Dentre as manias que eu tenho…

Vivi Fernandes de Lima

Na margem do Mississipi

Na margem do Mississipi.

Outro dia, falando sobre os amigos e os atrativos de Nova Orleans, Fátima Guedes brincou: “Essa mania de Nova Orleans pega, é? Eu não sabia disso… Achava que isso era coisa só do Paulinho.” Pois, então, peguei dele essa mania.

Quando Jefferson Mello falou comigo sobre a ideia de fazer um filme mostrando Rio e Nova Orleans e me convidou para fazer a pesquisa, minha memória imediatamente acionou as histórias que Paulo contava sobre esses dois mundos pelos quais ele circulava muito bem: samba e jazz. Foi o ponto de partida para uma longa pesquisa, que tenho certeza que ele adoraria ter feito ou conhecido. O resultado foi o documentário “Samba & jazz: Rio de Janeiro e Nova Orleans”, que entra em circuito no ano que vem.

Na Congo Square, local considerado como o berço da musicalidade da cidade. Ali, apenas ali, os negros podiam batucar aos domingos, no século XIX.

Na Congo Square, local considerado como o berço da musicalidade da cidade. Ali, apenas ali, os negros podiam batucar aos domingos, no século XIX.

Foram muitos os episódios vividos com Paulo em Nova Orleans. Não me esqueço de uma frase que ele me disse – e eu repito para alguns amigos – antes de eu pensar em conhecer a cidade. Foi taxativo: “Todo mundo que gosta de música como a gente, Vivi, merece conhecer Nova Orleans.”

Num dia de 2001, cheguei do trabalho e as passagens já estavam em cima da mesa: Rio – Nova Orleans – Rio. Paulo não me perguntou se eu poderia viajar naquele período nem se eu tinha visto para entrar nos Estados Unidos. Como não mudar a vida inteira para aceitar um presente desse? Em dois meses, já estávamos sobrevoando o imenso pântano da Louisiana. Ao desembarcar, entendi tudo: de fato, a música estava por todos os lados. A cidade já me ganhou no Aeroporto Internacional Louis Armstrong.

Em frente à entrada de uma das 10 tendas do New Orleans Jazz and Heritage Festival, em 2001.

Em frente à entrada de uma das 10 tendas do New Orleans Jazz and Heritage Festival, em 2001.

Poucas coisas o deixavam tão animado quanto bater perna em Nova Orleans, páreo duro com a praia de Ipanema, o bloco Sorri Pra Mim, de Vila Isabel, ou qualquer jogo do Botafogo. Como ele ia anualmente para lá – por conta do trabalho de curadoria do Free Jazz e, depois, do Tim Festival – foi uma espécie de guia de luxo do French Quarter, a área nobre da cidade, pra mim. Fui apresentada a cada quadrado do bairro nesta primeira viagem que fizemos juntos e apresentada a amigos que até hoje estão presentes.

Na Jackson Square.

Na Jackson Square.

Suas idas à cidade aconteciam sempre no período do New Orleans Jazz and Heritage Festival, uma maratona musical de sete dias, com pelo menos 10 palcos simultâneos, das 11h às 19h. Mas Paulo não se limitava às atrações do evento, nem se quisesse… Quando chegava à cidade, recebia um convite atrás do outro para shows. B.B. King, Van Morrison, Lenny Kravitz… Fez isso por uns 15 anos.

Eu, que tinha acabado de terminar uma monografia sobre samba da terreiro, me comovi com o quanto aquele território às margens do rio Mississipi guardava de história e de cultura. Uma história de resistência e ousadias musicais. Uma cultura cheia de rituais, danças, batuques e quiabo. O mesmo quiabo que saiu de Angola e Congo e foi parar na panela da Tia Surica, da Tia Doca e lá em casa.

Na varanda da tradicional barca do Mississipi.

Na varanda da tradicional barca do Mississipi.

Parecia que eu poderia encontrar, a qualquer momento, virando a esquina, Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres e Sinhô. Acabei encontrando Louis Armstrong, King Oliver e Jelly Roll Morton. Lá no fundo da ancestralidade, trata-se de um mesmo mundo.
E, sim, isso pega. Pega muito bem.

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