Paulinho está por aí…

Mello Menezes

mello menezes auto retratoPaulinho e eu fizemos diversos trabalhos para capas de discos, cenografias para shows, cartazes e isso sedimentou uma amizade de muitos anos.
Tive um irmão Renato, que em vida, volta e meia eu o via nos mais diferentes locais. Uma vez, foi num circo mambembe lá em Niterói. Avistei-o de longe e fui até ele:
– Renaaaaato!
O cara se virou e eu:
– Opa! Desculpe, foi engano.
Atualmente, essa situação está acontecendo com o Paulinho Albuquerque após sua morte.
guinga CD 1Num outro dia, fui chamado por uma agência para um trabalho. A equipe reunida na sala de criação, quando entra o cliente. Era o Paulinho Albuquerque. Levei algum tempo para me concentrar. O cara era igualzinho a ele.
Nesses últimos trinta anos encontrei o Paulinho nas mais diferentes situações. Aniversários, sambas que promovia no quiosque do Santos Dumont, reuniões para criação de capas de LPs e CDs, no Free Jazz, nos bastidores dos shows, nas festas etc.
ivan lins LP anoiteEle se divertia ao me ouvir cantar no meu inglês castiço. Ganhei dele de presente a cópia de uma coleção rara do crooner Johnny Hartman, o preferido dos band leaders americanos. Havia sempre uma roda ouvindo-o contar seus “causos” sobre o mundo do samba, do jazz, da turma do Casseta, etc.
Um “causo” que vivenciamos juntos:
Ele me liga:
– Mello, já liguei para o Aldir, vamos lá no show do Ivan Lins hoje.
claudio santoro LPApós o maravilhoso show, bastidores e tudo mais, o Paulinho me leva até um gringo baixinho e diz:
– Esse aqui é um dos maiores compositores americanos: Johnny Mandel.
– Mandel, esse é o seu intérprete no Brasil. Manda uma dele aí, Mello.
Aí eu:
– De Mandel e McDonald’s: A cheddar of your smile when you have gone…
A canção seguia, enquanto todos riam e o Mandel, villa e tom LPbem humorado, dizia:
– What is this?
Ou seja: que merda é essa?
Pedi “esquilse-me for play” e nos abraçamos.
Logo após, fomos comemorar com o Ivan e a metade da MPB na churrascaria Plataforma. Mesa quilométrica lá atrás, papo animado, mil chopps, quando, pela porta lateral dos fundos, entra um senhor e uma senhora.
Ele, andando com uma certa dificuldade e ela de branco, parecendo uma enfermeira. Esse inusitado meninos do rio CDquadro chamou a atenção do Paulo e minha que, que discretamente, acompanhamos o desenrolar até os dois se sentarem à mesa à nossa frente.
A emoção juntou-se a certo desespero, quando reconhecemos aquele bravo boêmio, era o poeta maior Vinicius de Moraes. Quando então ele reconhece o Mandel, que está sentado de costas para ele, se levanta devagar e o abraça. Mandel querendo reconhecer o autor do afago, se vira e antes que o reconhecimento demore, o Paulinho se adianta e diz:
– Mandel, esse é o Poeta Vinícius de Moraes.
O Johnny quase joga o poeta pro alto de satisfação e todos aplaudem.
Estar com o Paulinho era viver essas coisas. Havia sempre um clima de humor e criatividade no ar.
Amanhã devo encontrá-lo em algum lugar.

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Uma resposta em “Paulinho está por aí…

  1. eu estava nesse dia, na Plataforma, nessa mesa quilométrica, com o Paulinho, com o Mello, com o Vinicius (nos seus últimos dias) e com o Johnny Mandel! ah… a saudade do Paulinho é tamanha… e também fico vendo ele aqui e acolá. ele mora na nossa retina querido Zeca Mello Menezes!
    Zeca, nós precisamos nos ver, tenho saudades tuas, nosso crooner preferido!
    abraços e carinho
    Zé Nogueira

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