Paulinho e Guinga quase saíram na porrada…

Guinga

Minha história com o Paulinho só teve um momento ruim. Só um. E foi logo no meu primeiro disco, o Simples e Absurdo, de 1991. Aliás, esse disco só saiu por causa dele. O Paulinho se apaixonou pela minha música e disse:  “Cara, você já tá com 40 anos de idade, tem um monte de composições, você  tem que gravar um disco…”.

Aí ele pegou essa bandeira e foi em frente. Foi mobilizando mais gente, e tal… Na verdade, eu devo esse primeiro disco a ele, a Aldir Blanc, Herbert de Souza (o Betinho), Vitor Martins e Ivan Lins. Depois, até 2006, o Paulinho fez todos os meus discos (Cheio de Dedos, Suite Leopoldina, Cine Baronesa e Noturno Copacabana), menos um, o Delírio Carioca, em 93, porque ele não teria tempo na época da gravação, e pediu para o Zé Nogueira assumir a produção. Mas mesmo assim, todo dia ele dava um jeito de passar lá no estúdio pra dar uma olhada…

Mas foi justamente no primeiro disco que eu e o Paulinho nos aborrecemos…

Quando o CD ficou pronto eu dei uma entrevista no Jornal do Brasil, pro João Máximo. E o João fez aquela pergunta clássica: “E aí? Você ficou satisfeito com o resultado final do disco?”. Só que eu não respondi da maneira clássica! Não tinha muita prática nesse negócio de divulgação, e aí eu fui sincero demais, falei: “Eu fiquei satisfeito, mas não totalmente… Tem uma faixa lá que eu não gostei, uma faixa assim, assim…” Cara, eu não podia fazer isso! Eu dei um tiro no pé, fui sincero demais… Depois eu pensei: “Cara, pra que que eu fui falar isso?!”.

Quando o Paulinho leu a entrevista ficou muito puto, é claro. Depois eu fui ligar pra ele, pra tentar me explicar, dizer que não tinha feito por mal, e tal. E quando liguei, ele foi logo falando: “Guinga, não quero conversa contigo não, seu mau caráter!”. Ele foi curto e grosso, Paulinho era muito emocional… Aí eu, também agressivo pra cacete, falei: “Mau caráter?! Vai tomar no seu cu, filho da puta!” E bati o telefone. Imagina, isso no meu primeiro disco!… Aí eu fiquei com aquilo na cabeça: eu, que não sou mau caráter, sendo chamado de mau caráter por um cara que eu sabia que era o maior bom caráter…Resultado: a gente ficou um tempo sem se falar…Nesse período, o disco foi lançado. Aliás, foi super bem sucedido, saiu em todos os jornais nas listas de melhores do ano. E eu fiz o lançamento aqui no Rio, num centro cultural lá em Santa Tereza, e não falei porra nenhuma com o Paulinho. No dia do show, eu tava lá, tocando a terceira música, aí olhei pro canto da platéia, e tava lá o Paulinho em pé, ouvindo… Eu parei o show – porque também eu sou assim: não deixo pra amanhã o que eu posso fazer hoje – …parei de tocar, desci do palco e fui lá me abraçar com ele. Aí a gente ficou amigo pra caralho.Fico até emocionado de lembrar… Dali em diante tudo deu certo.

Guinga, Paulinho e Vivi.

(…) Eu penso nele todo dia… Na quinta-feira eu tava subindo a Timóteo da Costa, indo pra casa do Chico, pra jogar bola, e eu vi um carro igual ao do Paulinho, um Peugeot verde…Aí o carro deu uma parada. Naquele momento eu achei que ele ia sair do carro. Sabe essas loucuras? Essas fantasias…Eu fiquei ali parado, olhando pro carro de um jeito estranho…O dono do carro podia até achar que eu tava a fim de assaltar, roubar o carro, sei lá. E aí eu teria que explicar pra ele que eu tava parado ali só pra esperar o Paulinho Albuquerque sair do carro…

(Trechos de um papo com o Guinga, em 2007)

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