer no Brasil série igual sobre o samba? –– sugeriu alguém como se a provocar o espírito realizador de Paulinho Albuquerque. Deu certo: depois de alguma conversa, aprovou-se a ideia da série e a escolha do próprio Paulinho para levá-la adiante.

Foi então que sugerimos que o mestre de cerimônias de “Samba” fosse justamente o Nei Lopes. “Ele é o nosso Wynton Marsalis”, dissemos comparando-o ao trompetista que cumpria brilhantemente a missão na série de Burns.

O assunto não parou por ali. Com aquela energia que o levava a fazer coisas importantes na música (inclusive a produção des nossos melhores festivais de jazz), Paulinho Albuquerque seguiu em frente. Organizou várias reuniões, uma delas na casa de Nei em Seropédica. Chegou-se a pôr o projeto no papel e a gravar som e imagem com alguns entrevistados. Mas, infelizmente, o sonho de Paulinho morreu com ele cinco anos depois daquela noite em Havana.

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Em Cuba: o percussionista Ovídio Brito, o Comendador Albuquerque e Nei Lopes, o nosso Wynton.

A sugestão de Nei Lopes para ser o nosso Wynton Marsalis não se devia às respectivas bagagens musicais, Nei sambista de primeira, Marsalis virtuoso do jazz. Simplesmente, acreditava que a mesma contribuição que o americano dava ao estudo do jazz, mantendo-o intimamente ligado à história política e social dos negros na América, só alguém com a cultura de Nei sobre os negros do Brasil poderia dar ao samba.

É claro que era um posição no mínimo discutível. Por que questionar a cor da pele dos muitos críticos e historiadores que haviam estudado o samba e outras bossas de nossa música? Que diferença havia entre uns e outros? No caso do Brasil, pouca ou nenhuma. Mas, no caso americano, a participação de Marsalis em “Jazz” era a primeira vez que se sabia que os negros tinham mais a dizer sobre sua música.

Foi um dos encantos da série. Nós, que por aqui “aprendíamos” sobre jazz nos livros de intelectuais ingleses, franceses, alemães, suecos, latino-americanos e até japoneses, ficamos sabendo muito mais com o que Marsalis e outros estudiosos negros, como Albert Murray e Gerald Early, nos contavam em cada capítulo. Por exemplo: que o jazz era “a maneira indolor” de o negro americano se conhecer –– diz, logo o primeiro capítulo, o mestre de cerimônias de Burns.

Uma série brasileira sobre o samba jamais teria a dimensão da americana. A começar pelo rico material fotográfico que o produtor teve nas mãos. Ou pelos vários registros sonoros, raríssimos, que ouvimos na trilha sonora. Mas, com Nei Lopes no papel de Marsalis, poderíamos saber mais sobre os iorubanos da Cidade Nova e os bantos do Estácio de Sá, os verdadeiros criadores da mais brasileira das músicas.

Passados tantos anos, “Jazz” continua ao nosso alcance na coleção de DVDs lançada mundialmente, inclusive no Brasil. Mas “Samba”, como Paulinho Albuquerque, é só saudade.

(texto publicado no site G1, logo depois da temporada de Wynton Marsalis e sua orquestra em São Paulo, em junho de 2019)

 

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