O Teste do Jazzômetro

Paulinho Albuquerque, como produtor do Free Jazz Festival, do Tim Festival e de um monte de outros shows, aplicava constantemente o Teste do Jazzômetro…

Reinaldo

Depois de muito refletir, resolvi tomar uma atitude impensada e meter a  colher num assunto espinhoso.Vou tentar responder aquela famosa pergunta: “Afinal, o que é jazz?”.

O pianista Herbie Hancock tem uma frase muito boa: ” O jazz é uma coisa difícil de definir mas muito fácil de identificar”. Acho que é por aí. Nós, os ouvintes, usamos automaticamente uma coisa que vou chamar de Teste do Jazzômetro. Funciona assim: você ouve uma música e logo começa a medir seu nível de jazzificação, isto é, observa se ali existe um alto índice de surpresa e avalia se o músico ou cantor usa muita ou pouca liberdade naquela interpretação. Na música clássica, por exemplo, está tudo escrito na partitura. Na música pop, em geral o público espera que o cantor reproduza a música exatamente do mesmo jeito que foi gravada no CD. Quer dizer, nesses casos não existe muito espaço para improviso e invenção na hora da interpretação. No jazz, cada vez que uma música é tocada ela pode sair de um jeito, e ninguém sabe o que pode acontecer.O baterista ou o baixista podem mudar de repente o andamento ou a levada, o guitarrista ou o pianista podem fazer um solo de um jeito  inesperado, encaixar uma citação de uma outra música, ou emendar uma música na outra, numa espécie de mixagem instantânea.

Para essa parada ficar mais clara, vamos fazer aqui o Teste do Jazzômetro com duas cantoras bem conhecidas. Uma é a Norah Jones, que lançou alguns CDs por um selo de jazz, o Blue Note Records, e por isso foi etiquetada como cantora de jazz. A outra é a Diana Krall. Por acaso, as duas cantam e tocam piano.

No Teste do Jazzômetro a interpretação da Diana atinge índices mais altos de jazzificação, tanto na maneira de cantar quanto no jeito de tocar piano.Vejam bem: o teste não é pra descobrir quem é a melhor cantora. As duas são boas, mas a Norah não passou no teste. E provavelmente ela nem faz questão de ser conhecida como cantora e pianista de jazz. Já a Diana, apesar de parecer só uma louraça que canta standards e bossa-nova, fez realmente fez o dever de casa. E fez o dever literalmente: estudou com o pianista Jimmy Rowles e com o baixista Ray Brown, que foi seu descobridor e mentor. Eles, e outros caras, como o baixista John Clayton e o baterista Jeff Hamilton é que são os ídolos da Diana. Tudo bem, ela se casou com o Elvis Costello, mas isso é outra história. O que importa é que ela passou no Teste do Jazzômetro principalmente por causa de suas performances ao vivo, improvisando e se relacionando perfeitamente com o baixista e o baterista. Se o Elvis Costello fica com ciúmes eu não sei, isso é outra história…

Outra que foi parada recentemente para fazer o Teste do Jazzômetro é a cantora e baixista Esperanza Spalding. Seu mais recente CD, “Radio Music Society”, para os ouvidos de um jazzófilo ortodoxo pode parecer apenas  um disco de música pop. Mas, no Teste do Jazzômetro, registrou alto nível de jazzificação. É bom lembrar que o teste não pode se deixar influenciar pelas aparências, pela roupa ou penteado do intérprete. O que interessa é o som e, de preferência, o som ao vivo. O jazz não é um ritmo, é um jeito de encarar a música. Pode acontecer no swing de New Orleans ou de New York, mas pode vir também em outras embalagens: em forma de samba, baião, bolero, funk ou reggae. Pode estar no bandolim do Hamilton de Holanda, na gaita do Maurício Einhorn e até no acordeon do Dominguinhos. O jazz está por aí. É só fazer o teste…

(artigo publicado na Revista de Domingo do Globo, em 01/07/ 2012)

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6 respostas em “O Teste do Jazzômetro

  1. Reinaldo querido. Maravilha !! O máximo ! Você nem tem idéia do montão de gente que me ligou perguntando “leu?”. Todos aficionados mas meio perdidões. Perfeita a sua colocação. Satchmo está tocando The Saints em sua homenagem. Beijão, Ana Lucia (Bizinover).

  2. Reinaldo,

    Legal ver o Jazz ocupando espaços na revista do Globo, que é lida por muita gente aos domingos. Que este espaço se abra também nas salas, teatros e casas noturnas.

    Boa sacada o teste do jazzômetro, que com certeza deixaria muita gente de segunda época!!!

    Abraços,

    Beto

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