O sapato do Paulinho

Mello Menezes

Tudo começou na minha primeira comunhão. Minha mãe, sem grana, não pôde comprar o sapato branco. E tive então que usá-lo emprestado do primo Ramon, que obviamente calçava a metade do meu pé. Para receber Jesus, tive então que pagar todos os pecados com as bolhas nos pés. Quando comecei a comprar meus próprios sapatos, os mais confortáveis, ditos “moles”, na época, tinham um desenho que não me agradava. Os bonitos, elegantes, de cromo alemão, design italiano, etc, eram duros e até se amoldarem nos pés você tinha que pagar um pedágio com as velhas e conhecidas bolhas.

Quando estreou a peça Roda Viva, do Chico Buarque, um detalhe me chamou atenção no figurino dos atores: todos usavam tênis. Não era usual na época a não ser, obviamente, para competições esportivas. A partir disso comecei a usá-los, exceto em casamentos e outras solenidades, pra não parecer hippie. Certa noite, fomos ao teatro Casa Grande e fui barrado na porta. Não podia tênis. Rapidamente peguei o carro e fui até a casa de um casal amigo na Borges de Medeiros, toquei a campainha e a Vera, gozadora como sempre – Mello, a que devemos essa agradável surpresa a uma hora dessas? – Me empresta um sapato do Alfredo! E me mandei correndo pro teatro a tempo de pegar o início do espetáculo. O sapato do Alfredo começou a apertar o pé e no final do show a mulher desafinava e o conjunto era uma merda.

Cheguei à conclusão de que precisava de um sapato confortável pra essas ocasiões. Fui a diversas sapatarias e acabei na Polar da Rio Branco, numa galeria ligada à Gonçalves Dias. A loja grande tinha diversas entradas. Entrei por uma e vejo o Paulinho entrando por outra.
– Alôooooo!
Nos abraçamos.
– O que traz você aqui?
– Vim comprar umas perucas. E você?
– Cuecas.
Sentamos e um atendente começou a tentar decifrar nossas intenções. As caixas de sapatos começaram a crescer lateralmente. O vendedor, já meio puto, fazia cara de quem atendia duas senhoras mal amadas. Quando então reparo no sapato velho que o Paulinho calçava e exclamo:
– É ELE! É ELE!!
– Que foi?
– É esse seu sapato meio cano de camurça que ando procurando há décadas!
– Experimenta.
Experimentei e pisei nas nuvens.
digitalizar0002– Paulinho, fora de sacanagem, é tudo que eu quero na vida. Já fui até no Motinha e eles não fazem esse modelo sob medida. Parece um sapato de um bravo guerreiro viking! Como é bonito e macio.
Ele continuou rindo e disse que tinha trazido de Nova York e realmente gostava muito dele, pena já estar velho.
– Mas é assim que eu gosto! É nesse estado que ele adquire caráter. Já que tu não queres, me vende?
– Quem disse que eu não quero! Tá maluco?
Insisti mais e aí então ele disse: Se eu sair daqui com um sapato novo, te dou este.
– Oba! Vibrei.
A esta altura o atendente, além de puto, estava perplexo com dois caras de pau que negociavam sapatos que não eram os da loja. Mais caixas desceram sem solução. Agradecemos a paciência do vendedor e saímos de fininho. Fomos rindo, pois realmente o cara tinha razão, parecíamos duas senhoras indecisas que jogam no sapato suas dúvidas existenciais.
Aí então o Paulinho sugeriu, “Já que pagamos um mico como senhoras indecisas, vamos comer uns docinhos ali na tradicional confeitaria Cavê”, que ficava ali perto, na Sete de Setembro. Sentamos, vieram os docinhos, e de vez em quando eu lançava um olhar pidão para os pés dele. Ele ria e me mandava à merda. Lanchamos e nos despedimos.digitalizar0003
E lá se foi Paulinho a passos largos, numa altivez de quem levava nos pés bravos e despojados guerreiros vikings que já tinham trilhado muitos caminhos pelo mundo afora, mundo do samba, da mpb, do jazz e ainda tinha muita sola para gastar.

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5 respostas em “O sapato do Paulinho

  1. Eu costumo dizer, se estou com um sapato confortável, pernas para que te quero. Saio no mundo, sem vontade de voltar. Se é verão, uma sandália, nem alta, nem baixa, Se é inverno, um sapato fechado, que não deixe os ventos me atingirem, me trás o conforto necessário. Mas o sapato é mesmo um determinador de rumos, de humores, eu só os escolho quando estou de bem com a vida e com tempo. O assunto é mais sério do que se pensa.

  2. Boa Mello! Meu pai tinha dois pares como os que você falou, um marrom e um verde. Ambos usei quando ele se desfez (sacanagem nem lembrou de você nessa hora!). Eram muito confortáveis mesmo, eu adorava o marrom que por muito tempo foi meu preferido.

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